Cesário Verde foi um poeta português, considerado um dos precursores da poesia moderna em Portugal. A sua obra, marcada por uma observação detalhada do real e pela exploração da vida quotidiana, especialmente em Lisboa, distingue-se pela sua linguagem inovadora e pela sensibilidade na captação de sensações. Apesar de uma produção literária relativamente reduzida e publicada postumamente, o seu impacto foi profundo na poesia portuguesa subsequente, abrindo caminho para o modernismo.
n. 1855-02-25, Freguesia da Madalena·m. 1886-07-19, Lumiar
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Eu que sou feio, sólido, leal
Eu que sou feio, sólido, leal, A ti, que és bela, frágil, assustada, Quero estimar-te, sempre, recatada Numa existência honesta, de cristal.
Sentado à mesa de um café devasso, Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura, Nesta babel tão velha e corruptora, Tive tenções de oferecer-te o braço.
E, quando socorreste um miserável, Eu, que bebia cálices de absinto, Mandei ir a garrafa, porque sinto Que me tornas prestante, bom, sudável.
«Ela aí vem!» disse eu para os demais; E pus me a olhar, vexado e suspirando, O teu corpo que pulsa, alegre e brando, Na frescura dos linhos matinais.
Via-te pela porta envidraçada; E invejava, - talvez que não o suspeites! - Esse vestido simples, sem enfeites, Nessa cintura tenra, imaculada. ... Soberbo dia! Impunha-me respeito A limpidez do teu semblante grego; E uma família, um ninho de sossego, Desejava beijar o teu peito.
Com elegância e sem ostentação, Atravessavas branca, esbelta e fina, Uma chusma de padres de batina, E de altos funcionários da nação.
«Mas se a atropela o povo turbulento! Se fosse, por acaso, ali pisada!» De repente, paraste embaraçada Ao pé de um numeroso ajuntamento,
E eu, que urdia estes frágeis esbocetos, Julguei ver, com a vista de poeta, Um pombinha tímida e quieta Num bando ameaçador de corvos pretos.
E foi, então que eu, homem varonil, Quis dedicar-te a minha pobre vida, A ti, que és ténue, dócil, recolhida, Eu, que sou hábil, prático, viril.
O nome completo do poeta é João Cesário de Lacerda Verde. Nasceu em Lisboa a 25 de junho de 1855 e faleceu na mesma cidade a 26 de junho de 1886. Era filho de uma família burguesa abastada, o que lhe permitiu uma formação cuidada. Foi um poeta de língua portuguesa.
Infância e formação
Cesário Verde nasceu e cresceu num ambiente familiar abastado, o que influenciou a sua sensibilidade e perspetiva. Frequentou o ensino secundário no Colégio de São Francisco de Paula e, posteriormente, matriculou-se na Universidade de Coimbra para estudar Filosofia, mas não concluiu o curso. Foi um autodidata, com vastos interesses culturais e literários. As leituras de autores clássicos e contemporâneos, bem como a observação atenta da vida urbana de Lisboa, moldaram a sua visão poética.
Percurso literário
Cesário Verde começou a escrever poesia na juventude. A sua obra principal, "O Livro de Cesário Verde", foi publicada postumamente em 1887, organizada por seu irmão, Adolfo Verde. A poesia de Cesário Verde evoluiu de um lirismo inicial para uma abordagem mais realista e descritiva, focada nos pormenores da vida urbana e rural. Apesar de não ter colaborado ativamente em revistas literárias de grande projeção, o seu nome viria a ser reconhecido postumamente como um marco na poesia portuguesa.
Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias
A obra mais significativa de Cesário Verde é "O Livro de Cesário Verde" (1887). Os temas dominantes na sua poesia incluem a cidade de Lisboa, a natureza, a vida quotidiana, a infância, a condição humana e a efemeridade do tempo. Caracteriza-se pela utilização do verso livre e de formas métricas variadas, evitando o convencionalismo. Utiliza recursos poéticos como a metáfora e a sinestesia, criando imagens vívidas e sensoriais. O tom da sua poesia pode variar entre o lírico, o contemplativo e o irónico. A sua linguagem é simultaneamente simples e precisa, capaz de captar a beleza nos pormenores mais banais. É considerado um precursor do modernismo, com inovações formais e temáticas que o afastam da tradição romântica.
Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico
Cesário Verde viveu numa época de transição em Portugal, o final do século XIX, marcada por instabilidade política e por profundas mudanças sociais e urbanas. A sua obra dialoga com a modernização de Lisboa, contrastando a vida urbana com a natureza. É associado a uma geração que procurava novas formas de expressão poética, distanciando-se do Romantismo. A sua poesia reflete um olhar crítico e ao mesmo tempo terno sobre a sociedade da sua época.
Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal
Cesário Verde teve uma vida marcada pela sensibilidade e por uma certa melancolia. A sua relação com a família, especialmente com a mãe, foi importante. Não teve ligações afetivas que tenham moldado significativamente a sua obra de forma explícita. Viveu uma vida discreta, dedicada à poesia e à observação do mundo. Não se conhece envolvimento político ativo.
Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção
Em vida, Cesário Verde teve um reconhecimento muito limitado. A sua obra só ganhou projeção e o devido reconhecimento após a sua morte, com a publicação de "O Livro de Cesário Verde". É hoje considerado um dos poetas mais importantes da literatura portuguesa do século XIX e um precursor incontornável do modernismo.
Obra, estilo e características literárias
Influências e legado
Cesário Verde foi influenciado por autores como Baudelaire e pela poesia realista. O seu legado é imenso, tendo influenciado gerações posteriores de poetas portugueses, incluindo Fernando Pessoa e o grupo da revista Orpheu. A sua forma de observar o real e de o transfigurar poeticamente abriu novos caminhos para a poesia em língua portuguesa.
Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica
A obra de Cesário Verde tem sido objeto de múltiplos estudos críticos. A sua poesia é lida como uma profunda meditação sobre a existência, a fugacidade do tempo e a beleza intrínseca do quotidiano. A relação entre o urbano e o natural, e a forma como estes se entrelaçam na perceção humana, são temas centrais para a análise da sua obra.
Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos
Cesário Verde era conhecido pela sua discrição e introspeção. A sua sensibilidade era aguçada, captando detalhes que passavam despercebidos à maioria. Embora tenha frequentado a Universidade de Coimbra, não se adaptou ao ambiente académico. A sua poesia, muitas vezes considerada melancólica, reflete também uma profunda ternura pela vida e pelas pessoas.
Obra, estilo e características literárias
Morte e memória
Cesário Verde faleceu precocemente, aos 31 anos, devido a tuberculose. A sua morte prematura deixou um sentimento de perda na literatura portuguesa. A memória de Cesário Verde é celebrada como a de um poeta visionário que, com uma obra concisa mas poderosa, revolucionou a poesia em língua portuguesa.
Poemas
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Eu que sou feio, sólido, leal
Eu que sou feio, sólido, leal, A ti, que és bela, frágil, assustada, Quero estimar-te, sempre, recatada Numa existência honesta, de cristal.
Sentado à mesa de um café devasso, Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura, Nesta babel tão velha e corruptora, Tive tenções de oferecer-te o braço.
E, quando socorreste um miserável, Eu, que bebia cálices de absinto, Mandei ir a garrafa, porque sinto Que me tornas prestante, bom, sudável.
«Ela aí vem!» disse eu para os demais; E pus me a olhar, vexado e suspirando, O teu corpo que pulsa, alegre e brando, Na frescura dos linhos matinais.
Via-te pela porta envidraçada; E invejava, - talvez que não o suspeites! - Esse vestido simples, sem enfeites, Nessa cintura tenra, imaculada. ... Soberbo dia! Impunha-me respeito A limpidez do teu semblante grego; E uma família, um ninho de sossego, Desejava beijar o teu peito.
Com elegância e sem ostentação, Atravessavas branca, esbelta e fina, Uma chusma de padres de batina, E de altos funcionários da nação.
«Mas se a atropela o povo turbulento! Se fosse, por acaso, ali pisada!» De repente, paraste embaraçada Ao pé de um numeroso ajuntamento,
E eu, que urdia estes frágeis esbocetos, Julguei ver, com a vista de poeta, Um pombinha tímida e quieta Num bando ameaçador de corvos pretos.
E foi, então que eu, homem varonil, Quis dedicar-te a minha pobre vida, A ti, que és ténue, dócil, recolhida, Eu, que sou hábil, prático, viril.
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Nas nossas ruas, ao anoitecer
Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer
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E, enorme, nesta massa irregular
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!
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De tarde
Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.
Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.
Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.
Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.
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Deslumbramentos
Milady, é perigoso contemplá-la
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.
Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, senguindo-lhes as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…
Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!
Ah! Como me estonteia e me fascina…
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…
Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!
O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!
Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.
E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como a um brilhante.
Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.
E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!
