Carlos Silva

Carlos Silva

O Músico, poeta cantor e compositor CARLOS SILVA, segue a trajetória de cantadores utilizando o canto falado em seus shows, palestras e apresentações em unidades de ensino fundamental e superior.

1963-04-14 São Paulo
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Alguns Poemas

LEVITANDO JUNTO AO MAR

LEVITANDO JUNTO AO MAR

Feito sopro raivoso de vento no mar, cá estou eu revolto em meus pensamentos, como se a brisa densa da primavera tangesse meus sonhos e deixassem que meus pés toquem e sintam a sensibilidade dos meus passos, próximo a beira da praia.
O vento insiste em brincar comigo, e sopra mais forte, as ondas estalam por sobre a areia em busca dos meus pés.
E ao encontra-los, beija com espumas a planta desses pés carregados de estradas sopradas por tantos ventos.
Ouvir o vento, sentir a areia, deixar o mar vir ao encontro dos meus pés, é tudo cronometrado por uma orquestra invisível, mas que trás a sonoridade desse sopro tão forte.
Meus ouvidos captam esse som e eu me divirto de olhos fechados, mas de mente, ouvido, coração e braços abertos para receber esses carinhos.
Agora, sinto a calmaria, e o furor do vento, tornou-se brisa suave, harmoniosa e leve.
As ondas, cumprindo o seu trajeto no seu vai e vem, ainda brincam com os meus pés, que não fazem a menor questão de afastar-se dali.
É uma recompensa relaxante dada pela natureza. Olho pro céu, estendo um sorriso pro alto, agradecendo por estar ali sendo agraciado por aquele instante e sinto que o vento atende essa minha gratidão, pois de leve, sopra-me o rosto e eu ainda com os olhos fechados, imaginando como se (tal qual o vento) também pudesse flutuar na maciez de tão bela leveza rumo ao infinito de paz .
Vejo o horizonte e sei que não é o fim do mar, pois além desse horizonte, outros tantos horizontes existem para proteger os oceanos que nos fazem viajar em sonhos náuticos, juntando pedaços de imaginação como se fosse uma colcha de retalhos de sonhos e desejos.
A mente humana vaga, voa leve sem precisar distanciar o corpo, daquele mesmo lugar onde agora estou.
Dou asas ao meu imaginar, e por elas sou conduzido a flutuar tendo um fundo um som de piano, em notas tão doces, que fazem-me ouvir as gaivotas entoar o seu canto a plainar por sobre a beleza infinita daquele mar que agora me serve de inspiração.
Vida, vida que banha, que sopra,que trás canções imaginárias, faz-me em ti também flutuar ao som das gaivotas, do piano, de ventos, das ondas desse maravilhoso e tão sagrado mar de sonhos tantos.
Paz para o meu espirito levitando sobre o mar.

Carlos Silva.
30 de Outubro de 2020.

EMBALANDO UMA TARDE TRISTE

Toda tarde é triste. Por si só, ela (à tarde) traz um retrato diferente do que as outras fases do dia e nos força lembrar coisas tão nossas que nos sentimos meninos jogando bola, brincando de bolinha de gude, de pega pega. As peraltices na escola, a merenda, o recreio, as meninas de saias curtas de cor azul e de blusa ou camiseta branca com sapatos pretos, cabelos bem arrumados, cheirosas e convidativas ao galanteio, ao cortejo, ao interesse de namoro. Às vezes dava certo e noutras não.

Mas a infância ou a pré adolescência é algo mágico, pintado pela emoção dos momentos vividos e divididos de formas iguais, tipo assim, sem medo, sem culpa, e sem responsabilidade. A praça pequena da cidade pequena cercada de sonhos grandes, de gente grande e de passos lentos de todos em busca simplesmente do viver,

O cheiro de pão, ahh o cheiro de pão de forno a lenha se espalhava pela cidade, e quando ele invadia minhas narinas, eu já me preparava para ouvir a sonoridade tão doce (De onde estivesse) da voz da minha mãe me chamar para ir á padaria comprar o tão delicioso e sagrado pão da tarde.

Não, naquela época, eu não via à tarde triste, pois eu era jovem, corria, brincava, soltava pipa, tomava banho no tanque grande e chupava mangas no sitio de Dona Fia, que ainda dizia: Levem algumas para sua mãe.

A vida era assim, não se cobrava pelas frutas (mangas, bananas, Laranjas, goiabas) na comunidade, tudo era uma fartura. Milho, feijão, abobora batata, o povo tinha prazer em dizer: Leve para a comadre.

