Enquanto houver fome (11 de Novembro)
Como posso dizer que somos livres?
Se em Luanda ainda há mães
que dividem restos nos contentores com o cão,
e crianças que descobrem o sabor do lixo antes do sabor do pão.
Que independência é essa?
Se o povo carrega o estômago vazio como fardo e bandeira.
As ruas do Zango, do Prenda,
de Cacuaco, do Sambizanga,
de Viana e do Cazenga
todas gritam em silêncio nos choros do bebê nas costas da zungueira.
Gritam contra o esquecimento,
contra o discurso bonito
que não enche panela.
Gritam lembrando que a liberdade não vive de discursos,
vive do prato cheio e do coração tranquilo.
Angola, minha terra…
A tua independência só será completa quando nenhum dos teus filhos
tiver de procurar vida
entre os restos da vergonha.
Passando humilhação por um mísero “salário mínimo”
Não há independência quando o estômago do povo fala mais alto que o hino.
Enquanto houver fome,
o hino nacional será apenas um eco distante de um sonho ainda adiado.
Enquanto houver fome,
a bandeira é apenas um pano colorido a tremular sobre a miséria.
Enquanto houver crianças que se alimentam dos restos da indiferença,
Não haverá progresso, não haverá independência.
A verdadeira liberdade começa quando o povo deixa de escolher entre a dignidade e a sobrevivência.
Uma nação não se mede pelos anos que celebra,
mas pelo pão que chega à mesa
dos seus filhos.
Uma nação livre é aquela que garante saúde, alimentação,
segurança, educação,
e esperança a cada um dos seus filhos.
Não há verdadeira independência enquanto famílias buscam no lixo o que o Estado lhes negou à mesa. A fome é a maior traição aos que deram suas vidas lutando pela liberdade dessa terra.
Enquanto houver fome,
enquanto houver crianças sem futuro,
a nossa “independência” continuará dependente.
Por: Sebastião Xirimbimbi
Escritas.org
