Menotti del Picchia

Menotti del Picchia

Paulo Menotti Del Picchia foi um poeta, jornalista, tabelião, advogado, político, romancista, cronista, pintor e ensaísta brasileiro.

1892-03-20 São Paulo, Brasil
1988-08-23 São Paulo, Brasil
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A Voz das Coisas

E Juca ouviu a voz das coisas. Era um brado:
"Queres tu nos deixar, filho desnaturado?"

E um cedro o escarneceu: "Tu não sabes, perverso,
que foi de um galho meu que fizeram teu berço?"

E a torrente que ia rolar para o abismo:
"Juca, fui eu quem deu a água do teu batismo".

Uma estrela, a fulgir, disse da etérea altura:
"Fui eu que iluminei a tua choça escura
no dia em que nasceste. Eras franzino e doente.
E teu pai te abraçou chorando de contente...
— Será doutor! — a mãe disse, e teu pai, sensato:
— Nosso filho será um caboclo do mato,
forte como a peroba e livre como o vento! —
Desde então foste nosso e, desde esse momento, nós
te amamos, seguindo o teu incerto trilho,
com carinhos de mãe que defende seu filho!"

Juca olhou a floresta: os ramos, nos espaços,
pareciam querer apertá-lo entre os braços:

"Filho da mata, vem! Não fomos nós, ó Juca,
o arco do teu bodoque, as grades da arapuca,
o varejão do barco e essa lenha sequinha
que de noite estalou no fogo da cozinha?
Depois, homem já feito, a tua mão ansiada
não fez, de um galho tosco, um cabo para a enxada?"

"Não vás" — lhe disse o azul. "Os meus astros ideais
num forasteiro céu tu nunca os verás mais.
Hostis, ao teu olhar, estrelas ignoradas
hão de relampejar como pontas de espadas.
Suas irmãs daqui, em vão, ansiosas, logo,
irão te procurar com seus olhos de fogo...
Calcula, agora, a dor destas pobres estrelas
correndo atrás de quem anda fugindo delas..."

Juca olhou para a terra e a terra muda e fria
pela voz do silêncio ela também dizia:
"Juca Mulato, és meu! Não fujas que eu te sigo...
Onde estejam teus pés, eu estarei contigo.
Tudo é nada, ilusão! Por sobre toda a esfera
há uma cova que se abre, há meu ventre que espera...
Nesse ventre há uma noite escura e ilimitada,
e nela o mesmo sono e nele o mesmo nada.

Por isso o que vale ir fugitivo e a esmo
buscar a mesma dor que trazes em ti mesmo?
Tu queres esquecer? Não fujas ao tormento...
Só por meio da dor se alcança o esquecimento.
Não vás. Aqui serão teus dias mais serenos,
que, na terra natal, a própria dor dói menos...
E fica, que é melhor morrer (ai, bem sei eu!)
no pedaço de chão em que a gente nasceu!"


Publicado no livro Juca Mulato (1917).

In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.59-60. (Prestígio
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Gabriel Paulino
O caboclo, rejeitado pelo mundo dos homens e pela mulher branca que simboliza a civilização inacessível, encontra na morte uma forma de libertação. Sua dor amorosa e sua exclusão social o conduzem à loucura, mas essa loucura é, ao mesmo tempo, um êxtase — uma passagem para o sagrado. Ele não morre destruído; morre absorvido. Torna-se vento, rio, flor, canto. É como se cada elemento da natureza recolhesse uma partícula de sua alma e a devolvesse ao grande corpo da Terra. Essa morte tem um sentido místico e panteísta: a alma não desaparece, mas se espalha pela criação. O indivíduo retorna à unidade primordial, ao seio da natureza-mãe. O sofrimento humano se transforma em harmonia universal, e a tragédia pessoal de Juca — o amor impossível, a marginalização racial, a solidão do caboclo — transmuta-se em redenção espiritual. Ele encontra, na comunhão com o mundo natural, a pureza e a liberdade que a sociedade lhe negou. Menotti transforma, assim, o destino do homem mestiço em uma espécie de epifania: o corpo morre, mas o espírito se eterniza nas forças vitais do universo. É o eco de uma fé antiga, em que o divino está em tudo — na seiva das árvores, na respiração dos rios, no brilho das estrelas.
20/dezembro/2025
A voz das coisas
Poema
09/junho/2022

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