

Himalayanpanda
Sou um Nepalês, mas moro no Bahia, Brasil há 12 anos. Sou estudante de antropologia e gosto muito de ler literatura variada, desde literatura até ciências. Ocasionalmente, também escrevo na minha língua materna, que não está listada no Google Tradutor. Alguns dos meus escritos já foram publicados. Estou aprendendo português (BR).
A Tempestade (um conto filosófico por Khalil Gibran)
-Khalil Gibran
Tra.: Ranjan Lekhy
December 1, 2025
Yusuf al-Fakhri tinha cerca de trinta anos quando abandonou a sociedade e se instalou em um eremitério isolado perto do vale de Kadisha, no norte do Líbano. Nos vilarejos ao redor, circulavam muitas lendas sobre Yusuf. Alguns diziam que ele vinha de uma família rica, que havia amado uma mulher que o traiu, e que, decepcionado com a vida, escolhera o isolamento. Outros afirmavam que ele era um poeta que abandonara a cidade barulhenta para viver na solidāo, a fim de coletar seus pensamentos e imaginações, e versificar suas inspirações divinas. Mas muitos acreditavam que ele era um homem misterioso que encontrava satisfação na espiritualidade. No entanto, a maioria das pessoas o considerava simplesmente um louco. Quanto a mim, não cheguei a nenhuma conclusão definitiva sobre esse homem. Apenas senti que, em seu coração, devia haver algum segredo profundo, cujo conhecimento não poderia ser obtido apenas pela imaginação.
Há muito tempo eu desejava encontrar esse eremita. Tentei de várias maneiras fazer amizade com ele, para descobrir sua realidade e perguntar qual era o objetivo de sua vida. Mas todos os meus esforços foram em vão. Na primeira vez que o encontrei, ele estava passeando na floresta de cedros sagrados do Líbano. Escolhi as palavras mais belas para saudá-lo, mas ele apenas inclinou ligeiramente a cabeça em resposta e seguiu em frente, dando grandes passos.
Na segunda vez, eu o vi no meio de um pequeno pomar de videiras perto do eremitério. Aproximei-me para cumprimentá-lo e iniciei uma conversa perguntando: “As pessoas dizem que este eremitério foi construído no século XIV por seguidores de uma seita síria. Pode me contar algo sobre sua história?” Ele respondeu com indiferença, em poucas palavras: “Não sei quem construiu este eremitério, nem quando foi construído, e não me importo em saber.” Virou as costas para mim e disse: “Por que não você pergunta aos seus ancestrais? Eles são mais velhos que eu e sabem mais sobre este vale do que eu !” Vendo que meu esforço era completamente inútil, voltei embora.
Assim se passaram dois anos. A vida excêntrica daquele homem estranho se instalara em minha mente, aparecendo frequentemente em meus sonhos e me atormentando. Em um dia de outono, enquanto eu passeava pelas montanhas e ravinas ao redor do eremitério de Yusuf al-Fakhri, de repente uma violenta tempestade com chuva torrencial me cercou de repente. Como um marinheiro perdido em uma tormenta oceânica, sem leme nem mastro, eu me sentia vagando sem direção. Com grande dificuldade, dirigi meus passos para o eremitério de Yusuf e pensei comigo mesmo: “Depois de tanto tempo esperando, finalmente chegou a oportunidade. Usarei a tempestade como pretexto para entrar no eremitério e, com as roupas molhadas, poderei ficar por mais tempo.”
Quando cheguei ao eremitério, minha condição era muito precária. Bati à porta e, para minha surpresa, o próprio homem que eu buscava abriu. Ele segurava em uma das mãos um pássaro agonizante com a cabeça ferida e uma asa quebrada. Pedi desculpas: “Perdoe-me, Senhor, por entrar sem convite e causar incômodo. Estou muito longe de casa, perdido nesta solidão por causa da tempestade.”
Ele respondeu com voz rouca: “Há muitas cavernas nesta floresta deserta onde você poderia se abrigar.” Mas ele não fechou a porta. Meu coração acelerou ainda mais, pois minha antiga espera estava prestes a ser recompensada. Ele acariciava a cabeça do pássaro com extrema delicadeza, revelando qualidades humanas que me agradaram muito. Fiquei admirado ao ver, naquele homem, compaixão e crueldade coexistindo. De repente, senti um profundo silêncio me envolver. Ele parecia irritado com minha presença, mas eu queria ficar mais um pouco. Como se tivesse lido meus pensamentos, ele quebrou o silêncio olhando para as nuvens: “A tempestade não quer comer comida azeda (como os carne do homens). Por quê você quer escapar dela?”
