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EMILY CAMARGO DO NASCIMENTO Ver Perfil
Nasceu a 19 Maio 1998

Fã de Edgar Allan Poe, escrevo contos de amor e suspense com cenários mórbidos utilizando-me de linguagens típicas brasileiras.
 
O Escolhido.
Caminhando a passos lentos, voltando do trabalho muito mais tarde do que eu queria, senti a garganta arranhar, estava muito frio e eu parecia que adoeceria muito em breve. "Mais essa agora!" pensei. Como se j&aacute; n&atilde;o bastasse as pilhas de relatorios para revisar inadiavelmente, eu ficaria doente e dolorido. Meus refriados sempre eram fortes e me deixam muito mal.<br />As ruas da minha cidade s&atilde;o muito escuras e eu ando sempre a p&eacute;. Meu dinheiro &eacute; curto e eu tenho que sustentar a mim e ao meu filho, o Felipe. Felipe tem s&oacute; cinco anos e sente muito a falta da m&atilde;e. Minha querida e amada Julia, que Deus a tenha.<br />Chegando perto de casa eu sempre vejo a luzinha da Tv ligada da janela, j&aacute; passam das nove e meia da noite e Felipe sabe que j&aacute; devia estar dormindo. A bab&aacute; s&oacute; fica at&eacute; as oito ent&atilde;o ele aproveita pra fazer suas travessuras quando ela sai. Sempre que ele ouve o barulho do velho port&atilde;o de metal rangir eu vejo a luzinha da TV apagar, e como num passe de magica, quando eu entro em casa ele deita na cama e finge estar dormindo.<br />Menino travesso,o meu, mas eu prefiro que seja assim, pelo menos n&atilde;o &eacute; uma crian&ccedil;a triste.<br />Esta noite em especial eu cheguei e o Felipe n&atilde;o fingiu dormir, ao invez disso ele desligou a TV e me esperou na porta. Parecia chateado.<br />&mdash; Papai! Eu fiquei com medo.<br />Ele abra&ccedil;ou minhas pernas com for&ccedil;a e pareceu choramingar.<br />Meu cora&ccedil;&atilde;o estava partido, o que tinha feito meu garotinho levado chorar?<br />Eu acariciei seus cabelos escuros e me pareceram suados e oleosos. Afastei-o devagar e com delicadeza e me agachei para nivelar a altura.<br />&mdash; Do que voc&ecirc; teve medo filho? Aconteceu alguma coisa?<br />Ele esfregou os olhinhos molhados e avermelhados de sono. Seus olhos eram verdes, iguais os da Julia, lembrava muito a m&atilde;e.<br />&mdash;A B&aacute;rbara, foi embora muito cedo, eu n&atilde;o gosto de ficar sozinho aqui.<br />Eu fiquei confuso, B&aacute;rbara era a bab&aacute;, sempre foi muito confi&aacute;vel, e ela sempre me avisava quando tinha de sair antes do hor&aacute;rio, n&atilde;o me lembro dela ter dito nada a mim hoje.<br />&mdash;Como assim filho? A B&aacute;rbara sempre sai &agrave;s oito, quando a lua come&ccedil;a a aparecer lembra? E minutinhos depois o papai chega, s&oacute; hoje que eu me atrasei um pouquinho.<br />&mdash;Sim Papai! Mas hoje ela saiu quando ainda tinha sol, fiquei muito tempo sozinho, voc&ecirc; n&atilde;o chegava nunca mais, achei que voc&ecirc; tivesse ido embora.<br />Felipinho desabou a chorar, e aquilo deixou meu cora&ccedil;&atilde;o em frangalhos, ao mesmo tempo que me deixou enfurecido. Como a B&aacute;rbara pode fazer isso sem avisar, deixar meu pequeno sozinho sem mais nem menos.A que horas ela saiu?<br />&mdash;Filho, calma, voc&ecirc; j&aacute; tomou banho?<br />&mdash;N&atilde;o. Ela saiu sem me dar banho.<br />Ela sempre da banho no Felipe por volta das seis, antes de ele fazer a li&ccedil;&atilde;o, jantar e ir pra cama, se ela saiu sem dar banho nele, significava que ela havia saido no meio da tarde. Eu fiquei extremamente zangado. Respirei fundo, n&atilde;o podia transparecer minha furia a uma crian&ccedil;a.<br />&mdash;Vamos pro banheiro, papai vai te dar banho e a&iacute; a gente vai dormir, ta bom?