PROSAICA VIDA


Chovia.

Minha mãe condenava Deus

(Que o diabo o conserve em casa).

Calça as sandálias,

o relâmpago é uma brasa

e o trovão é um adeus.

“Tem piedade de minha alma”,

estava escrito na capa

de um velho livro meu.

Crescia.

A tristeza me abraçava

como a morte se agarra

com alguém que já morreu.

O filho é ou não é meu?

Minha mãe, se escutava,

nunca o respondeu.

O meu pai bebia as mágoas

pela dor que lhe nasceu.

Como seu filho, eu também.

Nosso consolo era a bebida.

E todo o cotidiano

de minha prosaica vida

era um amém.

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