Com um toque de ironia, respondi: “Pode ser que a tempestade não goste de coisas azedas ou salgadas, mas ela é capaz de esfriar e enfraquecer tudo. Se ela me pegar, certamente me engolirá sem mastigar.”
Ao ouvir isso, seu rosto endureceu de repente e ele disse: “Se a tempestade te engolisse, você receberia uma honra que não merece.” Eu retruquei com uma piada: “Sim, senhor, eu me escondi neste eremitério exatamente para não receber uma honra que não mereço.” Apesar de não querer, ele sorriu e virou o rosto para esconder o sorriso. Então, apontou para um banco de madeira perto do fogo e disse: “Sente-se e seque suas roupas.” Ao ouvir isso, uma alegria surgiu em meu coração, que mal consegui esconder.
Agradeci e me sentei no banco. Ele se sentou à minha frente, em um banco esculpido na rocha. Mergulhava os dedos em um frasco – talvez com algum óleo ayurvédico – e massageava suavemente a cabeça e a asa do pássaro. Sem olhar para cima, disse: “Um forte vendaval jogou esta pobre criatura entre a vida e a morte, batendo-a contra as pedras.”
Eu continuei a comparação: “E esta terrível tempestade, antes disso, quase despedaçou minha cabeça e quebrou minhas pernas, me fazendo vagar até me enviar para sua cabana.” Ele olhou seriamente para mim e disse: “Eu desejo que o homem adote a natureza dos pássaros e enfrente a tormenta, mesmo que suas pernas se quebrem. O homem tende ao medo e à covardia. Quando sabe que uma tempestade está vindo, rasteja como um inseto para dentro de um buraco e se esconde.”
Meu objetivo era descobrir o segredo de seu isolamento voluntário. Para provocá-lo, disse: “Sim, os pássaros têm essa qualidade e coragem que o homem não possui. O homem vive à sombra das leis e costumes que ele mesmo criou. Mas os pássaros vivem sob a lei eterna e livre, por isso a Terra gira continuamente ao redor do Sol em sua órbita invisível.”
Seus olhos e rosto brilharam, como se tivesse encontrado em mim as qualidades de um discípulo sábio. Ele disse: “Muito belo! Se você acredita nas suas próprias palavras, deve abandonar imediatamente esta civilização, suas leis sujas e tradições podres, e viver como um pássaro em um lugar vazio onde não haja nada além da grande lei do céu e da terra.”
“Acreditar é uma coisa fácil, mas colocar essa crença em prática exige grande coragem. Muitos são como o oceano: rugem e gritam, mas sua vida é oca e sem fluxo, como um esgoto sujo. Alguns são como montanhas: erguem a cabeça e o peito com orgulho, mas sua alma dorme no escuro de uma caverna.”
Ele se levantou devagar, envolveu o pássaro em um pano pendurado na janela e o colocou perto do fogo seco. Depois disse: “Tire os sapatos e aqueça os pés no fogo; ficar molhado por muito tempo é prejudicial à saúde. Seque suas roupas e descanse.”
As palavras hospitaleiras de Yusuf aumentaram a esperança em meu coração. Segui seu conselho e me aproximei do fogo. Vapor subia da minha roupa. Ele ficou de pé na soleira, olhando para as nuvens escuras. Em minha mente, fervilhavam perguntas de todos os tipos para desvendar seu segredo.
Fingindo ignorância, perguntei: “Desde quando o senhor vive neste lugar?” Sem olhar para mim, respondeu calmamente: “Cheguei aqui quando a Terra era sem forma e vazia, quando estava envolvida em trevas misteriosas e Deus pairava sobre as águas.”
Fiquei atônito ao ouvir isso. Perturbado, tentei compreender aquele conhecimento profundo e pensei: “Que homem estranho e difícil de desvendar! Mas devo prosseguir com cautela, paciência e perseverança até que seu silêncio se torne eloquente e sua estranheza compreensível.”
À medida que a noite avançava, a escuridão se espalhava como um véu sobre o vale cheio de florestas e selvas. A tempestade furiosa uivava, a chuva não dava sinais de parar – pelo contrário, aumentava. Em minha mente, vinham imagens terríveis do dilúvio descrito nas escrituras, como se uma inundação destruidora tivesse vindo novamente para limpar a sujeira da humanidade da face da Terra.