Hoje, movido pelo balanço da rede no meu quintal, posso (na minha imaginação) montar essas imagens e outras tantas que vivi, onde ser feliz, era uma obrigação cotidiana e o preço, a pagar, era a satisfação de ser o que éramos sem precisar ser o que querem que sejamos.
As cobranças cresceram comigo e hoje sou o que meu pai foi: Um pai zeloso e preocupado se o dinheiro que tenho no bolso dará para comprar meia dúzia de pães de forno elétrico, com massa preparada com tanta química que deixa o pão inchado por fora e oco por dentro, igual cabeça de muitos Homens do poder.

Meu riso nem sempre é como um dia fora. Meus pensamentos cresceram junto comigo a ponto de sentir medo de saber de fato o que sou o que quero, ou para onde vou depois que terminar esses meus pensares no balanço dessa rede de ranger triste, com seus tornos cansados do oficio de embalar corpos. Não poderei levar a rede comigo e nem tampouco ficar a mercê das minhas lembranças que me enchem de vontade de voltar a pagina da minha historia e voltar a correr livre e solto, preso apenas nos devaneios e nas vontades de menino travesso criado numa comunidade pequena cheia de gente grande.
Eu tenho saudades do passado. Gostaria de voltar lá, e tentar mudar alguma coisa que me fez fazer algo errado no hoje que vivo. Não, isso não é possível, daqui não dá pra voltar, somente mesmo nas minhas lembranças sopradas pela nevoa desse recordar tão melancólico que chego a querer chorar como se fosse possível voltar a ouvir o grito suave da minha mãe a me chamar para comprar o pão. Não... Não... Nunca mais a ouvirei, pois a sua voz fora enterrada junto com ela em 1998. Mas ainda posso discernir de outros chamamentos, a sua sonoridade, seu riso doce de mãe protetora, de mulher que gosta do filho, de amizade que nunca o tempo poderá apagar da minha mente cada momento com ela vivido.

Meus amigos...

Onde estão meus amigos? Como eu, também cresceram e conheceram outros rumos. Alguns destes, eu não os vejo a mais de 40 ou 45 anos, outros, fiquei sabendo que já não habitam nesse plano terrestre. Mas as amizades, as amizades daqueles com quem me encontro hoje, já não tem o mesmo sabor, a mesma confiança, a mesma alegria, o mesmo riso, o mesmo companheirismo.

Muitos se tornaram fechados como se tivessem colocado cadeados nas nossas fases vividas. Outros viraram comerciantes e agem como se tudo fosse uma questão de cifras e de valores financeiros e me cobram porque não sou um HOMEM ESTABELECIDO.

Poucos destes, que comigo andavam, brincavam e dividiam sua meninice, nem me convidam para ir às suas casas tomar um café, ver uma foto antiga, sentar com seus filhos para fazer uma resenha desse nosso passado que em mim está tão presente.

Daqueles amigos, restaram poucos, pois suas mãos se distanciaram tanto, que as nossas não se tocam mais,

Por vezes insisto em voltar a vê-los, mas não há uma reciprocidade, um carinho, uma preocupação e isso vão inevitavelmente, nos afastando e eu sentindo esse afastamento como rejeição. E, se eu ainda insisto, é porque de fato eu queria ter de volta aquele amigo que AS COISAS DO TEMPO, o levaram para longe de nós. Os valores gritaram mais alto que os sorrisos e as conversas hoje, são apenas por obrigação de cumprimentos formais sem ter ao certo o que dizer tal abrupto e inaceitável afastamento que hoje nos separa feitos muros de nossa própria (e plantada por nos mesmos) ignorância.

Prefiro tê-los guardados na minha imaginação, onde podíamos sorrir e brincar achando que a vida jamais acabaria. Ela não acaba quando morrermos, mas sim quando não nos permitimos mais sermos os amigos que um dia fomos.

Subitamente a rede parou, ouço alguns passarinhos orquestrando em silvos breves o cântico do entardecer, e isso me faz despertar dessa viagem de sonhos acordado, onde posso até ver que as imagens vão sumindo e a realidade da tarde triste vem ao meu encontro. Mas, na insistência de guardar tanta lembrança com um sorriso largo, ainda trago esses mesmos sorrisos dos meus amigos, as cores da minha infância, o cheiro de pão no forno a lenha, e as mais belas formas tristes de sentir saudades de um tempo que jamais tornarei viver. Se eu morresse agora, muito triste eu morreria,





F I M










COMO DIZER, EU SOU DA BAHIA?


