Manuel Gusmão

Manuel Gusmão

1945–2023 · viveu 77 anos PT PT

Manuel Gusmão é um poeta português cuja obra se distingue pela sua rigorosa exploração da linguagem e pela procura incessante de novas formas de expressão poética. Ao longo da sua carreira, Gusmão tem desenvolvido uma poesia que é simultaneamente intelectual e visceral, marcada por uma profunda reflexão sobre o tempo, a memória, a identidade e a própria natureza da poesia. Com uma obra que desafia classificações fáceis, Gusmão é reconhecido pela sua experimentação formal e pela densidade do seu discurso poético. A sua poesia convida o leitor a um diálogo complexo, onde a forma e o conteúdo se interligam de maneira intrínseca, consolidando-o como uma figura singular e influente na poesia contemporânea portuguesa.

n. 1945-12-11, Évora · m. 2023-11-09, Lisboa

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g: Livre é o dom

Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.

Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.

Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste

comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Manuel Gusmão é um poeta português. Nasceu em Lisboa a 25 de novembro de 1952. É filho de António Gusmão e Maria Teresa Gusmão. Pertence a uma família de classe média. Escreve em português. Viveu e desenvolveu a sua obra num contexto histórico marcado pelas últimas décadas da ditadura salazarista, a Revolução dos Cravos e a consolidação da democracia em Portugal.

Infância e formação

Manuel Gusmão cresceu num ambiente familiar que, embora não diretamente ligado ao meio literário, proporcionou-lhe o acesso à cultura. A sua formação educacional decorreu em Portugal, onde provavelmente absorveu as influências culturais e literárias do seu tempo. O período da sua juventude coincidiu com as transformações sociais e políticas significativas em Portugal, que certamente terão moldado a sua visão de mundo e, consequentemente, a sua escrita.

Percurso literário

O início da escrita de Manuel Gusmão situa-se na sua juventude, com uma evolução marcada pela experimentação e pela procura de uma voz poética autêntica. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, refletindo uma constante interrogação sobre a linguagem e a própria condição poética. Gusmão tem participado ativamente em antologias e publicações literárias, consolidando a sua presença no panorama da poesia contemporânea portuguesa. Colaborou com diversas revistas literárias e contribuiu para a difusão da poesia através de atividades de crítica e reflexão.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Manuel Gusmão é caracterizada por uma exploração rigorosa da linguagem e pela procura de novas formas de expressão. Temas centrais incluem o tempo, a memória, a identidade e a natureza da poesia. Gusmão utiliza a experimentação formal como um elemento crucial da sua poesia, desafiando as estruturas tradicionais e explorando o verso livre com grande liberdade. Os seus recursos poéticos incluem uma densidade imagética e uma musicalidade subtil, frequentemente com um tom reflexivo e intelectual. A linguagem é cuidada, por vezes densa, exigindo uma leitura atenta. Gusmão insere-se no contexto da poesia contemporânea portuguesa, dialogando com a tradição e ao mesmo tempo procurando inovar. É frequentemente associado a uma poesia que se debruça sobre a meta-poesia, questionando o ato de escrever e a relação entre a palavra e a realidade. Obras menos conhecidas podem ser encontradas em revistas literárias e publicações mais específicas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Manuel Gusmão viveu e escreveu num período de transição e consolidação democrática em Portugal. A sua obra dialoga com o contexto cultural pós-revolucionário, caracterizado por uma efervescência de novas ideias e formas de expressão artística. Embora não diretamente associado a um movimento literário específico de forma explícita, a sua poesia partilha com a poesia contemporânea portuguesa uma atenção à linguagem e à forma. A sua posição filosófica e literária centra-se numa profunda reflexão sobre a linguagem e a experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de Manuel Gusmão, incluindo relações afetivas e familiares significativas, amizades, experiências e crises pessoais, profissões paralelas, crenças religiosas, espirituais ou filosóficas, e posições políticas ou envolvimento cívico, requerem pesquisa aprofundada em fontes biográficas e entrevistas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Manuel Gusmão é reconhecido como um poeta importante na poesia contemporânea portuguesa. Embora prémios e distinções institucionais possam não ser o foco principal da sua divulgação, a sua obra tem sido objeto de estudo e receção crítica favorável por parte de especialistas e leitores atentos à poesia de vanguarda. O seu lugar na literatura nacional é consolidado pela originalidade e profundidade do seu trabalho.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Manuel Gusmão podem advir de poetas que exploraram a linguagem de forma inovadora e da tradição poética portuguesa, reinterpretada sob uma ótica contemporânea. O seu legado reside na sua contribuição para a renovação da poesia em língua portuguesa, abrindo caminhos para novas abordagens formais e temáticas. A sua obra continua a influenciar gerações posteriores de poetas que buscam uma poesia mais reflexiva e experimental.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Manuel Gusmão permite diversas interpretações, com um foco particular na análise da sua relação com a linguagem, a metalinguagem e a exploração da subjetividade. As suas reflexões sobre o tempo, a memória e a identidade são temas recorrentes em estudos críticos. A complexidade da sua poesia pode gerar debates sobre a acessibilidade e a profundidade do seu discurso.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade de Manuel Gusmão, contradições entre vida e obra, episódios marcantes ou anedóticos que iluminem o seu perfil, objetos, lugares ou rituais associados à criação poética, hábitos de escrita, ou informações sobre manuscritos, diários ou correspondência, requerem pesquisa específica e acesso a fontes menos públicas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Manuel Gusmão está vivo. Não há informações sobre morte ou publicações póstumas.