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O Sentimento dum Ocidental I - Avé Maria
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
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Vaidosa
Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
a déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces
És tão loira e doirada como as messes
E possuis muito amor... muito "amor próprio".
12 185
Eu e ela
Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;
Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.
Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.
Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.
Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.
Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas...
8 517
Manias!
O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.
Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.
Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,
Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!
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Num Bairro Moderno
Dez horas da manhã; os transparentes Matizam uma casa apalaçada; Pelos jardins estacam-se as nascentes, E fere a vista, com brancuras quentes, A larga rua macadamizada.
Rez-de-chaussée repousam sossegados, Abriram-se, nalguns, as persianas, E dum ou doutro, em quartos estucados, Ou entre a rama dos papéis pintados, Reluzem, num almoço, as porcelanas.
Como é saudável ter o seu aconchego, E a sua vida fácil! Eu descia, Sem muita pressa, para o meu emprego, Aonde eu agora quase sempre chego Com as tonturas duma apoplexia.
E rota, pequenina, azafamada, Notei de costas uma rapariga, Que no xadrez marmóreo duma escada, Como um retalho de horta aglomerada, Pousara, ajoelhando, a sua giga.
E eu, apesar do sol, examinei-a: Pôs-se de pé; ressoam-lhe os tamancos; E abre-se-lhe o algodão azul da meia, Se ela se curva, esguedelhada, feia, E pendurando os seus bracinhos brancos.
Do patamar responde-lhe um criado: «Se te convém, despacha; não converses. Eu não dou mais.» E muito descansado, Atira um cobre lívido, oxidado, Que vem bater nas faces duns alperces.
Subitamente - que visão de artista! - Se eu transformasse os simples vegetais, À luz do Sol, o intenso colorista, Num ser humano que se mova e exista Cheio de belas proporções carnais?!
Bóiam aromas, fumos de cozinha; Com o cabaz às costas, e vergando, Sobem padeiros, claros de farinha; E às portas, uma ou outra campainha Toca, frenética, de vez em quando.
E eu recompunha, por anatomia, Um novo corpo orgânico, aos bocados. Achava os tons e as formas. Descobria Uma cabeça numa melancia, E nuns repolhos seios injectados.
As azeitonas, que nos dão o azeite, Negras e unidas, entre verdes folhos, São tranças dum belo cabelo que se ajeite; E os nabos - ossos nus, da cor dp leite, E os cachos de uvas - os rosários de olhos.
Há colos, ombros, bocas, um semblante Nas posições de certos frutos. E entre As hortaliças, túmido, fragrante, Como dalguém que tudo aquilo jante, Surge um melão, que me lembrou um ventre.
E, como um feto, enfim, que se dilate, Vi nos legumes carnes tentadoras, Sangue na ginja vívida, escarlate, Bons corações pulsando no tomate E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.
O sol dourava o céu. E a regateira, Como vendera a sua fresca alface E dera o ramo de hortelã que cheira, Voltando-se, gritou-me, prazenteira: «Não passa mais ninguém!... Se me ajudasse?!...»
Eu acerquei-me dela, sem desprezo; E, pelas duas asas a quebrar, Nós levantámos todo aquele peso Que ao chão de pedra resistia preso, Com um enorme esforço muscular.
«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!» E recebi, naquela despedida, As forças, a alegria, a plenitude, Que brotam dos excessos de virtude Ou duma digestão desconhecida.
E enquanto sigo para o lado oposto, E ao longe rodam as carruagens, A pobre afasta-se, ao calor de Agosto, Descolorida nas maçãs do rosto, E sem quadris na saia de ramagens.
Um pequerrucho rega a trepadeira Duma janela azul; e, com o ralo Do regador, parece que joeira Ou que borrifa estrelas; e a poeira Que eleva nuvens alvas a incensá-lo.
Chegam do gigo emanações sadias, Oiço um canário - que infantil chilrada! - Lidam ménages entre as gelosias, E o sol estende, pelas frontarias, Seus raios de laranja destilada.
E pitoresca e audaz, na sua chita, O peito erguido, os pulsos nas ilhargas, Duma desgraça alegre que me incita, Ela apregoa, magra, enfezadita, As suas couves repolhudas, largas.
E, como grossas pernas dum gigante, Sem tronco, mas atléticas, inteiras, Carregam sobre a pobre caminhante, Sobre a verdura rústica, abundante, Duas frugais abóboras carneiras.
alguem pode dizer qual é o livro de cesario verde?!?
Isto é a vida de cesario verde...e está muitoo bem resumida =)