Dicionário de Termos Poéticos

Dicionário de Termos Poéticos

Definições, exemplos e etimologias de termos literários

Acento

Métrica e Ritmo

Intensidade maior com que se pronuncia uma sílaba numa palavra, elemento essencial do ritmo poético em língua portuguesa.

Em «ca-vá-lo» o acento recai na segunda sílaba; no decassílabo o acento na décima sílaba é obrigatório.

Acróstico

Estrutura

Composição poética em que as letras iniciais de cada verso, lidas verticalmente, formam uma palavra, nome ou mensagem.

Gil Vicente e poetas do Cancioneiro Geral usaram o acróstico como homenagem ou dedicatória encoberta.

Aférese

Métrica e Ritmo

Supressão de um ou mais sons no início de uma palavra, usada por necessidades métricas ou estilísticas.

«Embora» por «em boa hora»; «tá» por «está» — formas que os poetas popularizam para ajustar o cômputo silábico.

Alegoria

Técnica

Narrativa ou imagem extensa em que personagens, acções e objectos representam ideias abstractas ou morais para além do sentido literal.

Os Lusíadas de Camões: a viagem de Vasco da Gama alegoriza a missão histórica e espiritual de Portugal.

Aliteração

Recurso Sonoro

Repetição de um ou mais fonemas consonânticos em palavras próximas para criar um efeito sonoro expressivo.

Camões: «Armas e os barões assinalados» — repetição do /a/ e das consoantes iniciais cria musicalidade épica.

Ambiguidade

Técnica

Qualidade de uma expressão que permite múltiplas interpretações simultâneas, usada deliberadamente para criar profundidade.

A poesia de Fernando Pessoa é estruturalmente ambígua: «Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada.»

Ambivalência

Técnica Poética

Presença de dois sentidos opostos.

O amor é fogo que arde sem se ver.

Anacoluto

Figura de Linguagem

Quebra na estrutura sintática da frase.

Esses políticos, não se pode confiar neles.

Anadiplose

Figura Retórica

Repetição da última palavra ou grupo de palavras de um verso no início do verso seguinte, criando encadeamento.

Camões: «amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente.» — a conjunção retoma e encadeia.

Anáfora

Figura Retórica

Repetição de uma ou várias palavras no início de versos ou cláusulas sucessivas, com efeito rítmico e retórico.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos): «Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada.»

Anástrofe

Figura de Linguagem

Inversão da ordem natural das palavras.

De tudo ficou um pouco.

Antítese

Figura Retórica

Contraposição de duas ideias, palavras ou frases de sentido oposto dentro de um mesmo contexto expressivo.

Camões: «Amor é fogo que arde sem se ver; / é ferida que dói e não se sente; / é um contentamento descontente.»

Antonomásia

Figura Retórica

Substituição de um nome próprio por um apelativo que designa a sua qualidade principal, ou uso de um nome próprio como nome comum.

«O Príncipe dos Poetas Portugueses» por Camões; «o Poeta» por excelência na tradição lusófona.

Apócope

Métrica e Ritmo

Supressão de um ou vários sons no final de uma palavra, usada em poesia por necessidades métricas ou estilísticas.

«algum» por «alguma»; «bom» por «bom(a)»; formas apocopadas frequentes no verso popular.

Apóstrofe

Figura Retórica

Interpelação veemente e directa a uma pessoa ausente, a um ser inanimado ou a uma abstracção como se pudesse ouvir.

Camões, Os Lusíadas: «Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal!»

Arte Maior

Métrica e Ritmo

Versos de nove ou mais sílabas na métrica portuguesa; inclui o decassílabo, o dodecassílabo e o alexandrino.

O decassílabo (10 sílabas) é o verso de arte maior por excelência: «As armas e os barões assinalados.»

Arte Menor

Métrica e Ritmo

Versos de oito sílabas ou menos na métrica portuguesa; inclui o octossílabo, o heptassílabo e o hexassílabo.

