Hoje faz 19 anos da morte de Bruno Tolentino
Bruno Tolentino

Bruno Tolentino

1940–2007 · viveu 66 anos BR BR

Bruno Tolentino foi um poeta, ensaísta e tradutor brasileiro cuja obra se caracteriza pela erudição, pela profundidade filosófica e pela busca incessante da beleza e da transcendência. Sua poesia, muitas vezes marcada por uma rigorosa forma e por uma linguagem elaborada, aborda temas universais como o tempo, a memória, o amor, a morte e a fé, explorando as ambiguidades da condição humana. Tolentino demonstrou um domínio notável da tradição poética ocidental, ao mesmo tempo em que imprimiu em seus versos uma marca pessoal de intensa reflexão e de despojamento espiritual, deixando um legado de uma obra densa e de grande rigor estético.

n. 1940-11-12, Rio de Janeiro · m. 2007-06-27, São Paulo

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Sagração dos Ossos

Considerai estes ossos
— tíbios, inúteis, apócrifos —
que sob a lápide dormem
sem prédica que os conforte.

Considerai: é o que sobra
de quem lhes serviu de invólucro
e agora já não se move
entre as tábuas do sarcófago.

Dormem sem túnica ou toga
e, quando muito, um lençol
lhes cobre as partes mais nobres
(as outras quedam-se à mostra,

não dos que estão aqui fora,
mas dos ácidos que os roem
ou do lodo que lhes molha
até a polpa esponjosa).

De quem foram tais despojos
tão nulos e sem memória,
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?

Onde andaram? Em que solo
deitaram sêmen e prole?
Foram químicos, astrólogos,
remendões, físicos, biólogos?

Ou nada foram? Que importa
não haja um só microscópio
lhes cevado a magra forma
ou a mais ínfima nódoa?

Existiram. Esse é o tópico
que aqui, afinal, se aborda.
E eis o faço porque, ao toque
de meus dedos em seus bordos,

tais ossos como que imploram
a mim que os chore e os recorde,
que jamais os deixe à corda
da solidão que os enforca,

nem à sanha do antropólogo
que os vê, não como o espólio
do que foi amor ou ódio,
lascívia, miséria e glória,

mas como a lívida prova
de que o sonho foi-se embora
e dele só resta a escória
numa urna museológica.

E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
se nele é que ecoa a voz
do que, no futuro, aflora?

Não bastaria uma rótula
para atestar esse cogito,
ergo sum, aqui e agora,
alheio a qualquer prosódia

ou língua em que se desdobre
essa falácia que aposta
no fundo abismo sem orlas
entre o que vive e o que morre?

Baixa uma névoa viscosa
sobre as pálpebras da aurora.
E ali, de pé, sob a estola
de um macabro sacerdote,

sagro estes ossos que, póstumos,
recusam-se à própria sorte,
como a dizer-me nos olhos:
a vida é maior que a morte.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Bruno Tolentino nasceu no Rio de Janeiro e adotou o pseudônimo "Bruno Tolentino" para sua carreira literária. Foi poeta, ensaísta e tradutor. Sua nacionalidade era brasileira e sua língua de escrita o português. Viveu em um período de intensas transformações culturais e políticas no Brasil e no mundo, que influenciaram sua visão de mundo e sua obra.

Infância e formação

Bruno Tolentino teve uma infância marcada por uma educação rigorosa e por uma inclinação precoce para os estudos e a leitura. Revelou um talento precoce para a literatura e a filosofia, demonstrando um interesse profundo pela tradição clássica e pela cultura ocidental desde cedo. Sua formação foi em grande parte autodidata, alimentada por uma vasta erudição e por um estudo aprofundado de autores clássicos e modernos, tanto na literatura quanto na filosofia e teologia. Absorveu influências diversas, que vão desde os poetas da antiguidade greco-romana até pensadores modernos e contemporâneos.

