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EMILY CAMARGO DO NASCIMENTO Ver Perfil
Nasceu a 19 Maio 1998

Fã de Edgar Allan Poe, escrevo contos de amor e suspense com cenários mórbidos utilizando-me de linguagens típicas brasileiras.
 
O Escolhido.
Caminhando a passos lentos, voltando do trabalho muito mais tarde do que eu queria, senti a garganta arranhar, estava muito frio e eu parecia que adoeceria muito em breve. "Mais essa agora!" pensei. Como se já não bastasse as pilhas de relatorios para revisar inadiavelmente, eu ficaria doente e dolorido. Meus refriados sempre eram fortes e me deixam muito mal.
As ruas da minha cidade são muito escuras e eu ando sempre a pé. Meu dinheiro é curto e eu tenho que sustentar a mim e ao meu filho, o Felipe. Felipe tem só cinco anos e sente muito a falta da mãe. Minha querida e amada Julia, que Deus a tenha.
Chegando perto de casa eu sempre vejo a luzinha da Tv ligada da janela, já passam das nove e meia da noite e Felipe sabe que já devia estar dormindo. A babá só fica até as oito então ele aproveita pra fazer suas travessuras quando ela sai. Sempre que ele ouve o barulho do velho portão de metal rangir eu vejo a luzinha da TV apagar, e como num passe de magica, quando eu entro em casa ele deita na cama e finge estar dormindo.
Menino travesso,o meu, mas eu prefiro que seja assim, pelo menos não é uma criança triste.
Esta noite em especial eu cheguei e o Felipe não fingiu dormir, ao invez disso ele desligou a TV e me esperou na porta. Parecia chateado.
— Papai! Eu fiquei com medo.
Ele abraçou minhas pernas com força e pareceu choramingar.
Meu coração estava partido, o que tinha feito meu garotinho levado chorar?
Eu acariciei seus cabelos escuros e me pareceram suados e oleosos. Afastei-o devagar e com delicadeza e me agachei para nivelar a altura.
— Do que você teve medo filho? Aconteceu alguma coisa?
Ele esfregou os olhinhos molhados e avermelhados de sono. Seus olhos eram verdes, iguais os da Julia, lembrava muito a mãe.
—A Bárbara, foi embora muito cedo, eu não gosto de ficar sozinho aqui.
Eu fiquei confuso, Bárbara era a babá, sempre foi muito confiável, e ela sempre me avisava quando tinha de sair antes do horário, não me lembro dela ter dito nada a mim hoje.
—Como assim filho? A Bárbara sempre sai às oito, quando a lua começa a aparecer lembra? E minutinhos depois o papai chega, só hoje que eu me atrasei um pouquinho.
—Sim Papai! Mas hoje ela saiu quando ainda tinha sol, fiquei muito tempo sozinho, você não chegava nunca mais, achei que você tivesse ido embora.
Felipinho desabou a chorar, e aquilo deixou meu coração em frangalhos, ao mesmo tempo que me deixou enfurecido. Como a Bárbara pode fazer isso sem avisar, deixar meu pequeno sozinho sem mais nem menos.A que horas ela saiu?
—Filho, calma, você já tomou banho?
—Não. Ela saiu sem me dar banho.
Ela sempre da banho no Felipe por volta das seis, antes de ele fazer a lição, jantar e ir pra cama, se ela saiu sem dar banho nele, significava que ela havia saido no meio da tarde. Eu fiquei extremamente zangado. Respirei fundo, não podia transparecer minha furia a uma criança.
—Vamos pro banheiro, papai vai te dar banho e aí a gente vai dormir, ta bom?
— Ta bom, mas eu posso dormir com você hoje pai? Só hoje!
Tinha um nó na minha garganta. Engoli meu choro.
—Pode sim meu anjo.
Dei um banho no Felipe, ele estava bem sujinho, talvez de tanto brincar, ele pareceu mais alegre naquela hora, fazia muito tempo que eu não dava banho nele e ele gargalhava fazendo espuma pra todo lado. Cloquei ele na cama e acho que não demorou nem cinco minutos para que ele pegasse no sono, o pobrezinho parecia exausto.
Deitei na cama ao lado dele, mas não podia dormir, não sem uma explicação,Levantei e sai do quarto silenciosamente, encostei a porta.
Fui até a cozinha e peguei meu celular. Liguei pra Bárbara. Ela atendeu ao terceiro toque.
—Alô.
—Alô, Bárbara, aqui é o Gregório.
— Ah, seu Gregório, oi.
—Bárbara, o Felipe me disse que você saiu mais cedo hoje, o que foi isso? Aconteceu alguma coisa? Não me lembro de você ter dito nada.
—Não. É que na verdade eu não vou mais.
— Como assim não vem mais? E o nosso contrato? o que aconteceu?
—Eu não posso é que .... não consigo, não da.
— Como assim? por que não?
—Essas pessoas estranhas paradas aí na frente da casa o dia todo, é pertubador, eu não posso com isso, to muito apavorada e .... não vou, não mesmo.
Eu não conseguia proessar o que ela estava falando, não estava entendendo bulhufas.
— Que pessoas menina? Não tem ninguem aqui, do que você ta falando?
— Desculpa, seu Gregório, me desculpa mesmo, manda o Beijo pro Felipinho, fala que eu adoro ele tá?
— O que? Não, espera, como assim?
Ela desligou.
Que porra Bárbara! 
Joguei o celular no chão.
Estava desamparado. E agora o que eu iria fazer? Ela esteve cuidando do Felipinho por dois anos, como eu iria achar uma substituta tão em cima da hora?
Sentei na cadeira e dei uma respirada. 
Pequei meu notebook e mandei um e-mail pro meu chefe, não poderia ir trabalhar no dia seguinte, ficaria cuindando do meu filho.
As palavras dela não me saiam da cabeça. De que pessoas ela estava falando?
Levantei e fui até a janela da cozinha, abri só uma pequena fenda, do outro lado da rua três figuras encapuzadas estavam paradas olhando pra casa, quando me perceberam espiar, acenaram pra mim.