O redondilho maior (7 sílabas) é o verso popular português por excelência: «Saudade, onde moras tu?»

Assíndeto

Figura Retórica

Omissão de conjunções entre palavras, frases ou cláusulas para dar rapidez, energia ou intensidade ao discurso.

Cesário Verde: «Ela ia, vinha, cruzava, / subia, descia, era bela.» — verbos sem conjunção aceleram o ritmo.

Assonância

Recurso Sonoro

Coincidência dos sons vocálicos a partir da última vogal tónica em dois ou mais versos, sem que coincidam as consoantes.

Na poesia popular e no Romance: «A nau Catrineta / que tem muito que contar» — rima em á-a.

Balada

Forma Poética

Composição lírica ou narrativa de origem medieval, geralmente com refrão e tom melancólico ou narrativo.

As Baladas de Antero de Quental e de Guerra Junqueiro renovam o género no Romantismo português.

Barroco

Movimento Literário

Movimento literário e artístico do século XVII caracterizado pela complexidade formal, o contraste, o desengano e o virtuosismo expressivo.

Padre António Vieira nos sermões e Francisco Manuel de Melo na poesia são as vozes maiores do Barroco português.

Cacofonia

Recurso Sonoro

Combinação de sons que produz um efeito auditivo desagradável, usada expressivamente para reflectir caos ou fealdade.

«Cada vaca que passa» — o encontro de consoantes cria dureza sonora; a cacofonia pode ser involuntária ou intencional.

Caligrama

Técnica Poética

Poema cuja disposição gráfica forma uma imagem.

Poema em forma de árvore.

Canção

Forma Poética

Composição lírica de origem provençal ou italiana, de estrofe variável, que exprime sentimentos amorosos ou filosóficos.

Camões cultivou a canção petrarquista; a canção de Fernando Pessoa oscila entre o verso regular e a prosa poética.

Cantiga

Forma Poética

Composição lírica medieval galego-portuguesa, dividida em cantiga de amor, de amigo, de escárnio e maldizer.

Cantiga de amigo de D. Dinis: «Ai flores, ai flores do verde pino, / se sabedes novas do meu amigo?»

Cantiga de Amigo

Forma Poética

Género lírico trovadoresco em que uma voz feminina lamenta a ausência do amado, com estrutura paralelística.

Paio Soares de Taveirós: a donzela invoca a natureza (árvores, aves, mar) como testemunha do seu lamento.

Cantiga de Amor

Forma Poética

Género lírico trovadoresco em que o poeta (jogral ou trovador) exprime a sua dor de amor por uma dama inacessível.

D. Dinis: «Quer'eu em maneira de proençal / fazer agora un cantar d'amor.»

Género satírico trovadoresco que critica ou ridiculariza pessoas, costumes ou situações, com ou sem menção explícita.

Afonso X de Leão e numerosos trovadores compuseram cantigas de escárnio contra rivais, covardes e hipócritas.

Catacrese

Figura de Linguagem

Uso impróprio de uma palavra por falta de termo específico.

Embarcar no avião.

Cesura

Estrutura

Pausa interna do verso que o divide em dois hemistíquios, sem alterar o cômputo silábico total.

No alexandrino: «No meio do caminho || tinha uma pedra» — pausa após a sexta sílaba (Drummond).

Chiasmo

Figura Retórica

Figura de construção em que os elementos de duas expressões se repetem em ordem inversa (A-B / B-A).

Camões: «Em vós o mundo vejo, / e vejo o mundo em vós» — os termos cruzam-se em ordem inversa.

Classicismo

Movimento Literário

Movimento literário que toma como modelo a Antiguidade greco-latina, valorizando a harmonia, o equilíbrio e a razão.

O Renascimento português (Sá de Miranda, Camões) assimila os ideais clássicos italianos e latinos.

Conceptismo

Movimento Literário

Corrente barroca que busca a agudeza intelectual mediante associações engenhosas, paradoxos e jogos de conceitos.