A noite caía. Parecia que, após anos de ascetismo, uma amizade e compaixão espontâneas haviam surgido no coração daquele misterioso asceta por mim, seu hóspede humano. Ele acendeu duas velas no fogão, preparou o jantar e logo colocou à minha frente uma mesa com uma jarra de vinho de uvas, pão com manteiga em um grande prato, azeitonas, uma tigela de mel e algumas frutas secas. Sentou-se em sua cadeira, convidando-me a comer: “Venha, irmão! Coma este simples alimento e mate a fome.”
Agradeci e comemos em silêncio, ouvindo o lamento do vento e o choro da chuva. A cada mordida, eu observava seu rosto, tentando extrair os segredos de seu coração. Pensava nas possíveis razões de sua existência extraordinária. Após o jantar leve, ele pegou uma chaleira de latão do fogão e serviu café perfumado em duas xícaras. Abriu uma pequena caixa de madeira, tirou charutos e me ofereceu um: “Fuma, irmão?” Bebemos café e fumamos charutos. Mas o que meus olhos viam parecia inacreditável.
Como se tivesse lido meus pensamentos, ele olhou para mim, sorriu e, dando uma longa tragada no charuto e um gole no café, disse: “Certamente você está surpreso ao ver vinho, café e charutos – coisas de luxo e conforto – aqui. Não te culpo. Você é como aqueles que acreditam que quem abandona a sociedade e se torna eremita renuncia à vida humana, ou deve viver privado de todos os confortos, em miséria e sofrimento, infligindo dor a si mesmo.”
Concordei imediatamente: “Sim, os sábios dizem que quem abandona o mundo apenas para devoção e oração a Deus, tornando-se um asceta, deve renunciar a todos os prazeres mundanos. Deve contentar-se apenas com o que Deus criou: viver de água, árvores e vegetais.”
Suspirando profundamente, perdido em pensamentos, ele disse: “O isolamento não é necessário para a devoção a Deus. A devoção pode ser praticada mesmo vivendo entre as pessoas. Não, irmão, eu não abandonei o mundo em busca de Deus. Eu sempre senti Deus na presença de meu pai e de minha mãe.” Abandonei a sociedade humana apenas porque minha natureza não se encaixa na dos outros. Seus sonhos são diferentes dos meus. Deixei a companhia da humanidade porque as rodas da minha alma giram em direção oposta às dos outros, colidindo. Abandonei a civilização humana porque ela é como uma árvore antiga, corroída e destruída, mas ainda poderosa e cruel. Suas raízes estão presas em cavernas escuras da terra, seus galhos perdidos em nuvens densas. Suas flores são ganância, injustiça e pecado; seus frutos, insatisfação, medo e sofrimento. Alguns santos tentaram reformar a civilização humana, mas falharam e morreram decepcionados e tristes.”
Parando, Yusuf inclinou-se ligeiramente para o fogo, como se esperasse uma reação às suas palavras. Achei melhor permanecer em silêncio.
Vendo meu silêncio, ele continuou: “Não adotei o isolamento para viver como um monge. A oração é o canto do coração, e mesmo no meio de milhares de gritos, uma oração sincera e silenciosa chega aos ouvidos de Deus.”
“Viver como asceta significa torturar o corpo e a alma, sufocar os desejos. Isso é uma tradição contra a qual sou totalmente oposto. A natureza criou este corpo como templo da alma, e nosso dever é cuidá-lo.”
“Não, irmão, não adotei o isolamento nem por motivos espirituais. Fiz isso apenas para ficar longe dos homens, de suas leis, ideias, queixas, sofrimentos e lamentos.”
“Tornei-me eremita para não ver o rosto feio do homem que se vende por um preço baixo, tanto espiritual quanto material.”
“Vivo isolado para não encontrar mulheres que andam orgulhosas com sorrisos falsos nos lábios, mas com um único objetivo escondido nas profundezas de seus corações.”
“Afastei-me das pessoas auto-satisfatórias que veem um vislumbre de conhecimento nebuloso em seus sonhos e acreditam ter alcançado a verdade completa.”
“Fugi da sociedade para ficar longe daqueles que, ao acordar, captam apenas um vislumbre da verdade, mas gritam para o mundo inteiro que a conquistaram por completo.”