Acordei meio suado, parecia já ser tarde, só me lembrava de ter ido me deitar ao lado do meu filho,  eu estava apovorado e me perguntando quem seriam aquelas pessoas estranhas em frente a minha casa. Esfreguei os olhos tentando despertar, rolei para o lado e a cama meio bagunçada estava vazia. O felipe não estava ali.
Levantei de supetão, estava tremendo, não sei se de frio ou de nervoso. talvez fosse os dois. Procurei no banheiro, nada. Chamei meu filho e não houve resposta.
Estava atordoado, meu deus, meu filho.  Fui correndo até a varanda dos fundos e vi o Bolinha, nosso cachorro comendo um pedaço enorme de carne. Estranhei aquilo, eu não havia dado nada a ele, tinha acabado de acordar. Não dei muita importancia, precisava achar meu filho.
Corri para a sala, estava vazia, da forma que estava na noite anterior. Estava ofegante, parecia que eu ia desmaiar quando ouvi um barulho de talher na cozinha.
Corri até lá desesperado, entrei pela porta escorregando no piso por causa das meias, e vi meu filho, sentado a mesa, que estava farta, cheia de frutas e doces caseiros. Foi um alivio enorme, tão grande que minhas pernas amoleceram, soltei todo o ar dos pulmôes.
—Filho! Não ouviu o papai te chamar?
Ele com toda a sua tranquilidade de criança, balançando as perninhas na cadeira terminou de mastigar uma colherada de ceral com fruta.
—Não ouvi papai, desculpe.
Eu não sabia o que dizer, estava ficando paranóico, dei um beijo na testa dele e fui pegar uma chicara de café, estava aliviado. Enchi uma chicara bem cheia de café e me escorei no balcão,fui dar um gole e me virei para mesa e só então me dei conta. Quem havia preparado aquilo tudo?
Meus olhos arregalaram, meu coração palpitou, me senti tremer novamente, coloquei de vagar a chicara em cima do bancão e vagarosamente me aproximei do Felipe, meu corpo em choque tentando entender, olhei para ele e perguntei pausadamente, engolindo em seco.
—Felipe.
—hum?
—Quem preparou isso tudo pra você?
Ele me olhou confuso.
—Você?
Eu esfreguei a mão na testa, não estava conseguindo conter meu nervosismo.
—Não filho, o pai tava dormindo.
ele fez uma expressão pensativa, entendo que pra ele deveria estar ainda mais dificil de compreender.
—humm, a Bárbara?
Ele estava tentando adivinhar.
—Não querido, a Bárbara não veio hoje. Você viu alguém aqui hoje cedo? quero dizer, fazendo alguma coisa?
—Não. Já tava aqui. Ah! Você deixou a porta aberta ontem pai. tava tudo frio aqui.
Eu senti tontura, parecia que eu ia infartar. "não eu não deixei". pensei. Me apoiei na mesa para me manter de pé.
—Sim, claro, me esqueci, Obrigado.
Fui até a porta da frente, andando meio duro, parecia um robô, inexpressivo, em choque. Olhei para fora com medo do que eu veria, mas para minha surpresa não havia nada estranho, aquelas pessoas da noite passada não estavam mais lá, olhei para a rua cima a baixo, procurando nem eu sei o que, e não vi absolutamente nada fora do normal. Quando já estava quase fechando a porta vi no chão um papel meio amassado, resolvi desamassar para ver o que tinha ali, e para meu espanto, desnhado à lapis havia um simbolo estranho, um pentágono com uma estrela de seis pontas no meio, e quatro assustadores olhos desenhados no centro da estrela, havia também outro pedaço de papel colado no canto da folha com o carimbo de um ponto de interrogação.
O que essas aberrações estavam querendo me dizer? Eu estava surtando, guardei o papel no bolso do pijama, dei mais uma olhada para fora e fechei a porta. Tranquei.