<br />&mdash; Ta bom, mas eu posso dormir com voc&ecirc; hoje pai? S&oacute; hoje!<br />Tinha um n&oacute; na minha garganta. Engoli meu choro.<br />&mdash;Pode sim meu anjo.<br />Dei um banho no Felipe, ele estava bem sujinho, talvez de tanto brincar, ele pareceu mais alegre naquela hora, fazia muito tempo que eu n&atilde;o dava banho nele e ele gargalhava fazendo espuma pra todo lado. Cloquei ele na cama e acho que n&atilde;o demorou nem cinco minutos para que ele pegasse no sono, o pobrezinho parecia exausto.<br />Deitei na cama ao lado dele, mas n&atilde;o podia dormir, n&atilde;o sem uma explica&ccedil;&atilde;o,Levantei e sai do quarto silenciosamente, encostei a porta.<br />Fui at&eacute; a cozinha e peguei meu celular. Liguei pra B&aacute;rbara. Ela atendeu ao terceiro toque.<br />&mdash;Al&ocirc;.<br />&mdash;Al&ocirc;, B&aacute;rbara, aqui &eacute; o Greg&oacute;rio.<br />&mdash; Ah, seu Greg&oacute;rio, oi.<br />&mdash;B&aacute;rbara, o Felipe me disse que voc&ecirc; saiu mais cedo hoje, o que foi isso? Aconteceu alguma coisa? N&atilde;o me lembro de voc&ecirc; ter dito nada.<br />&mdash;N&atilde;o. &Eacute; que na verdade eu n&atilde;o vou mais.<br />&mdash; Como assim n&atilde;o vem mais? E o nosso contrato? o que aconteceu?<br />&mdash;Eu n&atilde;o posso &eacute; que .... n&atilde;o consigo, n&atilde;o da.<br />&mdash; Como assim? por que n&atilde;o?<br />&mdash;Essas pessoas estranhas paradas a&iacute; na frente da casa o dia todo, &eacute; pertubador, eu n&atilde;o posso com isso, to muito apavorada e .... n&atilde;o vou, n&atilde;o mesmo.<br />Eu n&atilde;o conseguia proessar o que ela estava falando, n&atilde;o estava entendendo bulhufas.<br />&mdash; Que pessoas menina? N&atilde;o tem ninguem aqui, do que voc&ecirc; ta falando?<br />&mdash; Desculpa, seu Greg&oacute;rio, me desculpa mesmo, manda o Beijo pro Felipinho, fala que eu adoro ele t&aacute;?<br />&mdash; O que? N&atilde;o, espera, como assim?<br />Ela desligou.<br />Que porra B&aacute;rbara!&nbsp;<br />Joguei o celular no ch&atilde;o.<br />Estava desamparado. E agora o que eu iria fazer? Ela esteve cuidando do Felipinho por dois anos, como eu iria achar uma substituta t&atilde;o em cima da hora?<br />Sentei na cadeira e dei uma respirada.&nbsp;<br />Pequei meu notebook e mandei um e-mail pro meu chefe, n&atilde;o poderia ir trabalhar no dia seguinte, ficaria cuindando do meu filho.<br />As palavras dela n&atilde;o me saiam da cabe&ccedil;a. De que pessoas ela estava falando?<br />Levantei e fui at&eacute; a janela da cozinha, abri s&oacute; uma pequena fenda, do outro lado da rua tr&ecirc;s figuras encapuzadas estavam paradas olhando pra casa, quando me perceberam espiar, acenaram pra mim.<br /><br /><hr /><br />Acordei meio suado, parecia j&aacute; ser tarde, s&oacute; me lembrava de ter ido me deitar ao lado do meu filho, &nbsp;eu estava apovorado e me perguntando quem seriam aquelas pessoas estranhas em frente a minha casa. Esfreguei os olhos tentando despertar, rolei para o lado e a cama meio bagun&ccedil;ada estava vazia. O felipe n&atilde;o estava ali.<br />Levantei de supet&atilde;o, estava tremendo, n&atilde;o sei se de frio ou de nervoso. talvez fosse os dois. Procurei no banheiro, nada. Chamei meu filho e n&atilde;o houve resposta.<br />Estava atordoado, meu deus, meu filho. &nbsp;Fui correndo at&eacute; a varanda dos fundos e vi o Bolinha, nosso cachorro comendo um peda&ccedil;o enorme de carne. Estranhei aquilo, eu n&atilde;o havia dado nada a ele, tinha acabado de acordar. N&atilde;o dei muita importancia, precisava achar meu filho.<br />Corri para a sala, estava vazia, da forma que estava na noite anterior. Estava ofegante, parecia que eu ia desmaiar quando ouvi um barulho de talher na cozinha.