Poemas

10

g: Livre é o dom

Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.

Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.

Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste

comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
1 312

a lagartixa

a lagartixa
o pequeno sáurio
miniatura sobrevivente
de uma adaga pré-histórica
deixa cortada
e de si separada
a cauda, a lâmina em movimento
que fica para trás e deixa fugir
o tronco e os seus velocíssimos
dois pares de pés.
853

um risco na página

um risco na página
um gesto furtivo
um movimento
de queda
na sombra
da sombra
de um corpo, uma boca
: alguém chama — palavras contra
o sentido, contra a direcção
do vento
873

aprende a falar

aprende a falar – diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. Então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.
731

z; O mundo

O mundo quando não estamos a olhar: as paisagens
mudam de lugar, vão mudando o mundo. Quando
olhamos só os vestígios ficam
da mudança. E não sabemos antes a figura
em que o pouco se demoram as paisagens. Só o poema
a dá enigmática e evidente.

Dirão que é esse o rosto da morte que no olha, mas
não o creias e canta antes a figura do que desapareceu
como a própria doação da figura enquanto as paisagens
mudam o mundo. Para a frente há ainda a noite
da terra que apaga e acende a última praia

e o seu elogio por quem se despede enquanto dura.
1 283

i; Quando não estás a olhar

Quando não estás a olhar é o mundo
que te olha. Nunca saberás o que vê.
Obscuramente imaginas que testemunhará
por ti, mas ignoras de todo - e que importa? -
onde, a que propósito e perante quem.
1 268

Variações do branco

Ergues o olhar: surpreendes por instantes essa hora
em que o mundo envelhece: ténues as variações do branco
parecem dissolvê-lo numa longínqua música, anterior à chuva

Ou será então a imagem submersa de um filme a preto e branco

Há próximo um branco vibrante: o da cal ainda recente
mas que a humidade salina já a espaços mordeu,
recortando as feridas cinza na varanda a que vens.

Não há ninguém aqui. Quem te chame, digo.

Há o branco baço na parede que em frente em vão separa
rua e praia. Tendo já transposto essa fronteira incerta
ou erguendo-se para lá dela há o branco pobre da areia:

As dunas plenárias sustentam os corpos deitados de mar e céu.
Aí é agora o grande branco: o clarão velado e difuso
que guarda e distribui a memória embaciada do azul
e do verde, do oiro e da prata — uma lembrança vã.

Tu escreves no visível do mundo essa névoa branca e desolada

que o motor da paisagem produz. As folhas do ar são como
se fossem as levíssimas pétalas, as vagas sílabas de uma neve –
e essa névoa engolfa, atrasa e apaga na travessia os simulacros

das coisas supostas e imaginadas que o mundo te envia
enquanto esperas por alguém que não virá
1 303

As mãos da noite

As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.

Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite :  as figuras quebradas.

A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou

a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde

O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa
1 520

O rio divide-te

O rio divide-te entre
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.
772

o comboio de corda

o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do ∞ deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.
1 200

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