joaofelinto

joaofelinto

1966-10-04 04/10/1966
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Alguma poesia

MIUDEZAS ( Virtual Books Editora - 2025)

ENTRE NOSSOS LENÇÓIS 

Eu sonho nós.
E é tão real estarmos juntos
Que chego a sentir muito
Pelos que estão à sós.
Acordo ao seu lado,
Calado, colado 
Entre nossos lençóis.

 

NINGUÉM NUNCA ME DISSE 

Ninguém me disse
Que a casa ficaria triste 
Sem as suas risadas.
Que a sala com a porta escancarada,
Não traria você de volta.
Que a calçada,
Agora silenciosa,
Permanecerá à nossa espera 
E das mesmas histórias.
Ninguém me disse
Que você só existe
Em minhas memórias.
Ninguém nunca me disse 
Que eu ficaria tão triste
Como estou agora.


CONTORNOS ( Virtual Books Editora - 2025)


a mansão é tão soberba
quanto o nobre.
o apartamento podre,
condenado a desabar. 
o barraco a abrigar,
a mais um pobre.
onde mora o anjo esnobe?
no altar.

…questão de moradia

 

segundo, minuto, hora
fazendo conta no agora.
por dia, semana, ano
a vida vai se somando.
e de segundo em segundo,
tomando nota do mundo.
e de minuto em minuto,
perdendo um pouco de tudo.

a cada passo que passa,
o mesmo pé que descalça
calça com a pressa.
e se o relógio se quebra,
o tempo jamais espera
e nunca acaba.

    ... quebra das horas

 


VERSALHADA ( Virtual Books Editora - 2023)


ENTRE OBRA E PASSATEMPO

A vida me desdobra
Entre obra e passatempo.
E paga em fingimento
O que me cobra.

Enquanto lhe dou corda,
O relógio me condena,
Aumenta a minha pena,
A cada hora.

No adeus, eu vou embora.
E num aceno,
Resumo em silêncio,
A minha história.

 

CASA DE PALHA

Sou uma casa de palha
Numa praia solitária 
Que envelhece e se degrada
Com a intempérie e o tempo. 

Na ilusão de movimento,
Vive seu próprio silêncio 
Nessa imensidão de nada,
Em seu desconhecimento.

 


O DEVOTO

Meu corpo sequioso de querer,
Renovou-se em seu rosto cultuado,
Entregou-se para se ver imolado
Num rito consumado pra morrer.

Na minha devoção ao prazer,
Ousei louvar você, ajoelhado.
Beijei seu baixo ventre abençoado
Para em seus grandes lábios, renascer.

Exultei pela graça de sofrer
O êxtase de um ávido condenado.

 

EXPRESSÕES ( Virtual Books Editora - 2023)


SIMPLES COINCIDÊNCIA

Tenho a sensação que minhas lágrimas
Não afogam meu sorriso.
Que os meus demônios são movidos
Pelos que me dão as bênçãos
Com suas crenças assombradas
Pelos mitos em um rito
De temor e obediência.
A minha nudez é indecência,
Uma ofensa aos seus princípios.
E os meus dias de hospício
Serão vistos
Como simples coincidência.

 

ALMA PENADA

Que pena minha alma penada
Que à noite me assombra
E de dia é sombra
De uma vida sem graça.

Anseio pela noite passada,
Onde a imagem embaçada
No espelho,
Entre medo e desejo,
Ansiosa, me olhava.

 

LÂMINAS QUE ME EXPÕEM A CARNE
( Virtual Books Editora - 2019)


ENTRE COSTURAS

Tenho vontade de tramar ternura 
Em colares de amores ressentidos, 
Adornar vestidos com babados de doçura, 
Descoser as linhas que sustem a angústia  
E entre costuras de sonhos bons,  
Desatar laços de esperança e otimismo. 

Em camisas abertas ao desespero,
Pregar botões de alegria e dinamismo.
Coser com ponto miúdo os bons amigos 
E alinhavar os fúteis cós dos desmazelos.
E entre costuras de sonhos bons,  
Cortar tecidos macios e coloridos.  

 

TEMPO DISSIPADO

O meu tempo dissipado pela rua,
Continua a me consumir.
Envelheço sem ruir,
Entre prédios e calçadas.

Minhas calças esgarçadas
Não me deixam seminu.
Ante o céu ainda azul,
O meus olhos caem em lágrimas,

Chuva fina que me encharca de sentir.
Meus remédios não têm tarja pra dormir.
Em silêncio eu espero a madrugada.
Amanheço sem palavras,
Vendo o sol me seduzir.

 

JÁ NÃO DOU OUVIDO ÀS MESMAS PALAVRAS 

Não reconheço meu caminho, porém sigo.
Quem serão meus inimigos, desconheço.
Hoje esqueço, o que fora imprescindível.
Se eu ficava acordado, adormeço.

Virou riso, o mais crítico segredo.
Meu fascínio se tornou aborrecido.
Destemido, o que tinha tanto medo.

Eu mudei a opinião que sustentava.
Minha casa tem a paz dos falecidos.
Já não dou ouvido às mesmas palavras.
De uma fé consolidada, ceticismo.

Talvez seja minha idade, o motivo
Para acreditar que o nada
É o meu existencialismo.

 

APENAS UM DELES

Se me tomarem por sombra
De uma porta entreaberta...
Meus olhos espreitam as velas
Do morto sendo velado.
De todos, menos culpado,
Pois já não creio na espera
Além do corpo enterrado.

Se me tomarem por sábio
Que do saber observa...
Do pasto, a mesma erva
Que alimenta o gado;
O verme no chão molhado
Que se oculta na terra,
Na cova do sepultado.