<br />Corri at&eacute; l&aacute; desesperado, entrei pela porta escorregando no piso por causa das meias, e vi meu filho, sentado a mesa, que estava farta, cheia de frutas e doces caseiros. Foi um alivio enorme, t&atilde;o grande que minhas pernas amoleceram, soltei todo o ar dos pulm&ocirc;es.<br />&mdash;Filho! N&atilde;o ouviu o papai te chamar?<br />Ele com toda a sua tranquilidade de crian&ccedil;a, balan&ccedil;ando as perninhas na cadeira terminou de mastigar uma colherada de ceral com fruta.<br />&mdash;N&atilde;o ouvi papai, desculpe.<br />Eu n&atilde;o sabia o que dizer, estava ficando paran&oacute;ico, dei um beijo na testa dele e fui pegar uma chicara de caf&eacute;, estava aliviado. Enchi uma chicara bem cheia de caf&eacute; e me escorei no balc&atilde;o,fui dar um gole e me virei para mesa e s&oacute; ent&atilde;o me dei conta. Quem havia preparado aquilo tudo?<br />Meus olhos arregalaram, meu cora&ccedil;&atilde;o palpitou, me senti tremer novamente, coloquei de vagar a chicara em cima do banc&atilde;o e vagarosamente me aproximei do Felipe, meu corpo em choque tentando entender, olhei para ele e perguntei pausadamente, engolindo em seco.<br />&mdash;Felipe.<br />&mdash;hum?<br />&mdash;Quem preparou isso tudo pra voc&ecirc;?<br />Ele me olhou confuso.<br />&mdash;Voc&ecirc;?<br />Eu esfreguei a m&atilde;o na testa, n&atilde;o estava conseguindo conter meu nervosismo.<br />&mdash;N&atilde;o filho, o pai tava dormindo.<br />ele fez uma express&atilde;o pensativa, entendo que pra ele deveria estar ainda mais dificil de compreender.<br />&mdash;humm, a B&aacute;rbara?<br />Ele estava tentando adivinhar.<br />&mdash;N&atilde;o querido, a B&aacute;rbara n&atilde;o veio hoje. Voc&ecirc; viu algu&eacute;m aqui hoje cedo? quero dizer, fazendo alguma coisa?<br />&mdash;N&atilde;o. J&aacute; tava aqui. Ah! Voc&ecirc; deixou a porta aberta ontem pai. tava tudo frio aqui.<br />Eu senti tontura, parecia que eu ia infartar. "n&atilde;o eu n&atilde;o deixei". pensei. Me apoiei na mesa para me manter de p&eacute;.<br />&mdash;Sim, claro, me esqueci, Obrigado.<br />Fui at&eacute; a porta da frente, andando meio duro, parecia um rob&ocirc;, inexpressivo, em choque. Olhei para fora com medo do que eu veria, mas para minha surpresa n&atilde;o havia nada estranho, aquelas pessoas da noite passada n&atilde;o estavam mais l&aacute;, olhei para a rua cima a baixo, procurando nem eu sei o que, e n&atilde;o vi absolutamente nada fora do normal. Quando j&aacute; estava quase fechando a porta vi no ch&atilde;o um papel meio amassado, resolvi desamassar para ver o que tinha ali, e para meu espanto, desnhado &agrave; lapis havia um simbolo estranho, um pent&aacute;gono com uma estrela de seis pontas no meio, e quatro assustadores olhos desenhados no centro da estrela, havia tamb&eacute;m outro peda&ccedil;o de papel colado no canto da folha com o carimbo de um ponto de interroga&ccedil;&atilde;o.<br />O que essas aberra&ccedil;&otilde;es estavam querendo me dizer? Eu estava surtando, guardei o papel no bolso do pijama, dei mais uma olhada para fora e fechei a porta. Tranquei.<br /><hr />Coloquei um agasalho no Felipe e me aprontei para pegar o onibus rumo a biblioteca municipal, eu vou scannear essa porcaria e fazer uma busca na internet para ver se eu acho alguma coisa que fa&ccedil;a sentido, se eu tiver sorte pode ser que seja alguma piada de mal gosto que se tornou viral.<br />Estavamos aguardando no ponto quando eu vejo de longe um golzinho velho vermelho se aproximando e parando bem perto de n&oacute;s, a janela do carro se abriu devagar e fazendo um rangido estranho.