Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão é uma figura proeminente na literatura portuguesa contemporânea, destacando-se pela sua obra poética que explora a profundidade da experiência humana com uma linguagem cuidada e reflexiva. A sua escrita é marcada por uma sensibilidade ímpar na abordagem de temas como a memória, o tempo e a fragilidade da existência. A poesia de Gastão convida à introspeção, utilizando imagens evocativas e uma musicalidade subtil para criar um universo lírico onde a palavra ganha novas dimensões. A sua contribuição para a literatura portuguesa é reconhecida pela originalidade e pela capacidade de tocar o leitor em aspetos universais da condição humana.

Lisboa
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Alvo

Por uma vez conta como o corpo se ajusta à superfície
das tuas palavras. Fala de um depois anterior, desse sono
demente na fissura da luz; do violento voo ou ferida
cíclica, a ausência excedendo-se na pele quando a desoras
perfumas minhas mãos. Estende-se o calor aos lábios,
o verão simula a duração no verso, circula a água, vigorosa,
no fundo do poço até desaparecer na cama muda.
Nada é o que parece, lembra-se o que se esquece e eu digo
os dedos descalços dissolvem em tua boca o mel à flor dos
destroços. Olha-me: deita o olhar em meu vestido, tira-o
num gesto ébrio e precipitado como a um prisioneiro,
os peixes sobem lestos no lago imoderado e a noite volta,
lenta, adormecida. Dou-te o que não tenho – a história
de um rio exultante a explodir na boca em versão romântica,
poema sem trágicos sulcos ou fala completa. E tu, tu dás-me
o que sou: metáfora doendo-se alto onde acaba o texto.
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