

Ana Marques Gastão
Ana Marques Gastão é uma figura proeminente na literatura portuguesa contemporânea, destacando-se pela sua obra poética que explora a profundidade da experiência humana com uma linguagem cuidada e reflexiva. A sua escrita é marcada por uma sensibilidade ímpar na abordagem de temas como a memória, o tempo e a fragilidade da existência. A poesia de Gastão convida à introspeção, utilizando imagens evocativas e uma musicalidade subtil para criar um universo lírico onde a palavra ganha novas dimensões. A sua contribuição para a literatura portuguesa é reconhecida pela originalidade e pela capacidade de tocar o leitor em aspetos universais da condição humana.
Lisboa
9328
0
1
Sê Lenha
Enquanto a faca corta o alimento,
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.
Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.
a boca atrasa o corte, o paladar,
a sorte, a criança devora o que tens
e a vontade pede-te: «sê lenha».
Anda, suporta teu corpo de ferida
cicatriz ou nome, és esqueleto bravio
carne e voragem, sino que ressoa,
te ensurdece e desmorona.
Do mar, a terra, da terra a água,
do fogo, o ar, só é exterior o interior
que se evapora em solução iodada
e te abafa no fumo metálico e molda
uma sombra, o ombro, a mão. Mas olha,
vê, escuta o som impaciente da lenha
afundada no sal, conta a história,
repete a única história que te faz viver.
812
0
Mais como isto
Ver também
Escritas.org