<br />&mdash;Falaa Greg!<br />Era o Barba, meu amigo do trabalho, o apelido dele &eacute; esse por causa da barba comprida que ele mantem e cuida igual cabelo de mulher. A maioria do pessoal at&eacute; j&aacute; esqueceu o nome dele de verdade, eu mesmo que o conhe&ccedil;o desde que entramos juntos na empresa me esque&ccedil;o as vezes, O nome dele &eacute; Jurandir, ent&atilde;o Barba, pega mais facil.<br />&mdash;Eae Barba!-Respondi.<br />Ele olhou para o Felipe, qu estava distraido.<br />&mdash; Oi Felipinho, como voc&ecirc; ta campe&atilde;o?<br />O Felipe adora o Barba, ao perceber que era ele ficou todo agitado.<br />&mdash;Oi Tio Barba! Eu cresci um tanto assim &oacute;. - Ele fez um sinal exagerado de tamanho com os bra&ccedil;os.-<br />&mdash;Tudo isso rapaz? desse jeito vai bater a cabe&ccedil;a nas nuvens eim.<br />&mdash;Uau! Eu acho que eu vou sim, dai eu vou comer um peda&ccedil;o delas, porque elas s&atilde;o de algod&atilde;o doce, s&oacute; que branco.<br />Levei a m&atilde;o na testa, que imagina&ccedil;&atilde;o era aquela, rimos muito.<br />&mdash;Mas eai Senhor Greg&oacute;rio, pra onde voc&ecirc; ta indo? Fiquei sabendo do que a Barbara fez, ela n&atilde;o &eacute; disso cara, que foda.<br />&mdash;Eu to indo na biblioteca agora. Pois &eacute; cara, sacanagem, acontece que ...<br />&mdash;N&atilde;o, n&atilde;o, me conta no caminho, vou dar uma carona pra voc&ecirc;s entra a&iacute;.<br />Ele jogou umas tralhas pro canto do banco de tras e eu acomodei o Felipe no assento. No caminho at&eacute; a biblioteca contei tudo o que tinha acontecido pro Barba, ele n&atilde;o falou nada at&eacute; eu terminar, s&oacute; balan&ccedil;ava a cabe&ccedil;a.<br />&mdash;Uff. - ele soutou o ar como se fosse algo pesado.- Mano, que porra de hist&oacute;ria bizarra que tu acabou de me contar. &Eacute; veridico mesmo?<br />&mdash;&Eacute; claro que &eacute; caramba! Da onde que eu ia inventar um tro&ccedil;o desse? Voc&ecirc; me conhece, sou quadrad&atilde;o demais pra isso de inventar coisa.<br />&mdash;Mas assim, os caras, deixaram o desenho e PUFF desapareceram no ar?<br />&mdash; O que? N&atilde;o! -Eu estava frustrado, ela n&atilde;o estava me levando a s&eacute;rio-.Eles s&oacute; deixaram l&aacute; e foram embora, seja l&aacute; pra onde gente estranha mora.<br />&mdash;Eu vou te ajudar a resolver essa fita a&iacute;.<br />&mdash;N&atilde;o precisa, deve ser bobeira.<br />&mdash;E da&iacute; se for bobeira? Agora eu quero saber, sou doido nesse neg&oacute;cio de teoria da conspira&ccedil;&atilde;o, meu sonho investigar essas paradas.<br />&mdash;Cara, n&atilde;o &eacute; teoria da conspira&ccedil;&atilde;o.<br />&mdash;N&atilde;o corta o meu barato, falou? Pra mim &eacute; sim, esses neg&oacute;cios existem em toda parte irm&atilde;o,ou voc&ecirc; acha que o homem foi mesmo pra lua? N&atilde;o se iluda!<br />&mdash;Ta bom. -Ri-. Mas eai, porque voc&ecirc; n&atilde;o foi trabalhar hoje?<br />&mdash;Peguei atestado, doido.<br />&mdash;Voc&ecirc; ta doente?<br />&mdash;To, doente daquele monte de relatorio, deus me livre.<br />&mdash;N&atilde;o acredito, O Marcelo vai ter que fazer tudo sozinho?<br />&mdash;Vai. - Ele me deu um olhar mal&eacute;fico e demos uma gargalhada juntos.- Aquele mala vive puxando o saco do Afonso, ele que se vire, n&atilde;o &eacute; o senhor prestativo, senso de dono da empresa? Se vi-re.<br />&mdash;Bem feito.<br />Chegamos em nosso destino, eu j&aacute; mais descontraido por causa da conversa com o Barba. A biblioteca municipal &eacute; um lugar enorme, deve ter sido construido l&aacute; por mil oitocentos e pouco, porque tem um aspecto bem antigo. Estacionamos o carro e subimos a longa escadaria at&eacute; a porta. Chegando l&aacute; me virei pro meu filho.