Se me tomarem por cama
De um bêbado adormecido...
Na esperança do esquecido
De jamais ser encontrado.
Como um braço amputado,
Sou o membro invisível
Que deseja ser lembrado.

Se me tomarem por único,
Serei apenas um deles.

 

CAMISA DE FORÇA (ELUCUBRAÇÃO NO MANICÔMIO) ( Virtual Books Editora - 2014)

 

PERSONAGEM VIVA DOS MEUS ERROS

O meu medo é que você exista, 
Personagem viva dos meus erros, 
Que volátil por entre meus dedos 
Desfaz-se em escrita.
Sua voz em silêncio grita, 
Mesmo oculta entre papéis e selos. 
Tais apelos, mais ninguém leria, 
A não ser eu mesmo.


OS MEUS FANTASMAS 

Os meus fantasmas 
Não são de pessoas mortas 
Que se levantam das covas 
A procura de redenção.  

Os meus fantasmas são 
De personagens vivas 
Que por serem esquecidas, 
Pedem por recordação.


O PARAÍSO

Os mortos estão mortos, 
Eis o paraíso. 
Enquanto os vivos ficam omissos 
E sem remorsos. 

Os nossos 
São os mortos escolhidos,
Os ritos 
São ridículos esforços.

 

NADA ALÉM DO QUE SE TEM AQUÉM DO NADA ( Virtual Books Editora - 2017)

 

ENTRE MISÉRIA E DESGRAÇA

Qual o nome de minha rua?
Eu moro numa dessas ruas solitárias e mal iluminadas
Onde ninguém se situa
Por jamais serem citadas.

Ruas de estreitas calçadas
Onde a penumbra oculta
A vítima, o sonho, a culpa,
A dor, o riso e a lágrima.

Onde a moleca descalça,
Brinca com a boneca suja
Na soleira desgastada.

Lá, o tempo se arrasta.
Pois a vida está reclusa
Entre miséria e desgraça.

 

PELA CASA VAZIA

Tarde da noite, acordei
Com a impressão que era dia.
Mas era a vela que ardia,
Que à cabeceira, deixei.

Mesmo assim, me levantei.
E pela casa vazia,
Com a pisada macia,
Tranquilamente, andei.

Na sala, eu encontrei
A solidão que sofria
Pela mesma companhia
Que a vida toda, esperei.

Na cozinha, eu pisei
No calcanhar da alegria
E pela sua agonia,
Eu tristemente, chorei.

Quando ao quarto voltei,
Vi que a saudade dormia
E ao pé da cama jazia,
O sonho que não sabia
Que eu não me acordei.

 


NEM MAIS UMA PALAVRA ( Virtual Books Editora - 2013)

 


O COMEDIANTE 

Sou do tamanho que posso, 
Que não pode ser tão grande. 
Sou às vezes, num instante, 
Tão pequeno, tão remoto
Que me sinto um gigante. 

Sou maior do que fui antes,
Infinitamente escasso. 
Tão extremamente raro
Quanto vasto e abundante.

Sou gritante
Quando calo.
Sou silencioso e magro 
Quando gordo e falante. 
Sou um triste ocupante 
De um espaço ainda vago.
Sou tão trágico 
Quando sou comediante.


NO ESPELHO DOS REMORSOS

Eu desconheço o meu ódio
E desvaneço em meu medo.
A minha trama é enredo
Do desapego e do ócio.

Eu sempre faço o que posso 
Para rever com acertos,
O reflexo dos meus erros
No espelho dos remorsos.

E cada dia, me esforço 
Para manter meus segredos
Que são os mesmos que vejo
Ocultos aos rostos alheios, 
Dentro de seus próprios olhos.


ENTRE JAZIGOS LUSTROSOS

Aonde iriam os mortos?
Ao rio dos remorsos,
Onde apesar dos esforços,
Não há como emergir.

Os vivos teimam em seguir
O caminhar de seus ossos. 
O praguejar de seus rogos,
Ainda tentam ouvir.

O verbo é inexistir.
A carne, pútridos corpos.
As vozes, meros monólogos,
Entre jazigos lustrosos,
Dos que permanecem aqui.

 


TRÍPTICO 
( Editor/Autor - 2007)


Contraceptivo

Eu não sei se é o desespero
que me leva à loucura
quando o sexo estupra
a minha alma,
ou a calma
que advém do meu tormento
pelo tempo
que passou em minha palma.
Movimento anormal
de penetração moral
em sua saia,
e no cheiro da indecência,
feromônio da ciência 
em uma jaula.
Uma fera excitante
que no último instante, ofegante,
cospe a vida
no seu couro de borracha.
Não há luta, nem corrida;
há uma triste despedida
de um suposto vencedor
que foi fruto de um amor
e se enforcou
com a própria cauda.

 

Coveiro 

Entre corpos velados,
de joelhos.
Entre lábios selados,
um desfecho,
como as covas que cavo.
A ferrugem do prego
que eu cravo.
Na madeira um estalo,
traz o medo.
Na demência, o segredo
de um fim trágico.
Na ausência, um lapso,
um desterro.

 

Em demasia 

Eu sou demasiado triste,
pelos versos que componho.
Eu sou demasiado louco,
pelo pouco
que proponho.
Não deveria o mundo ser assim,
em demasia.
Talvez não seja o mundo,
seja enfim,
minha poesia.
Demasiada em meu tédio,
sem remédio,
em grafia;
em longas noites mal dormidas;
nos insultos
que eu ouvia.
Não caberia em minha mão,
toda a visão 
que em mim cabia.
Eu sou demasiado em tudo,
que ironia,
demasiado em meu luto
por ser fruto
de utopia.
Em demasia são os dias
que me escapam entre os dedos

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