Percurso literário

O início de sua atividade literária se deu com a publicação de poemas em revistas e antologias. Sua obra poética principal se consolidou ao longo de sua vida, marcada por uma evolução gradual em termos de forma e temática. Publicou coletâneas de poemas que foram recebidas com grande atenção pela crítica especializada. Além de poeta, foi um importante ensaísta, com artigos publicados em jornais e revistas de renome, e um tradutor de obras clássicas e modernas. Sua atividade como crítico e intelectual contribuiu para o debate cultural de sua época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras poéticas mais destacadas estão "A imagem em movimento" (1969), "O tomate enlatado" (1981), "O cerco da casa" (1985) e "A celestial inércia" (2002). Seus poemas exploram temas como o tempo, a memória, a beleza, a morte, a espiritualidade, a condição humana e a busca pela transcendência. O estilo de Tolentino é marcado pela erudição, pelo rigor formal, pela densidade metafórica e por uma linguagem elaborada e musical. Utilizou frequentemente formas clássicas, como o soneto, mas também se aventurou em experimentações métricas. Sua voz poética é lírica, reflexiva e, por vezes, melancólica, carregada de uma profunda introspecção. A relação com a tradição literária ocidental é fundamental em sua obra, ao mesmo tempo em que dialoga com a modernidade, propondo uma poesia de cunho filosófico e espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bruno Tolentino viveu em um período de grandes debates intelectuais e culturais no Brasil, marcado pela ditadura militar e pela redemocratização. Sua obra, embora de cunho mais universal e atemporal, reflete em certa medida as inquietações de seu tempo. Manteve contato com outros escritores e intelectuais, participando de discussões sobre arte, filosofia e literatura. Sua posição como intelectual erudito e sua busca por uma poesia de profundidade o associam a uma vertente mais clássica e reflexiva da literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Bruno Tolentino viveu uma vida dedicada à arte e ao pensamento. Sua dedicação à escrita e à leitura foi a marca principal de sua existência. Suas relações pessoais e experiências de vida, embora não amplamente divulgadas, parecem ter sido fontes de reflexão e inspiração para sua obra, especialmente no que tange à exploração de temas existenciais e espirituais. Sua vida foi marcada pela busca de um sentido mais profundo para a existência e pela busca da beleza.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bruno Tolentino é reconhecido como um dos poetas brasileiros mais importantes de sua geração. Sua obra tem sido objeto de admiração e estudo pela crítica especializada, que destaca a sua erudição, o rigor formal e a profundidade de sua poesia. Recebeu prêmios e distinções que atestam o valor de sua contribuição literária. Sua popularidade, embora talvez mais restrita a círculos intelectuais, é significativa pela qualidade e originalidade de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bruno Tolentino foi influenciado por uma vasta gama de autores da literatura universal, incluindo poetas clássicos, filósofos e pensadores religiosos. Sua obra, por sua vez, influenciou e continua a inspirar poetas e escritores que buscam uma poesia de grande rigor estético e profundidade intelectual. Seu legado é o de um poeta que soube unir a tradição com a contemporaneidade, oferecendo uma visão lírica e filosófica sobre a existência humana. Seus escritos são estudados em cursos de literatura e sua poesia é valorizada pela sua relevância e originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bruno Tolentino convida a profundas reflexões filosóficas e existenciais. Suas poesias são frequentemente analisadas sob a ótica da busca pela beleza, da lida com o tempo e a mortalidade, e da exploração da fé e da espiritualidade. Críticos destacam a complexidade de sua linguagem e a universalidade dos temas que aborda.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto notável da vida de Bruno Tolentino foi a sua intensa e dedicada devoção à criação poética e ao estudo, vivendo de forma discreta e focada em sua produção intelectual. Sua capacidade de absorver e reelaborar a tradição literária ocidental de forma tão original é também um ponto de destaque. Sua obra é um testemunho de uma vida dedicada à arte e à busca pela palavra perfeita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Bruno Tolentino faleceu no Rio de Janeiro. Sua morte deixou um legado de uma obra poética e ensaística de grande valor, que continua a ser lida e apreciada. Publicações póstumas e estudos sobre sua obra mantêm viva a sua memória e a relevância de sua contribuição para a literatura brasileira.

Poemas

1

Sagração dos Ossos

Considerai estes ossos
— tíbios, inúteis, apócrifos —
que sob a lápide dormem
sem prédica que os conforte.

Considerai: é o que sobra
de quem lhes serviu de invólucro
e agora já não se move
entre as tábuas do sarcófago.

Dormem sem túnica ou toga
e, quando muito, um lençol
lhes cobre as partes mais nobres
(as outras quedam-se à mostra,

não dos que estão aqui fora,
mas dos ácidos que os roem
ou do lodo que lhes molha
até a polpa esponjosa).

De quem foram tais despojos
tão nulos e sem memória,
tão sinistros quanto inglórios
em seu mutismo hiperbólico?

Onde andaram? Em que solo
deitaram sêmen e prole?
Foram químicos, astrólogos,
remendões, físicos, biólogos?

Ou nada foram? Que importa
não haja um só microscópio
lhes cevado a magra forma
ou a mais ínfima nódoa?

Existiram. Esse é o tópico
que aqui, afinal, se aborda.
E eis o faço porque, ao toque
de meus dedos em seus bordos,

tais ossos como que imploram
a mim que os chore e os recorde,
que jamais os deixe à corda
da solidão que os enforca,

nem à sanha do antropólogo
que os vê, não como o espólio
do que foi amor ou ódio,
lascívia, miséria e glória,

mas como a lívida prova
de que o sonho foi-se embora
e dele só resta a escória
numa urna museológica.

E então me pergunto, a sós:
por que desdenhar o outrora
se nele é que ecoa a voz
do que, no futuro, aflora?

Não bastaria uma rótula
para atestar esse cogito,
ergo sum, aqui e agora,
alheio a qualquer prosódia

ou língua em que se desdobre
essa falácia que aposta
no fundo abismo sem orlas
entre o que vive e o que morre?

Baixa uma névoa viscosa
sobre as pálpebras da aurora.
E ali, de pé, sob a estola
de um macabro sacerdote,

sagro estes ossos que, póstumos,
recusam-se à própria sorte,
como a dizer-me nos olhos:
a vida é maior que a morte.

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thiago_bilia

Gênio como poucos, esquecido como tantos.