<br />&mdash;Filho, o papai vi ter que procurar umas coisas e pode ser que demore um pouquinho, l&aacute; dentro tem uma sala de joguinhos e uma tia bem simp&aacute;tica que vai cuidar de voc&ecirc; l&aacute;, voc&ecirc; promete que vai se comportar?<br />Ele balan&ccedil;ou a cabe&ccedil;a em sinal de sim e saiu correndo para a entrada da sala de jogos.<br />Me aproximei da mo&ccedil;a da recep&ccedil;&atilde;o. Era uma mulher bonita, cerca de 30 anos, morena.<br />&mdash;Quanto t&aacute; a hora da salinha? - Perguntei pra ela-.<br />&mdash;S&atilde;o 20 reais, senhor.<br />Meu bolso doeu, aqueles homens misteriosos estavam me custando os olhos da cara.<br />&mdash;Me ve 1 hora ent&atilde;o, por favor.<br />&mdash;Nome?<br />&mdash;Greg&oacute;rio Aparecido Boulevard.<br />&mdash;Nome da crian&ccedil;a?<br />&mdash;Felipe Alcantara Boulevard<br />&mdash;Vamos anotar o telefone do senhor para contato.<br />Ela retirou uma fitinha com o nome do meu filho, amarrou no pulso dele e girou a catraca, Felipe saiu correndo feito um doido e sumiu no meio das crian&ccedil;as e dos brinquedos.<br />N&atilde;o pude conter minha preocupa&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o gostava de deixa-lo sozinho assim, mas desta vez foi preciso. Parece que transpareci demais, o Barba percebeu.<br />&mdash;Relaxa, a recepcionista bonitona vai cuidar dele.<br />Eu ri.<br />&mdash;Deixa s&oacute; a Cristina ouvir isso.<br />&mdash;Deus o livre, ela arranca meu couro.<br />Adentramos a imensa biblioteca e fomos confiantes rumo a nossa ca&ccedil;ada ao desconhecido.<br />Digitalizei o peda&ccedil;o de papel e fiz uma busca rapida na internet. Nada.Olhei para o Barba que assim como eu se sentiu frustrado. resolvi fazer uma busca em livros de papel. imprimi uma c&oacute;pia do simbolo para o barba e pedi para ele seguir pelo lado esquerdo da biblioteca e procurar por livros de simbologia ou qualquer coisa que remetesse ainda que vagamente aquilo. Eu segui pelo lado direito.<br />Voltamos minutos depois, ambos com os bra&ccedil;os cheios de livros pesados, colocamos sobre a bancada.<br />Depois de quase uma hora folheando p&aacute;ginas e mais p&aacute;ginas e sem sucesso algum, me senti exausto, estava quase na hora do Felipe sair da salinha de jogos e eu decidi fazer uma ultima busca desesperada. Sai entremeio as imensas prateleiras lendo os titulos nas bordas dos livros o mais r&aacute;pido quanto podia, quando um deles em especial chamou minha aten&ccedil;&atilde;o, era um livro velho de capa de couro cujo t&iacute;tulo era "Os lugares mais misteriosos do Brasil e suas hist&oacute;rias". Me aproximei dele, e retirei da prateleira pela borda, analisei a capa em busca de algo que indicasse se aquilo tinha alguma rela&ccedil;&atilde;o ainda que minima com meu simbolo misterioso, como n&atilde;o encontrei nada concreto olhei novamente para prateleira na inten&ccedil;&atilde;o de coloca-lo no lugar, mas o que vi, me fez tremer os ossos. Do outro lado, no espa&ccedil;o vazio que o livro deixara havia um homem parado, cujo o olho estava posicionado perfeitamente na brecha, um homem de pele escura e olhos verdes como folha. Eu travei, n&atilde;o sabia mais falar, gritar nem me mover, com muito custo consegui chamar o Barba que estava apenas a alguns passos de mim.&nbsp;<br />Ele parou ao meu lado confuso e olhou para prateleira, ao perceber aquele homem ali, ele entendeu o motivo do meu pavor. Barba sempre foi mais destemido que eu, e resolveu enfrentar a figura que viamos.<br />&mdash;Ei! Ei cara, o que voc&ecirc; ta querendo, meu irm&atilde;o?