Sou da Bahia, desde os tempos em que França Teixeira e Marco Aurélio erram narradores esportivos. Desde que Agnaldo, André Mario Sergio, e Osni, eram jogadores do vitória e desde que Buttice, Onça, Amorim e Baiaco eram jogadores do Bahia, e desde a fundação do ATLÉTICO DE ALAGOINHAS – O CARCARÁ – E seu artilheiro DENDÊ.

Desde os tempos em que Madame Beatriz fazia suas previsões entre passado, presente e futuro, e Omar Cardoso falava o nosso horoscopo todas as manhãs. Sou da Bahia, desde os tempos do programa esportivo NO CAMPO DO 4, e do assustador programa: EU ACREDITO NO INCRIVEL. Sou da Bahia desde os tempos do RECREIO com TIA ARILMA.

Desde a bicicleta Monark Águia de ouro e dos Gostosos deliciosos os biscoitos Tupy. (CREME CRACKER CHOCOLATE LEITE, ALEGRIA DA GAROTADA, BISCOITOS TUPY, MELHORES EU NUNCA VI, EU NUNCA VI).

Desde os tempos das PILULAS DO NORTE (PARA TER MAIS APETITE, TOME PILULAS DO NORTE). E, também, desde o comercial de xarope que dizia: CUIDADO COM A GRIPE MAL CURADA PROTEJA O SEU PULMÃO, COM O XAROPE BRANDÃO.

Desde as Lojas, TIO CORREIA, INSINUANTE SADEL, MESBLA, J.TAKESHITA, OTICAS ERNESTO (ERNESTO MEU RAPAZ) E, só por curiosidade, eu não tive o PRAZER de subir ou descer a LADEIRA DA MONTANHA. Que pena.
Sou da Bahia desde que ZÉ GRILO e DONA CECÉU, comentavam sobre o NA POLICIA E NAS RUAS. Sou da Bahia, desde que eu debruçava meus ouvidos para curtir os comunicadores TONI CESAR, ou JOTA LUNA que com o seu programa deixava as tardes muito mais baianas.

Desde os tempos da CAPEMI, da CASA FORTE (Caderneta, de poupança casa forte vou abrir, meu dinheiro vai crescendo e amanhã posso sorrir casa forte é segurança Casa forte vou abrir). Desde o BANCO ECÔNOMICO, do NACIONAL, e do nosso BANEB.

Desde a JURUBEBA LEÃO DO NORTE (TEM GOSTO BOM DE BAHIA), da AGUARDENTE JACARÉ, (SE VOCÊ É BOM DE BICO E GOSTA DE TOMAR MÉ, BEBA A MELHOR CACHAÇA, AGUARDENTE JACARÉ) da BAIUCA, do SUCO MAGUARY e do refrigerante XODÓ DA BAHIA.

Eu sou da Bahia, desde que ao sair da capital para o interior (INHAMBUPE) eu embarcava no Ônibus LUXO SALVADOR, que depois passa ser VIAZUL, depois veio a CATUENSE, SANTA MARIA.

Sim, sou da Bahia, desde que essas minhas memórias, eternizam um viver de um passado tão doce, que trazem lembranças armazenada no meu cérebro, que volta e meia faz-me lembrar de tanta coisa bonita que só na Bahia vivi.

 

Carlos Silva – poeta, cantor e compositor, escritor de livretos de cordéis, pesquisador e Mestre de Culturas populares.

O TAPETE DE DEUS


A natureza é um manto costurado pelas mãos de Deus, para enfeitar o jardim da criação.
O Homem, (também criado por Deus), seria a peça chave designado para CUIDAR e proteger com toda sua dedicação, a esse vasto tapete ornado de cores tantas em sua vegetação sublime, onde várias vidas por aqui habitada.
Fauna e flora, rios e cachoeiras abundantes riquezas minerais, vegetais e o animal do homem, nao entendeu que ele estava ali para cuidar de Tudo, e principalmente dos outros animais, estes chamados de irracionais.
Mas o homem, movido pela desobediência e ambição percebeu que desmaiando a mata e matando os animais, tornar-se-ia rico, abastado e poderoso.
Deus? NAO! Deus nao faria mais parte das suas ações, e nao seria mais necessário obedece-lo.
Assim, com o avanço do tempo, foram sumindo árvores frondosas, pássaros raros, rios e cachoeiras conheceram o mercúrio com o poder das bombas que rasgavam a terra e nos leitos dos rios procuravam pedras que brilhassem, e que muito valor tivesse no mercado.
Brancos arrogantes, faziam fortunas no mercado negro.
Negro, porque negro se eram os brancos que de forma desumana tingia de várias cores o jardim que Deus plantara e a este entregara sob recomendações de cuidados?

