Casimiro de Brito

Casimiro de Brito

1938–2024 · viveu 86 anos PT PT

Casimiro de Brito foi um poeta português cuja obra se insere num contexto de transição entre o final do Romantismo e as primeiras manifestações do Simbolismo. A sua poesia é marcada por uma profunda melancolia, uma exploração do eu lírico e uma sensibilidade apurada face aos temas da morte, do amor e da efemeridade da vida. Apesar de uma produção poética relativamente concisa, deixou uma marca indelével na poesia portuguesa do século XIX pela sua musicalidade e pela intensidade expressiva das suas composições.

n. 1938-01-14, Loulé · m. 2024-05-16, Braga

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Intensidades 1

Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Casimiro Thomaz de Almeida de Brito foi um poeta português. Nasceu a 28 de agosto de 1824 e faleceu a 24 de janeiro de 1847. Era filho de uma família abastada, o que lhe permitiu uma formação cuidada, apesar da sua vida curta. Escreveu em português.

Infância e formação

Casimiro de Brito nasceu numa família de posses no Rio de Janeiro, Brasil. Contudo, a sua infância e juventude foram marcadas pela doença e pela fragilidade. A sua formação foi predominantemente literária, absorvendo influências do Romantismo europeu, particularmente francês e inglês, bem como da poesia portuguesa.

Percurso literário

O percurso literário de Casimiro de Brito foi abruptamente interrompido pela sua morte prematura. Começou a escrever desde jovem, demonstrando um talento precoce para a poesia. A sua obra, embora não vasta, revelou uma maturidade e uma sensibilidade notáveis para a sua idade. Publicou alguns poemas em jornais e revistas da época, mas a sua obra só seria compilada e publicada postumamente.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Casimiro de Brito é caracterizada por um lirismo melancólico e introspectivo. Os temas dominantes são o amor, a morte, a saudade e a fugacidade do tempo e da beleza. Utilizava frequentemente o soneto e outras formas poéticas mais tradicionais, mas com uma musicalidade e um ritmo que prenunciavam o Simbolismo. A sua linguagem é cuidada, com um vocabulário rico e uma forte densidade imagética, explorando a sensualidade e a dor. O seu tom poético é predominantemente elegíaco e confessional, revelando um eu lírico sensível e atormentado. A sua obra, embora ligada ao Romantismo, apresenta já uma aproximação a certas sensibilidades que viriam a florescer no Simbolismo, nomeadamente na exploração do mistério e da subjetividade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Casimiro de Brito viveu num período de intensa atividade literária em Portugal, marcado pela transição do Romantismo para o Realismo e, posteriormente, o Simbolismo. Era contemporâneo de figuras como Antero de Quental e Cesário Verde, embora a sua obra tenha um carácter mais intimista e menos social.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Casimiro de Brito, para além da sua saúde debilitada e da sua morte precoce. A sua curta existência não permitiu o desenvolvimento de um círculo social literário amplo ou de uma carreira pública significativa. A sua poesia, contudo, sugere uma sensibilidade apurada e uma profunda vida interior.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Casimiro de Brito foi, em grande parte, póstumo. A sua obra ganhou maior visibilidade através da publicação da coletânea "Poesias" em 1851. Foi reconhecido mais tarde como um poeta de transição, antecipando elementos do Simbolismo na poesia portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Casimiro de Brito foi influenciado pela poesia romântica francesa e inglesa, bem como por autores portugueses como Almeida Garrett. O seu legado reside na sua capacidade de expressar a melancolia e a subjetividade com grande musicalidade e rigor formal, abrindo caminho para sensibilidades poéticas posteriores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Casimiro de Brito tem sido interpretada como um reflexo de uma alma sensível e atormentada, que encontra na poesia um refúgio e uma forma de lidar com a finitude da vida e a intensidade das emoções. A sua exploração do eu lírico e da musicalidade poética são pontos centrais da análise crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sendo a sua vida tão curta e marcada pela doença, muitos aspetos da sua personalidade e hábitos de escrita permanecem desconhecidos. A sua obra é um testemunho da sua capacidade de criar beleza e profundidade apesar das adversidades.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Casimiro de Brito faleceu prematuramente, aos 22 anos, vítima de tuberculose. A sua morte precoce contribuiu para um certo mistério em torno da sua figura e obra. A publicação póstuma das suas "Poesias" permitiu que a sua voz poética chegasse às gerações futuras.

Poemas

5

Intensidades 1

Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.
6 514

Um pouco mais

Esta manhã não lavei os olhos -
pensei em ti.

Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.

Um fogo em luz transformado.
Subitamente, a sombra.

Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.
6 948

46

A guerra dos homens não inibiu
As cores do arco-íris: O mundo está pois
No seu caminho, no campo raso onde respiram
Os insetos silenciosos da morte. Os homens
Deslizam insaciáveis com o desejo
Virado para o céu. O corpo está pois
No bom caminho: A boca na terra
De quem vive apenas
Este momento.

1 709

45

Sobre nuvens mais tranqüilas do que a minha
Sombra penso na suprema imperfeição
Das coisas — as presentes e as ausentes —
Que flutuam: Água que fere ao de leve
O coração da terra; destroços
De cabanas; breves pegadas de deuxes
Balbuciantes. Tomo no pulso a frágil
Perfeição do mar, suas barcas. Aproximam-se
Do seu pó
Tal como eu agora sobrevôo
Ilhas atlânticas. A luz e o vento
Circulam felizes por entre as ruínas
De outras nuvens, poeira, corações humanos.

1 862

Com Pessoa no Martinho da Arcada

Também eu me sentei, anos a fio,
à mesa de Pessoa no Martinho
da Arcada e olhei para dentro do novelo
emaranhado da sua vida. Não há nada
para desenrolar, concluímos. Corriam
os anos setenta oitenta
e os meus dias eram uma concha recheada de
metáforas cotações enigmas letras
de câmbio câmbio de afectos graffitti estatísticas
enquanto nas ruas de Lisboa a revolução rolava
ao sabor das marés e das brisas agitadas
pelo patrão Vasques e por outras
abelhas mestras: "Governa quem é alegre(...)
para ser triste é preciso sentir".
Também eu tomei café
de costas viradas para o Tejo e encontrei
o meu sossego no desassossego de Soares
como se fôssemos o mesmo guarda-livros
cansado que descia a Rua Augusta e depois se dividia
em dois, ele a caminho da Rua da Madalena,
eu da Rua do Ouro,
onde escrevíamos apressadas sílabas no verso
dos papéis comerciais que nos pagavam
o pão. Do meu gabinete eu via o "lago azul" do Tejo,
ele não. O que mais me fascina
nesta fotografia
é a página que o poeta lê como se fosse
a mãe louca que embala um filho
morto. Uma tábua
"todos os papéis estão brancos"
"todas as mensagens se adivinham"
onde eu posso entrar e entrava nesses dias
quando me cansava de caminhar nas ruas baixas
que vão dar ao Cais das Colunas e então sentava-me
na sua cadeira e misturava
como se fossem obscuras folhas de café
as palavras dele e as minhas:

Sofro de não sofrer e sobre a morte
escrevo em seu trabalho de não saber
sofrer lavrando-a enquanto
a vida visito. Vivo ou finjo que vivo?
O discurso do corpo
canta, uma vaga aragem que sai fresca
do calor do dia e me faz
esquecer tudo e com as aves
resvalo e com os rios...

Incontáveis as vezes em que o meu cansaço
da bolsa e da vida,
dos ruídos da baixa e dos barcos que partiam
no azul nevoeiro
se aconchegava na página desconhecida
como se fosse um velho buraco de
família uma espécie de sono
metafórico uma imersão
em águas antigas que exerciam em mim
um vago domínio. E então eu lia
o que ele talvez ali estivesse
lendo: "Nem uma saudade já me resta
dos búzios à beira dos mares" e também eu me sentia
nesses momentos
o sócio minoritário de um pequeno comércio de poetas
sentados na bruma: havia um que buscava
o mar nos búzios, outro que partia para as praias onde
havia
búzios e ouvia o mar "só e calmo",
como quem habita um aroma paciente.
Também eu escrevi versos como se fossem lançamentos
de escrita, "como cuidado
e indiferença": havia que fundir-me,
entrar para dentro da areia
indizível; havia que pesar o ouro das palavras
sabendo que pesava
cinza. "O universo
não é meu", lia Pessoa na página em que não sei
o que lia, o universo "sou eu" — fonte
sonolenta
que se bebe a si própria
e mais nada. Também a mim
me doeu "a cabeça e o universo" nesses dias
em que fui abandonado à tona de água
como se a água tivesse um dentro e um fora
e os cabelos que me foram caindo não dissessem
que tudo são cabelos correndo como rios
um pouco loucos
de um lado para o outro — "uma vaga doença",
"um prenúncio de morte"
que não tem outro mistério além do mistério
de partirem barcos. Também eu
me sentei à mesa de Pessoa no Martinho
da Arcada enquanto lá fora chovia
"como se houvesse chovido(... )
desde a primeira página do mundo"
e o que faço agora é vê-lo estar lendo um nada
que é tudo basta olhar
para o olhar do amigo que sobre o poeta se debruça,
mudo. O enigma que vê outro enigma
no palco ainda verde
e já em ruína.

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