Coloquei um agasalho no Felipe e me aprontei para pegar o onibus rumo a biblioteca municipal, eu vou scannear essa porcaria e fazer uma busca na internet para ver se eu acho alguma coisa que faça sentido, se eu tiver sorte pode ser que seja alguma piada de mal gosto que se tornou viral.
Estavamos aguardando no ponto quando eu vejo de longe um golzinho velho vermelho se aproximando e parando bem perto de nós, a janela do carro se abriu devagar e fazendo um rangido estranho.
—Falaa Greg!
Era o Barba, meu amigo do trabalho, o apelido dele é esse por causa da barba comprida que ele mantem e cuida igual cabelo de mulher. A maioria do pessoal até já esqueceu o nome dele de verdade, eu mesmo que o conheço desde que entramos juntos na empresa me esqueço as vezes, O nome dele é Jurandir, então Barba, pega mais facil.
—Eae Barba!-Respondi.
Ele olhou para o Felipe, qu estava distraido.
— Oi Felipinho, como você ta campeão?
O Felipe adora o Barba, ao perceber que era ele ficou todo agitado.
—Oi Tio Barba! Eu cresci um tanto assim ó. - Ele fez um sinal exagerado de tamanho com os braços.-
—Tudo isso rapaz? desse jeito vai bater a cabeça nas nuvens eim.
—Uau! Eu acho que eu vou sim, dai eu vou comer um pedaço delas, porque elas são de algodão doce, só que branco.
Levei a mão na testa, que imaginação era aquela, rimos muito.
—Mas eai Senhor Gregório, pra onde você ta indo? Fiquei sabendo do que a Barbara fez, ela não é disso cara, que foda.
—Eu to indo na biblioteca agora. Pois é cara, sacanagem, acontece que ...
—Não, não, me conta no caminho, vou dar uma carona pra vocês entra aí.
Ele jogou umas tralhas pro canto do banco de tras e eu acomodei o Felipe no assento. No caminho até a biblioteca contei tudo o que tinha acontecido pro Barba, ele não falou nada até eu terminar, só balançava a cabeça.
—Uff. - ele soutou o ar como se fosse algo pesado.- Mano, que porra de história bizarra que tu acabou de me contar. É veridico mesmo?
—É claro que é caramba! Da onde que eu ia inventar um troço desse? Você me conhece, sou quadradão demais pra isso de inventar coisa.
—Mas assim, os caras, deixaram o desenho e PUFF desapareceram no ar?
— O que? Não! -Eu estava frustrado, ela não estava me levando a sério-.Eles só deixaram lá e foram embora, seja lá pra onde gente estranha mora.
—Eu vou te ajudar a resolver essa fita aí.
—Não precisa, deve ser bobeira.
—E daí se for bobeira? Agora eu quero saber, sou doido nesse negócio de teoria da conspiração, meu sonho investigar essas paradas.
—Cara, não é teoria da conspiração.
—Não corta o meu barato, falou? Pra mim é sim, esses negócios existem em toda parte irmão,ou você acha que o homem foi mesmo pra lua? Não se iluda!
—Ta bom. -Ri-. Mas eai, porque você não foi trabalhar hoje?
—Peguei atestado, doido.
—Você ta doente?
—To, doente daquele monte de relatorio, deus me livre.
—Não acredito, O Marcelo vai ter que fazer tudo sozinho?
—Vai. - Ele me deu um olhar maléfico e demos uma gargalhada juntos.- Aquele mala vive puxando o saco do Afonso, ele que se vire, não é o senhor prestativo, senso de dono da empresa? Se vi-re.
—Bem feito.
Chegamos em nosso destino, eu já mais descontraido por causa da conversa com o Barba. A biblioteca municipal é um lugar enorme, deve ter sido construido lá por mil oitocentos e pouco, porque tem um aspecto bem antigo. Estacionamos o carro e subimos a longa escadaria até a porta. Chegando lá me virei pro meu filho.
—Filho, o papai vi ter que procurar umas coisas e pode ser que demore um pouquinho, lá dentro tem uma sala de joguinhos e uma tia bem simpática que vai cuidar de você lá, você promete que vai se comportar?
Ele balançou a cabeça em sinal de sim e saiu correndo para a entrada da sala de jogos.
Me aproximei da moça da recepção. Era uma mulher bonita, cerca de 30 anos, morena.
—Quanto tá a hora da salinha? - Perguntei pra ela-.
—São 20 reais, senhor.
Meu bolso doeu, aqueles homens misteriosos estavam me custando os olhos da cara.
—Me ve 1 hora então, por favor.
—Nome?
—Gregório Aparecido Boulevard.
—Nome da criança?
—Felipe Alcantara Boulevard
—Vamos anotar o telefone do senhor para contato.
Ela retirou uma fitinha com o nome do meu filho, amarrou no pulso dele e girou a catraca, Felipe saiu correndo feito um doido e sumiu no meio das crianças e dos brinquedos.
Não pude conter minha preocupação, não gostava de deixa-lo sozinho assim, mas desta vez foi preciso. Parece que transpareci demais, o Barba percebeu.
—Relaxa, a recepcionista bonitona vai cuidar dele.
Eu ri.
—Deixa só a Cristina ouvir isso.
—Deus o livre, ela arranca meu couro.
Adentramos a imensa biblioteca e fomos confiantes rumo a nossa caçada ao desconhecido.
Digitalizei o pedaço de papel e fiz uma busca rapida na internet. Nada.Olhei para o Barba que assim como eu se sentiu frustrado. resolvi fazer uma busca em livros de papel. imprimi uma cópia do simbolo para o barba e pedi para ele seguir pelo lado esquerdo da biblioteca e procurar por livros de simbologia ou qualquer coisa que remetesse ainda que vagamente aquilo. Eu segui pelo lado direito.
Voltamos minutos depois, ambos com os braços cheios de livros pesados, colocamos sobre a bancada.