<br />O homem moveu-se saiu do nosso campo de vis&atilde;o, mas ouvimos sua voz grave e calma quando ele disse do outro lado.<br />&mdash;Aquele que com aplica&ccedil;&atilde;o procura, sempre achar&aacute;.<br />Barba puxou meu bra&ccedil;o, me tirando do meu estado de choque.<br />&mdash;Vamos Greg!Vamos caramba. Vamos pegar esse cara.<br />Caminhamos a passos r&aacute;pidos at&eacute; o fim do corredor para dar a volta e nos encontrarmos com nosso colega misterioso, mas quando dobramos a esquina n&atilde;o encontramos nada incomum. Do outro lado s&oacute; havia um grupo de estudante de cerca de vinte anos sentados em volta de uma grande mesa.<br />Barba se aproximou de um deles e questionou.<br />&mdash;Desculpa interromper voc&ecirc;s pessoal, mas voc&ecirc;s viram um cara grand&atilde;o, pele escura, olhos verdes por aqui?<br />O garoto olhos para os colegas como quem refazia a pergunta a todos e como ninguem se manifestou, respondeu:<br />&mdash;Foi mal, n&atilde;o prestamos aten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o.<br />Barba deu dois tapinhas no ombro do rapaz como quem diz um obrigado silencioso.<br />Nos afastamos andando lentamente, confusos e decepcionados. Peguei o Felipe na saida da salinha e s&oacute; ent&atilde;o me dei conta que ainda estava com o livro na m&atilde;o. Dei meia volta, na inten&ccedil;&atilde;o de retornar &aacute; prateleira para devolve-lo quando ouvi um grito e um alarme soou. No alto falante um rapaz repetia freneticamente. "inc&ecirc;ndio na sess&atilde;o 7, inc&ecirc;ndio na sess&atilde;o 7. Repito. Isso n&atilde;o &eacute; um teste, inc&ecirc;ncio na sess&atilde;o 7. Todos os leitores e funcionarios favor dirigerem-se para a saida mais proxima. repito(...)"<br />Coloquei o livro dentro do meu casaco, pequei meu filho no colo e fomos at&eacute; a sa&iacute;da principal. atr&aacute;s de n&oacute;s um caos de pessoas saindo apressadas e desnorteadas. Em silencio andamos at&eacute; o estacionamento e entramos no carro.<br />Barba suspirou forte, e soltou um palavr&atilde;o em tom animado e incr&eacute;dulo.<br />&mdash;Que merda foi essa meu amigo? Caraaaaalho, que isso? Mano, sess&atilde;o sete n&atilde;o era a que a gente estava? Caraaaalho, isso foi insano.<br />Eu estava com o olhar fixo a minha frente, era muito para processar, estava nervoso.<br />&mdash;Barba, e-eu roubei um livro da biblioteca municipal!<br />&mdash;O que??<br />&mdash;E-eu nunca roubei nada na vida, nem bala, uma vez a mo&ccedil;a me deu um real a mais no supermercado e eu devolvi. Eu roubei um livro da caralha da biblioteca municipal!<br />&mdash;Voc&ecirc; ta fumado Greg&oacute;rio? Me atualiza a&iacute; que eu n&atilde;o to entendendo porcaria nenhuma do que voc&ecirc; ta falando.<br />Abri o casaco, retirei o livro de dentro dele e apontei para o Barba. Estava euf&oacute;rico.<br />O Barba olhou pra ele, processou por alguns segundos. Soltou uma gargalhada e ligou o carro.<br />&mdash;Ora, ora, parece que temos um grande ladr&atilde;o entre n&oacute;s. Pr&oacute;xima parada, Banco Central.<br />&mdash;Cala sua boca!- Ri.<br />O transito naquela area estava pessimo por conta do fuzue do incendio. Camih&otilde;es de bombeiro pra todo lado, curiosos dirigindo devagar e polciais isolando a area. Pedi pro barba ligar o radio do carro pra gente saber o que os reporteres estavam falando sobre o acontecido.<br />Em varias esta&ccedil;&otilde;es de radio, ouvimos noticias de que o incendio fora criminoso, estavam analisando as cameras de seguran&ccedil;a para identificar o culpado. Chamaram o ato de terrorismo.