Tomás Antônio Gonzaga

Tomás Antônio Gonzaga

Tomás António Gonzaga, cujo nome arcádico é Dirceu, foi um jurista, poeta e ativista político luso-brasileiro. Considerado o mais proeminente dos poetas árcades, é ainda hoje estudado em escolas e universidades por seu "Marília de Dirceu".

1744-08-11 Porto, Portugal
1810 Ilha de Moçambique, Moçambique
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15


Prémios e Movimentos

Arcadismo

Alguns Poemas

Lira V

Eu não sou, minha Nise, pegureiro,
que viva de guardar alheio gado;
nem sou pastor grosseiro,
dos frios gelos e do Sol queimado,
que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

A Cresso não igualo no tesouro;
mas deu-me a sorte com que honrado viva.
Não cinjo coroa d'ouro;
mas Povos mando, e na testa altiva
verdeja a Coroa do Sagrado Louro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

Maldito seja aquele, que só trata
de contar, escondido, a vil riqueza,
que, cego, se arrebata
em buscar nos Avós a vã nobreza,
com que aos mais homens, seus iguais, abata.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

As fortunas, que em torno de mim vejo,
por falsos bens, que enganam, não reputo;
mas antes mais desejo:
não para me voltar soberbo em bruto,
por ver-me grande, quando a mão te beijo.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

Pela Ninfa, que jaz vertida em Louro,
o grande Deus Apolo não delira?
Jove, mudado em Touro
e já mudado em velha não suspira?
Seguir aos Deuses nunca foi desdouro.
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!

Pretendam Anibais honrar a História,
e cinjam com a mão, de sangue cheia,
os louros da vitória;
eu revolvo os teus dons na minha idéia:
só dons que vêm do céu são minha glória
Graças, ó Nise bela,
graças à minha Estrela!


Publicado no livro Marília de Dirceu: Terceira Parte (1812).

In: GONZAGA, Tomás Antônio. Obras completas. Ed. crít. M. Rodrigues Lapa. São Paulo: Ed. Nacional, 1942. (Livros do Brasil, 5
Tomás Antonio Gonzaga (Porto Portugal 1744 - Moçambique 1819) fez os estudos primários no Colégio dos Jesuítas, em Salvador BA, e formou-se em Direito na Universidade de Coimbra (Portugal) em 1768. Na universidade, conviveu com o poeta com Alvarenga Peixoto. Exerceu a Magistratura em Beja (Portugal) de 1779 a 1781. De volta ao Brasil, passou a viver em Vila Rica [Ouro Preto] MG, onde conviveu com intelectuais e poetas, entre os quais Alvarenga Peixoto, Cláudio Manuel da Costa e Cônego Luís Vieira. Envolveu-se em várias desavenças com as autoridades locais, incluindo Francisco Gregório Pires Monteiro Bandeira, intendente do ouro na junta da Real Fazenda de Minas Gerais. É o provável autor de Cartas Chilenas, poemas epistolares satíricos, de oposição ao governador Luís da Cunha Meneses, que circularam em manuscritos anônimos na cidade, em 1786. Em 1792 foi publicada a primeira parte de sua obra poética Marília de Dirceu, em Lisboa (Portugal). Participou na Inconfidência Mineira, em 1789, o que lhe custou a prisão e, posteriormente, o degredo em Moçambique. Tomás Antonio Gonzaga é um dos principais poetas árcades do Brasil. Para o crítico Antonio Candido, "com Tomás Antônio Gonzaga (...) o Arcadismo encontrou no Brasil a mais alta expressão. Na sua obra há um aspecto de erotismo frívolo, expresso principalmente nas poesias de metro curto, anacreônticas em grande parte, celebrando a namorada, depois noiva, sob o nome pastoral de Marília. Mas ela vale sobretudo pelas de metro longo, voltadas para a expressão lírica da sua própria personalidade. Nelas, com admirável simplicidade e nobreza, traça um roteiro das suas preocupações, da sua visão do mundo e, depois de preso, do seu otimismo estóico. ".Nascido no Porto no seio de uma família de magistrados, emigrou para o Brasil com o seu pai, aos sete anos de idade, e aí recebeu a sua formação de base num colégio de jesuítas. Mais tarde, ingressou na Universidade de Coimbra, onde, em 1768, obteve a licenciatura em Direito. Não tendo conseguido ficar na Universidade como lente, seguiu a carreira da magistratura, tendo ocupado diversos cargos em Portugal e no Brasil. Entretanto, apaixonou-se por Maria Joaquina Doroteia de Seixas, aquela que ele cantaria sob o pseudónimo de Marília. Ambicionando a Relação do Porto, mais uma vez não conseguiu o seu intento e viu gorados os seus planos. Envolveu-se então na conspiração que ficou conhecida por Inconfidência Mineira, pelo que foi mantido em cativeiro durante três anos e desterrado para Moçambique, em 1791. Aí faleceu em 1810, depois de em 1793 se ter casado com Juliana de Sousa Mascarenhas e de ter esquecido, pelo menos aparentemente, a sua musa Marília. Poeta lírico, contribuiu para o enriquecimento de duas literaturas, a portuguesa e a brasileira, com a sua obra-prima Marília de Dirceu (1¦ parte: 1772; 2¦ parte: 1799), onde são vísiveis as influências de poetas como Horácio, Anacreonte, Petrarca e Tasso, modelos que Tomás António Gonzaga imitou, como era tradição na época. A sua poesia é suave, descritiva, bucólica, mas também levemente sensual, comprazendo-se o autor na descrição de retratos pessoais, o seu e o de Marília, e de cenas domésticas. No entanto, está ainda muito presa aos cânones arcádicos, embora se encontrem já inúmeros elementos pré-românticos. Da sua obra consta ainda um poema satírico em decassílabos, as Cartas Chilenas (1786-1787), formado por treze cartas assinadas com o pseudónimo Grítilo e dirigidas ao seu amigo Doroteu (Cláudio Manuel da Costa). Na sua qualidade de jurista escreveu ainda um Tratado de Direito Natural, inédito durante séculos e que só no século XX foi publicado
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