Depois de quase uma hora folheando páginas e mais páginas e sem sucesso algum, me senti exausto, estava quase na hora do Felipe sair da salinha de jogos e eu decidi fazer uma ultima busca desesperada. Sai entremeio as imensas prateleiras lendo os titulos nas bordas dos livros o mais rápido quanto podia, quando um deles em especial chamou minha atenção, era um livro velho de capa de couro cujo título era "Os lugares mais misteriosos do Brasil e suas histórias". Me aproximei dele, e retirei da prateleira pela borda, analisei a capa em busca de algo que indicasse se aquilo tinha alguma relação ainda que minima com meu simbolo misterioso, como não encontrei nada concreto olhei novamente para prateleira na intenção de coloca-lo no lugar, mas o que vi, me fez tremer os ossos. Do outro lado, no espaço vazio que o livro deixara havia um homem parado, cujo o olho estava posicionado perfeitamente na brecha, um homem de pele escura e olhos verdes como folha. Eu travei, não sabia mais falar, gritar nem me mover, com muito custo consegui chamar o Barba que estava apenas a alguns passos de mim. 
Ele parou ao meu lado confuso e olhou para prateleira, ao perceber aquele homem ali, ele entendeu o motivo do meu pavor. Barba sempre foi mais destemido que eu, e resolveu enfrentar a figura que viamos.
—Ei! Ei cara, o que você ta querendo, meu irmão?
O homem moveu-se saiu do nosso campo de visão, mas ouvimos sua voz grave e calma quando ele disse do outro lado.
—Aquele que com aplicação procura, sempre achará.
Barba puxou meu braço, me tirando do meu estado de choque.
—Vamos Greg!Vamos caramba. Vamos pegar esse cara.
Caminhamos a passos rápidos até o fim do corredor para dar a volta e nos encontrarmos com nosso colega misterioso, mas quando dobramos a esquina não encontramos nada incomum. Do outro lado só havia um grupo de estudante de cerca de vinte anos sentados em volta de uma grande mesa.
Barba se aproximou de um deles e questionou.
—Desculpa interromper vocês pessoal, mas vocês viram um cara grandão, pele escura, olhos verdes por aqui?
O garoto olhos para os colegas como quem refazia a pergunta a todos e como ninguem se manifestou, respondeu:
—Foi mal, não prestamos atenção não.
Barba deu dois tapinhas no ombro do rapaz como quem diz um obrigado silencioso.
Nos afastamos andando lentamente, confusos e decepcionados. Peguei o Felipe na saida da salinha e só então me dei conta que ainda estava com o livro na mão. Dei meia volta, na intenção de retornar á prateleira para devolve-lo quando ouvi um grito e um alarme soou. No alto falante um rapaz repetia freneticamente. "incêndio na sessão 7, incêndio na sessão 7. Repito. Isso não é um teste, incêncio na sessão 7. Todos os leitores e funcionarios favor dirigerem-se para a saida mais proxima. repito(...)"
Coloquei o livro dentro do meu casaco, pequei meu filho no colo e fomos até a saída principal. atrás de nós um caos de pessoas saindo apressadas e desnorteadas. Em silencio andamos até o estacionamento e entramos no carro.
Barba suspirou forte, e soltou um palavrão em tom animado e incrédulo.
—Que merda foi essa meu amigo? Caraaaaalho, que isso? Mano, sessão sete não era a que a gente estava? Caraaaalho, isso foi insano.
Eu estava com o olhar fixo a minha frente, era muito para processar, estava nervoso.
—Barba, e-eu roubei um livro da biblioteca municipal!
—O que??
—E-eu nunca roubei nada na vida, nem bala, uma vez a moça me deu um real a mais no supermercado e eu devolvi. Eu roubei um livro da caralha da biblioteca municipal!
—Você ta fumado Gregório? Me atualiza aí que eu não to entendendo porcaria nenhuma do que você ta falando.
Abri o casaco, retirei o livro de dentro dele e apontei para o Barba. Estava eufórico.
O Barba olhou pra ele, processou por alguns segundos. Soltou uma gargalhada e ligou o carro.
—Ora, ora, parece que temos um grande ladrão entre nós. Próxima parada, Banco Central.
—Cala sua boca!- Ri.
O transito naquela area estava pessimo por conta do fuzue do incendio. Camihões de bombeiro pra todo lado, curiosos dirigindo devagar e polciais isolando a area. Pedi pro barba ligar o radio do carro pra gente saber o que os reporteres estavam falando sobre o acontecido.
Em varias estações de radio, ouvimos noticias de que o incendio fora criminoso, estavam analisando as cameras de segurança para identificar o culpado. Chamaram o ato de terrorismo.
Naquele momento estavamos tensos. Aquilo tinha tomado proporções muito maiores do que jamais pudemos imaginar. Não eram apenas caras estranhos querendo fazer uma pegadinha de mal gosto, era algo muito sério, e o pior de tudo é que eu estava envolvido.
—Mano. -Eu disse tentando não parecer nervoso-. O que eu vou fazer agora?
Barba me olhou por uns instantes.
—Você? você nada. NÓS vamos dar um jeito nesses caras. Vamos na policia, talvez eles nós ajudem em algo.
Me exautei.
—Policia? Você ta locão? Eu não posso ir na policia! E-eu, eu roubei a merda de um livro!
—Ta bom, ta bom! Calma! Vamos resolver nós dois então. Eu e você. Sem policia.
—Melhor assim.- Esfreguei as mãos no rosto tentando aliviar a tensão e pensar lucidamente-. Mas o que nós dois contadores de uma empresa furreca podemos fazer? Estamos fu...- Lembrei que meu filho de 5 anos de idade estava no banco de tras ouvindo todos aqueles palavrões. me senti um péssimo pai.- Estamos lascados!