<br />Naquele momento estavamos tensos. Aquilo tinha tomado propor&ccedil;&otilde;es muito maiores do que jamais pudemos imaginar. N&atilde;o eram apenas caras estranhos querendo fazer uma pegadinha de mal gosto, era algo muito s&eacute;rio, e o pior de tudo &eacute; que eu estava envolvido.<br />&mdash;Mano. -Eu disse tentando n&atilde;o parecer nervoso-. O que eu vou fazer agora?<br />Barba me olhou por uns instantes.<br />&mdash;Voc&ecirc;? voc&ecirc; nada. N&Oacute;S vamos dar um jeito nesses caras. Vamos na policia, talvez eles n&oacute;s ajudem em algo.<br />Me exautei.<br />&mdash;Policia? Voc&ecirc; ta loc&atilde;o? Eu n&atilde;o posso ir na policia! E-eu, eu roubei a merda de um livro!<br />&mdash;Ta bom, ta bom! Calma! Vamos resolver n&oacute;s dois ent&atilde;o. Eu e voc&ecirc;. Sem policia.<br />&mdash;Melhor assim.- Esfreguei as m&atilde;os no rosto tentando aliviar a tens&atilde;o e pensar lucidamente-. Mas o que n&oacute;s dois contadores de uma empresa furreca podemos fazer? Estamos fu...- Lembrei que meu filho de 5 anos de idade estava no banco de tras ouvindo todos aqueles palavr&otilde;es. me senti um p&eacute;ssimo pai.- Estamos lascados!<br /><hr /><br /> <p>Barba me deixou na porta de casa, tudo parecia estranho ali, segurando a m&atilde;ozinha gelada do meu filho tudo que eu conseguia sentir era medo. Eu havia passado o dia todo correndo atr&aacute;s de mist&eacute;rios e me esqueci completamente que, apesar das minhas horr&iacute;veis aventuras eu ainda era um pobret&atilde;o que por acaso trabalharia na manh&atilde; seguinte e n&atilde;o tinha nenhuma bab&aacute;.</p> <p>Barba j&aacute; estava saindo quando pedi para que esperasse um pouco e abaixasse os vidros. Precisava fazer um pedido a ele:</p> <p>&mdash;Mano, tem como voc&ecirc; me arrumar um desses seus atestados a&iacute;? Ainda to sem bab&aacute;, cara.</p> <p>Barba fez uma express&atilde;o malandra.</p> <p>&mdash;&Eacute; claro que eu consigo, Brother! Peguei um de 7 dias pra mim. Te arranjo um igual, at&eacute; voc&ecirc; acertar essas paradas suas a&iacute; com os iluminatti.</p> <p>N&atilde;o acreditava que tinha escutado aquilo. Barba era mesmo muito doid&atilde;o. Ri muito.</p> <p>&mdash;Sim claro! E com os Ma&ccedil;ons tamb&eacute;m.</p> <p>Barba riu, mas depois fez uma express&atilde;o pensativa.</p> <p>&mdash;Mano! Ser&aacute; que eles s&atilde;o Ma&ccedil;ons?!</p> <p>N&atilde;o podia acreditar naquilo. Bati a m&atilde;o na testa.</p> <p>&mdash;Vai pra casa, Barba.</p> <p>Ele arrancou com o carro em alta velocidade e saiu fazendo uma barulheira pelo bairro todo. Aquele velho golzinho deve estar todo ferrado com as loucuras que o Barba apronta com ele. O que se pode fazer? O cara vive intensamente. Eu, por outro lado, n&atilde;o passo de um pamonha.<br />Destranquei a porta e logo que ela abril Felipe saiu correndo pra dentro, imaginei o qu&atilde;o cansado das aventuras de hoje ele deveria estar, correu pra geladeira e pegou um peda&ccedil;o enorme de chocolate que estava l&aacute; esquecido. Pensei em repreende-lo por comer doces aquela hora, mas n&atilde;o o fiz, s&oacute; desta fez n&atilde;o faria mal algum. Comecei a dar uma organizada na casa, quando fui procurar o Felipe para organizar os brinquedos da sala o encontrei jogado na minha cama dormindo ainda com o chocolate lhe lambuzando as m&atilde;oszinhas. O cobri e voltei aos meus afazeres dom&eacute;sticos.<br />Pensei em abandonar toda aquela loucura, aqueles homens de capuz e o episodio todo da biblioteca, n&atilde;o era nenhum agente secreto para ficar resolvendo misterios, mas era um pai que precisava tomar conta de seu filho pequeno. Decidi que no dia seguinte devolveria o livro &agrave; biblioteca e diria que na correria o levei por engano e se acaso aqueles homens aparecessem novamente eu chamaria a policia. Era o mais sensato a se fazer.