“Abandonei o mundo porque me cansei de ser cortês com pessoas que consideram a humildade fraqueza, a compaixão covardia e a crueldade força.”
“Meu isolamento se deve ao cansaço de conviver com aqueles que acreditam que o sol, a lua e as estrelas nascem de seu tesouro e se põem apenas em seu jardim.”
“Fugi dos políticos gananciosos pelo poder que enganam o povo inocente com poeira brilhante nos olhos e sons vazios nos ouvidos, destruindo suas vidas.”
“Escolhi o isolamento voluntário porque nunca recebi compaixão de ninguém sem pagar o preço total com minha vida.”
“Afastei-me dos líderes religiosos, sacerdotes e clérigos que pregam religião em voz alta, exigem conduta que eles mesmos não seguem, se consideram os mais puros e vivem apenas de doações.”
“Fui forçado ao isolamento por esta grande e terrível instituição chamada civilização, que cobre a contínua miséria da humanidade com uma monstruosidade feia.”
“Tornei-me eremita porque só no isolamento há plenitude para minha alma, meu coração e meu corpo. Neste isolamento, encontro um belo país onde o sol repousa sua luz, as flores espalham sua fragrância em cada respiração livre no vazio, e os riachos cantam chuá-chuá a caminho do mar. Encontrei montanhas onde vejo a primavera clara acordar, as aspirações coloridas do verão, os cantos magníficos do outono e os belos mistérios do inverno. Vim para esta ravina distante por causa do reino de Deus. Estou ansioso para conhecer os mistérios do mundo e chegar perto do trono do Senhor.”
Yusuf Baba deu um longo suspiro e ficou em silêncio, como se tivesse se livrado de um grande fardo. Seus olhos brilhavam com uma luz estranha e mágica, e seu rosto radiante refletia orgulho, determinação e satisfação.
Passou algum tempo em silêncio assim. Eu o observava atentamente, vendo o véu se erguer do que até então era desconhecido para mim, e disse: “Sem dúvida, tudo o que o senhor disse é cem por cento verdadeiro. Pelo sintomas, pode-se diagnosticar corretamente a doença social, provando que o senhor é um médico habilidoso. Entendo que uma sociedade doente precisa desesperadamente de um médico como o senhor para curar suas várias doenças. Não ajudar uma sociedade assim seria injusto para o senhor e infortúnio para a sociedade.”
Ele me olhou fixamente por alguns momentos, pensando, como se buscasse uma resposta sólida à minha acusação, mas quando respondeu, estava imerso em decepção. Defendendo sua vida isolada, disse: “Os médicos lutam desde o início da criação para ajudar os doentes a se livrarem das doenças. Alguns usaram cirurgia, outros ervas medicinais, mas as epidemias continuaram a se espalhar de forma terrível. As pessoas morriam sem esperança, porque a esperança não existe.”
“Em minha opinião, se o doente se contenta em deitar em sua cama suja e encontra prazer em lamentar sua velha doença, o que alguém pode fazer? O pior é quando um médico vem tratar o doente, e o doente, tirando a mão de debaixo da coberta, agarra o pescoço do médico e o sufoca até a morte. Ai! Que infortúnio que o doente mau mate seu médico e, fechando os olhos, diga: ‘Pobre médico grande!’ Não, irmão, ninguém no mundo pode ajudar esta humanidade. Por mais hábil e sábio que seja o agricultor, nada cresce no inverno gelado.”
Para inspirar esperança, eu disse: “O inverno da humanidade um dia terminará, virá uma bela primavera, flores desabrocharão nos campos e riachos fluirão das montanhas.”
Ao ouvir isso, suas sobrancelhas se franziram e ele falou em tom duro: “Tomara que Deus tivesse dividido a vida humana em estações como o ano! Há alguma comunidade ou grupo humano no mundo que viva pela verdade de Deus e fé no Divino, desejando nascer nesta terra? Virá algum tempo em que o homem se estabilize e dependa apenas da consciência divina? Pode ficar feliz com a luz do dia e o silêncio escuro da noite? Meu sonho algum dia se tornará realidade? Ou só será verdadeiro quando esta terra estiver coberta pelo carne podre do homem e encharcada com seu sangue?”
