António Osório

António Osório

1933–2021 · viveu 88 anos PT PT

António Osório foi um poeta português que explorou profundamente as dimensões da fé, do amor e da existência humana na sua obra. A sua poesia é marcada por uma linguagem lírica e introspectiva, muitas vezes abordando temas religiosos com uma abordagem pessoal e contemporânea. Destaca-se a sua capacidade de dialogar com a tradição espiritual, mas projetando-a para as inquietações do homem moderno. A sua escrita reflete uma busca constante por sentido e transcendência, revelando um profundo humanismo e uma sensibilidade aguçada para as complexidades da vida interior e das relações humanas.

n. 1933-08-01, Setúbal · m. 2021-11-18, Setúbal, Portugal

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Sonetos da Ausência III

O que a memória havia sepultado
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.

As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.

Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.

E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.

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Biografia

Identificação e contexto básico

António Osório, nome completo António Manuel de Oliveira Osório, nasceu em São João da Talha, Loures. Foi um poeta português cuja obra se insere num contexto de renovação da poesia religiosa e lírica em Portugal, dialogando com as inquietudes espirituais e existenciais do século XX.

Infância e formação

A sua infância e formação estão marcadas por um ambiente que fomentou a sua sensibilidade e o seu interesse pela palavra. Embora os detalhes específicos sejam menos documentados publicamente, é evidente na sua obra uma formação sólida, possivelmente com inclinações autodidatas no domínio da literatura e da teologia, absorvendo influências que moldaram a sua visão lírica e espiritual.

Percurso literário

O percurso literário de António Osório começou com a publicação dos seus primeiros poemas, revelando desde cedo uma voz singular na poesia portuguesa. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha temática centrada na fé, no amor e na busca de Deus, mas sempre com uma abordagem inovadora e pessoal. Participou ativamente na divulgação da poesia, contribuindo para o enriquecimento do panorama literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se títulos que exploram a relação do homem com o divino e com o próximo. Os temas dominantes são a fé, o amor (divino e humano), a esperança, a fragilidade humana e a busca por um sentido transcendente. O seu estilo é caracterizado por um lirismo profundo, uma linguagem clara mas rica em simbolismo e imagens poéticas, com forte musicalidade. Utiliza frequentemente o verso livre, privilegiando a expressão da emoção e da reflexão. A sua voz poética é confessional e universal, refletindo uma intimidade que ressoa com a experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico António Osório escreveu num período marcado por profundas transformações sociais, políticas e culturais em Portugal e no mundo. A sua obra dialoga com as inquietações espirituais e existenciais que emergiram após a Segunda Guerra Mundial e num contexto de mudança de mentalidades. A sua poesia religiosa insere-se numa corrente que procurava atualizar e tornar acessível a experiência da fé no mundo contemporâneo, afastando-se de formalismos excessivos e aproximando-se da vivência pessoal.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a vida pessoal de António Osório são por vezes escassos em publicações gerais, mas a sua obra revela uma profunda vida interior. As suas relações, tanto a nível afetivo como espiritual, parecem ter sido uma fonte rica para a sua criação poética. É provável que tenha mantido uma vida discreta, dedicada em grande parte à sua vocação literária e espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção António Osório obteve um reconhecimento significativo em vida, especialmente entre os leitores que se identificavam com a sua abordagem lírica e espiritual da poesia. A sua obra foi bem acolhida pela crítica que valorizava a profundidade e a originalidade da sua expressão poética. Continua a ser lido e estudado como um dos poetas importantes da poesia religiosa portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Na sua obra, é possível identificar influências de poetas que exploraram a dimensão espiritual da poesia, mas Osório desenvolveu um estilo próprio e distintivo. O seu legado reside na forma como conseguiu aproximar a linguagem poética da experiência de fé, tornando-a acessível e relevante para as novas gerações. Influenciou poetas que procuram explorar temas semelhantes com autenticidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de António Osório tem sido interpretada como um testemunho da persistência da busca espiritual no mundo moderno. As suas análises críticas destacam a sua capacidade de conciliar a tradição religiosa com uma sensibilidade contemporânea, abordando temas universais como o amor, a dor e a esperança de forma lírica e profundamente humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua obra é a forma como consegue, através de uma linguagem aparentemente simples, tocar em questões existenciais complexas. A sua poesia convida à meditação e à introspeção, servindo como um espelho para as inquietações de quem a lê.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Osório faleceu em Lisboa. A sua memória perdura através da sua obra poética, que continua a ser editada e a inspirar leitores e outros criadores, mantendo viva a sua voz lírica e espiritual.

Poemas

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Sonetos da Ausência III

O que a memória havia sepultado
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.

As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.

Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.

E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.

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O Sítio

O mundo sitiou o sonho, e o tem preso
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.

Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.

Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.

Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.

O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.

O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.

Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.

Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.

1 990

Haicai

Corte

Crepitou o fogo
E rubro cortou o vôo
da Fidalga palmeira.

Viagem

Pássaro a voar
Na manhã recém-nascida
Rumo à canção.

1 334

Perguntas a Várias Mãos

Há tanto tempo em busca daquela alegria para sempre
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.

Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres

Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?

Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?

Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!

Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.

Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?

O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.

Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?

Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?

Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.

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Cântico do Filho Maior

Ao Antônio Cândido

Cresce, filho!

Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!

e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores

Cresce, filho!

e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias

Cresce, filho!

e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.

Cresce, filho!

e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama

para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.

1 226

Não é uma coisa só,

Não é uma coisa só,

São muitas coisas nuas.

Não é o desabar de uma casa.

É percorrer os seus escombros.

Não é aguardar por um filho.

É voltar a sê-lo.

Não é penetrar em ti.

É sair de mim.

Não é pedir-te que faças.

É fazer-te.

Não é dormir lado a lado.

É estar jacente de mãos dadas.

Não é ouvir vento e chuva.

É franquear-lhes a cama.

E relâmpago que pela terra se funde.

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