Padre António Vieira nos Sermões; Francisco Manuel de Melo na lírica — a agudeza conceptista ao serviço do sacro.

Concretismo

Movimento Literário

Movimento poético brasileiro dos anos 50 que explora a dimensão visual, sonora e semântica da palavra na página.

O grupo Noigandres (Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari) fundou o Concretismo em 1952.

Conotação

Técnica

O conjunto de significados evocadores, emotivos e culturais que uma palavra carrega para além do seu sentido literal.

«Saudade» denota uma forma de nostalgia; connota toda uma visão do mundo lusófona — perda, ausência, tempo irrecuperável.

Consonância

Recurso Sonoro

Rima perfeita em que coincidem todos os sons, vocálicos e consonânticos, a partir da última vogal acentuada.

«amor» / «dor» — rima imperfeita; «amor» / «cor» — rima consonante; «vida» / «perdida» — rima plena.

Copla

Forma Poética

Estrofe de quatro versos, geralmente octossílabos, de rima variável; também poema popular breve e sentencioso.

Coplas populares portuguesas: quadras do Carnaval, da sardinhas assadas, canções de roda — herança do trovadorismo.

Decassílabo

Métrica e Ritmo

Verso de dez sílabas métricas, o mais prestigioso da poesia portuguesa de tradição clássica, com acento obrigatório na 10ª sílaba.

Camões, Os Lusíadas: «As armas e os Barões assinalados» — decassílabo heroico com acento em 6ª e 10ª.

Décima

Estrutura Poética

Estrofe de dez versos.

Estrutura comum em poesia popular.

Denotação

Técnica

O significado literal e primário de uma palavra, independente das suas conotações emotivas ou culturais.

«Casa» denota construção habitável; as suas conotações (lar, refúgio, infância) são distintas do significado denotativo.

Dicção

Técnica

A selecção e disposição das palavras num poema — o nível lexical (culto, popular, arcaico, coloquial) que define o tom e o estilo.

A dicção de Camões é latinizante e grave; a de Fernando Pessoa (ortónimo) é filosófica e sóbria; a de Cesário Verde, realista e urbana.

Diérese

Métrica e Ritmo

Figura métrica que separa em duas sílabas uma sequência vocálica que normalmente formaria ditongo, aumentando a contagem silábica.

«su-a-ve» (3 sílabas em vez de 2) quando o verso o requer; sinal gráfico: ü em «freqüente» (ortografia anterior).

Dramático

Gênero Poético

Poema destinado à representação teatral.

Auto da Barca do Inferno.

Écfrase

Técnica

Descrição poética vívida e detalhada de uma obra de arte visual (pintura, escultura, tapeçaria) que ganha vida no texto.

Camões descreve a tapeçaria da saga de Portugal em Os Lusíadas com técnica écfrástica; também Alberto Caeiro descreve paisagens como «quadros».

Elegia

Forma Poética

Composição lírica de tom melancólico que lamenta a morte de alguém, uma perda ou a passagem do tempo.

Antero de Quental, Sonetos; Eugénio de Andrade, «Herança»; Carlos Drummond de Andrade, «Elegia 1938».

Elipse

Figura Retórica

Omissão de um ou mais elementos gramaticalmente necessários mas facilmente subentendidos pelo contexto.

Pessoa: «Não sou nada» — o ser implícito na cópula é suprimido com efeito de concentração máxima.

Encabalgamento

Estrutura

Fenómeno em que a unidade sintáctica não coincide com o final do verso, continuando no seguinte sem pausa.

Pessoa: «Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.»

Epanadiplose

Figura de Linguagem

Repetição de uma palavra no início e no fim de um verso.

Livre sou, sou livre.

Epanalepe

Figura de Linguagem

Repetição de uma palavra no meio do verso.

Canta, canta, passarinho.

Épico

Gênero Poético

Poema longo que narra feitos heroicos.

Os Lusíadas.