Barba me deixou na porta de casa, tudo parecia estranho ali, segurando a mãozinha gelada do meu filho tudo que eu conseguia sentir era medo. Eu havia passado o dia todo correndo atrás de mistérios e me esqueci completamente que, apesar das minhas horríveis aventuras eu ainda era um pobretão que por acaso trabalharia na manhã seguinte e não tinha nenhuma babá.

Barba já estava saindo quando pedi para que esperasse um pouco e abaixasse os vidros. Precisava fazer um pedido a ele:

—Mano, tem como você me arrumar um desses seus atestados aí? Ainda to sem babá, cara.

Barba fez uma expressão malandra.

—É claro que eu consigo, Brother! Peguei um de 7 dias pra mim. Te arranjo um igual, até você acertar essas paradas suas aí com os iluminatti.

Não acreditava que tinha escutado aquilo. Barba era mesmo muito doidão. Ri muito.

—Sim claro! E com os Maçons também.

Barba riu, mas depois fez uma expressão pensativa.

—Mano! Será que eles são Maçons?!

Não podia acreditar naquilo. Bati a mão na testa.

—Vai pra casa, Barba.

Ele arrancou com o carro em alta velocidade e saiu fazendo uma barulheira pelo bairro todo. Aquele velho golzinho deve estar todo ferrado com as loucuras que o Barba apronta com ele. O que se pode fazer? O cara vive intensamente. Eu, por outro lado, não passo de um pamonha.














































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