<br />Estava perdido em meus pensamentos quando ouvi uma batida na porta, dei um pulo do susto que levei, n&atilde;o estava esperando ninguem, provavelmente o Barba havia esquecido algo e voltou para dizer.<br />Abri a porta calmamente, mas n&atilde;o foi o Barba que vi, na verdade era uma figura completamente diferente, uma mo&ccedil;a loira, n&atilde;o mais que quarenta anos, trajando um vestido fino vermelho, parecia uma celebridade. O unico pensamento que me passava pela cabe&ccedil;a era o que um ser t&atilde;o deslumbrante fazia &agrave; minha porta no suburbio do mundo. Quase n&atilde;o consegui dizer nada.<br />&mdash; Senhor Boulevard? -Ela perguntou com um sotaque germ&acirc;nico-.<br />Balancei a cabe&ccedil;a como que para desfazer minha cara de boc&oacute;.<br />&mdash; Eu mesmo, pois n&atilde;o?<br />Ela me entregou um envelope igualmente vermelho com meu nome escrito em letra cursiva.<br />&mdash; Compare&ccedil;a neste endere&ccedil;o hoje &agrave;s 20:00 horas.&nbsp;<br />N&atilde;o entendi porcaria nenhuma, percei naquele momento que de uns dias para ali eu n&atilde;o entendia nada de porcaria nenhuma. Tentei parecer educado.<br />&mdash;Perd&atilde;o Senhorita, do que se trata?<br />Ela n&atilde;o tinha express&atilde;o alguma.<br />&mdash; Posso lhe dizer que n&atilde;o se trata de um convite.<br />Fiquei atonito e com um pouco de raiva tamb&eacute;m, eu agora seria for&ccedil;ado a ir a lugares.<br />Abri a boca para protestar, mas ela n&atilde;o permaneceu para me escutar, virou as costas e andou at&eacute; um enorme carro preto que estava parado em meu port&atilde;o, sentou no banco de tras e saiu sem nem se quer olhar novamente para mim.<br />Pronto! pensei. Mais essa agora! Eu j&aacute; tinha decido n&atilde;o entrar nessa loucura.&nbsp;<br />Passei a tarde tentando ignorar aquele envelope maldito, mas eu sofria de um mal incur&aacute;vel, a curiosidade.<br />Abri o envelope e dentro dele s&oacute; havia um bilhete simples escrito &agrave; m&atilde;o com um endere&ccedil;o. Naquele momento eu entendi o que me for&ccedil;aria a ir at&eacute; l&aacute;. Eu mesmo.<br />Liguei pro Barba e pedi pra ele cuidar do Felipe naquela noite. fucei o guarda roupas em busca do meu terno de casamento, me pareceu pela aparencia da mo&ccedil;a que eram pessoas poderosas com a qual iria lidar, ent&atilde;o precisava me misturar. Ao retirar meu velho palet&oacute; empoeirado no cabide meu cora&ccedil;&atilde;o apertou. Que saudades Julia,meu amor. Se ao menos voc&ecirc; estivesse aqui.&nbsp;Afastei meus pensamentos tristonhos e me trajei a rigor.<br />Escutei alguem bater &agrave; porta, era o Barba, finalmente. Estava com um cigarro de seda na boca.<br />&mdash; Que porra &eacute; essa a&iacute;,Barba?<br />&mdash;Maconha.<br />&mdash; Eu sei que &eacute; maconha seu animal. Eu quero dizer.. cara tem uma crian&ccedil;a aqui, voc&ecirc; sabe n&eacute;.<br />&mdash; Ou, eu sei ta. -Jogou o cigarro no ch&atilde;o e pisou em cima-. a&iacute;, pronto j&aacute; joguei fora.<br />&mdash;ah, sim agora ta melhor mesmo. - Estava nervoso, passei a m&atilde;o pela cabe&ccedil;a-. deus, eu vou deixar o meu filho com um drogado!<br />&mdash; Cara n&atilde;o surta, relaxa, vai l&aacute; encontrar a loira gostosona.<br />&mdash;Eu n&atilde;o ... olha, s&oacute; n&atilde;o deixa ele sair de casa ta? ele se vira.<br />&mdash;Ta bom.<br />Eu n&atilde;o sabia que rumo aquilo estava tomando, peguei as chaves do carro do Barba emprestado e sa&iacute;. Sem ter a m&iacute;nima ideia do que me aguardava.

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