Yusuf Baba se levantou, ergueu as mãos para o céu como se apontasse para outro mundo e respondeu a si mesmo: “Não pode acontecer. Para este mundo, é apenas um sonho. Mas eu o busco para mim. O que encontro está espalhado no fundo do meu coração, neste vale e nestas montanhas.” Elevando ainda mais a voz excitada, disse: “Na verdade, eu sei. É o grito da minha consciência. Estou muito cansado, mas meu ser está cheio de fome e sede. Gosto de comer o pão da vida preparado e servido por minhas próprias mãos; nisso encontro alegria. Por isso abandonei os assentamentos humanos e vim para este deserto isolado, e ficarei aqui até o fim.”
Ele andava agitado de um lado para o outro na sala, enquanto eu refletia sobre suas palavras e estudava a explicação das feridas profundas da sociedade.
Então, para provocá-lo mais uma vez, disse: “Concordo com suas ideias, respeito completamente sua vontade pessoal, admiro e invejo seu isolamento. Mas a nação infeliz sofre grande perda ao se separar do senhor. A nação precisa de um reformador sábio como o senhor para ajudá-la em dificuldades e despertar sua consciência adormecida.”
Balançando lentamente a cabeça, ele disse: “Esta nação é como as outras; suas pessoas são feitas dos mesmos cinco elementos que o resto da humanidade. A diferença está apenas na aparência externa, que não tem significado especial. A dor das nações orientais é a dor do mundo inteiro. O que você chama de civilização ocidental não é nada além de outra forma feia de tragédias e ilusões enganosas.”
“Hipocrisia sempre permanece hipocrisia, não importa o quanto seja colorida com henna ou embelezada com maquiagem. Engano nunca se transforma em honestidade, por mais suave e doce que seja seu toque. Mentira nunca se torna verdade, mesmo se vestida com seda e sentada em um palácio. Desejo nunca se torna satisfação. Quanto à escravidão eterna – seja de princípios, costumes ou história – escravidão sempre é escravidão. Não importa como pinte o rosto ou mude a voz, escravidão permanece em sua forma horrenda e repugnante, mesmo se você a chamar de liberdade.”
“Não, irmão, o Ocidente não é nem um pouco superior nem inferior ao Oriente. A diferença entre os dois não é mais que entre um leão e um tigre. Além da forma externa da sociedade, devemos buscar uma lei suprema e completa que trate igualmente felicidade, sofrimento e ignorância. Essa lei não considera uma raça superior a outra nem tenta elevar uma rebaixando a outra.”
Admirado, eu disse: “O orgulho da humanidade é falso, e tudo o que nele está contido é inútil.”
Ele respondeu imediatamente: “Sim, o orgulho da humanidade não é nada além de uma ilusão falsa. Invenções e descobertas são apenas entretenimento e conforto para o homem quando ele está completamente cansado. Conquistar distâncias terrestres e vencer os mares são frutos perecíveis que não satisfazem a alma nem nutrem e desenvolvem o coração. A vitória é completamente antinatural. Tudo o que o homem chama de arte e ciência da criação não é nada além de elos de correntes ou correntes douradas. Preso em sua ilusão, o homem as arrasta consigo, feliz com seu brilho e som.
Na verdade, o homem começou a construir essa forte jaula há séculos, mas não sabia que, construindo-a de dentro, logo se tornaria seu próprio prisioneiro para sempre. Ha ha! As ações do homem são inúteis, seus objetivos sem sentido, e tudo nesta terra é vão.”
Parando um pouco, ele falou mais devagar: “Nesta vaidade toda da vida, há apenas uma coisa que a alma ama e deseja. Uma coisa única e brilhante!”
Com voz trêmula, perguntei: “O que é isso?”
Ele me olhou por um momento, fechou os olhos, colocou as mãos no peito. Seu rosto brilhava. Com voz confiante e grave, disse: “Não é nada além do despertar da alma, o despertar camada por camada nas profundezas do coração.”
“É um grande poder que se espalha por tudo, capaz de iluminar a consciência humana a qualquer momento, clarear sua visão interior para que veja a vida cercada por música, envolvida em uma coroa, erguida como uma torre de luz entre a terra e o infinito.”
“É uma chama que de repente se acende na alma interna, purifica o coração com seu calor e, descendo à terra, gira no céu eterno.”
“É uma compaixão que desce ao coração do homem para inspirá-lo com maravilha e rejeitar tudo o que se opõe a ela. Odeia tudo o que não está de acordo com ela. Rebela-se contra todos que não compreendem seu segredo.”
“É uma mão misteriosa que removeu o véu dos meus olhos quando eu vivia feliz com família, amigos, benfeitores e compatriotas.”
“Na infância, muitas vezes fiquei atônito e pensei: ‘De quem são esses rostos que me olham? Quem são essas pessoas? Como me conhecem? Como vim parar entre elas? Como estou sentado e conversando com elas? Sou estranho para elas ou elas são estranhas nesta casa que a vida construiu para mim e cuja chave a vida me entregou?’”
De repente, ele se calou, como se tentasse lembrar algo esquecido, mas não quisesse revelar. Abriu os braços e sussurrou: “Há quatro anos, quando abandonei o mundo, isso aconteceu comigo! Vim para este lugar isolado para viver em estado de despertar, desfrutar da paz com silêncio sagrado, amizade e pensamentos significativos.”
Lá fora, estava escuro e sussurrante. Ele se aproximou da porta, olhou para a tempestade e gritou em voz alta: “É o despertar dentro da alma. Quem o conhece não pode expressá-lo em palavras, e quem não o conhece nunca poderá pensar no belo mistério forçado da existência.”
Uma hora se passou enquanto Yusuf al-Fakhri andava de um canto ao outro da cabana, parando às vezes na porta para olhar a atmosfera escura iluminada por relâmpagos.
Eu fiquei em silêncio, observando as ondas em sua alma, tentando compreender o significado de suas declarações, pensando em sua vida e nos prazeres e sofrimentos de sua solidão. Quando o segundo quarto da noite terminou, ele se aproximou de mim, olhou longamente para meu rosto, como se tentasse preservar na memória a imagem do homem diante de quem revelara os segredos de sua vida isolada. Meu coração estava pesado com a agitação dos pensamentos, e meus olhos, cansados pela névoa da tempestade.
Então, ele disse devagar: “Agora vou passear na tempestade. É um hábito que me dá prazer nas estações de outono e inverno. Há café na chaleira e charutos. Se quiser vinho, está na jarra. Se quiser dormir, há cobertor e travesseiro naquele canto.”
Cobriu o corpo com um casaco preto, sorriu e disse: “Peço que, quando voltar amanhã, feche a porta para niguém entrar sem permissão. Planejo passar o dia inteiro passeando na floresta de cedros sagrados.”
Pegou uma bengala simples e disse: “Se a tempestade te cercar de repente nesta selva, não hesite em buscar abrigo no eremitério. Espero que agora você aprenda a amar a tempestade e não tenha medo dela. Adeus, meu irmão.”
Abriu a porta, ergueu a cabeça na escuridão e saiu. Fiquei na soleira observando por qual caminho ele ia. Logo desapareceu da minha vista. Por alguns minutos, ouvi o som de seus passos nas pedras da estrada.
Após aquela conversa profunda à noite, quando amanheceu, a tempestade havia cessado, o céu estava claro, e os raios quentes e suaves do sol faziam brilhar toda a planície e o vale.
Antes de sair da cabana, não esqueci de fechar a porta. Comecei a sentir o despertar espiritual sobre o qual Yusuf al-Fakhri falara na noite anterior. Esse despertar se espalhava por todos os meus membros. Pensei que essa inspiração certamente deveria se manifestar. Quando me acalmei um pouco, vi plenitude e beleza florescendo ao meu redor.
Quando voltei para a sociedade humana na cidade barulhenta, ouvi seus sons e vi suas atividades, parei e disse ao meu coração: “Sim, o autoconhecimento é extremamente necessário na vida humana e deve ser o único objetivo da vida humana. Não é a civilização, com toda sua dolorosa ambiguidade e incerteza, uma grande razão para o despertar espiritual? Maravilho-me como podemos negar a existência de algo existente apenas porque sua existência é sua própria prova? Talvez a civilização moderna seja um acidente decrescente, mas a lei eterna pode transformar a escada de todos os acidentes em degraus que levam à plenitude.”
Nunca mais encontrei Yusuf al-Fakhri, porque, devido aos meus próprios esforços para remover os males da civilização, fui exilado do norte do Líbano no final daquele outono e tive que viver como expatriado em um país distante onde as tempestades são muito fracas, e o isolamento de um monge é considerado uma loucura considerável – porque a sociedade ali também está muito doente.
Fim
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