Araucárias, jequitibás, sucupiras, mognos, Cedros, aroeira, até onde a Lei (amparada numa justiça que se diz cega) ajudou destruir tantas madeiras de lei?
De quem é a terra? De Deus e dos bichos, mas o homem aprendeu fazer arame, cercou o quanto quis, queimou o resto, e tem por seu o que nunca lhe pertenceu.
DEUS? NÃO! No mundo quase destruido pelo homem, eles dizem que o Criador de tudo, nao é mais dono de nada.
Assim pensam eles. Deixe-mo-los que assim pensem, pois hão de prestar contas de tudo e por tudo, no momento que se fizer necessário.
Mas isso, só o dono de todo esse tapete, saberá agir no justo momento, onde nao mais cairá em vão uma árvore e nenhuma vida mais será ceifada.

Carlos Silva..

Minha vida virtual

Minha vida virtual
Carlos Silva

Na base do “Control C”
Eu vivo a copiar
Já não sei me expressar
Vou colar no “Control V”
Eu sou franco a você
Que isso me compromete
Mas aos outros não compete
Se estou certo ou errado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da Internet

São dois esses ou é C cedilha?
Eu não sei mais escrever
Vou ter que reaprender
Reestudar a cartilha
No Excel minha planilha
A soma me compromete
Meu PC deu um Reset
Deu erro no resultado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

Cebola salsa seringa
Passeio passo passado
Maço macio amassado
Marrenta marreta moringa
Resto restinho e restinga
Tesouro testa tiete
Caniço coçar canivete
Pra escrever tenha cuidado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

Açougue açude aguada
Peço no preço desconto
Tontice é coisa de tonto
Um torto torando a tourada
Apressa passando a passada
O teclado tecendo compete
O dedo passeia e remete
Tentando novo aprendizado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

Com X ou com CH
Enxoval encher enxada
Desfechar porta fechada
Sendo aqui ou acolá
Pra li pra lá ou pra cá
Verbo averbado ou verbete
Paz faisão ou toilete
O tema é complicado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

Exceto ou exceção
Espoleta e excremento
Esmeralda experimento
Espaço estrondo explosão
Enxada enxofre expropriação
Entorse entorta intromete
Exploração ou omelete
Cada palavra um dobrado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

Eu uso abreviaturas
Para me comunicar
BLZ pra confirmar
Mudo as nomenclaturas
Desrespeito estruturas
Onde a leitura compromete
Pois a mim já não compete
Viver desinformatizado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

O linguajar atual
Perdeu de vez o sentido
Eu deixei de ser sabido
Por tanto erro virtual
Mouse e teclado são um mal
Que o nosso viver acomete
Quem não souber não compete
Fica fora do mercado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

Já escrevem sem acento
Não fazem pontuação
A gramaticalização
Não ensina a contento
O pobre do elemento
Tanto erro já comete
Na vida leva bufete
Torna-se ignorado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

A minha memoria RAM
Virou sapo de lagoa
Pronuncia ficou atoa
Acordo pela manhã
Juízo meio tantan
Já gritei pra Risonete
Quer me deletar delete
Mas não vou ficar calado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

Shift Wake Power Sleep
Page up Page down
No teclado é normal
Parece língua de hippie
Ou cabra que pega gripe
Quando a friagem acomete
E a palavra se repete
Torto e desaprumado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet

Vou encerrar o meu texto
Sem muita abreviação
Isso já nem cabe não
Fica fora do contexto
Eu invento um pretexto
Chega o juízo derrete
Invento um novo verbete
Pra não ficar isolado
Voltei a ser um desletrado
Por conta da internet.

PELE PRETA

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Negro tens a pele preta,
Os teus ossos são branquinhos
e teu sangue é vermelho.
Só não enxerga,
quem não tem um lado humano,
onde a alma não reflete, sua imagem num espelho.

Negro tua liberdade,
não vem lá de um engenho
dos ditos canaviais
Vem da mãe Africa
pátria chão amada terra,
linhagem que não emperra, teus saberes naturais.

A cor da tua pele preta,
por espíritos destrutivos
aqui te castigou demais
Em louvação
Evocou os deuses de longe trazidos
Com as bençãos dos ancestrais.
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A MINHA (A SUA E A NOSSA) CONSCIÊNCIA É NEGRA.
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Não!
Eu não sou filho de navio negreiro, pois nem por ele e nem por seus senhores perversos fui convidado com cortesia para atravessar os mares. Fui tratado assim: Sem se importarem com as minhas crenças, nas terras onde eu era rei, onde haviam príncipes, princesas, súditos, onde entoávamos nossos cantos, fazíamos nossas oferendas e brincávamos felizes ensinando aos menores as nossas tradições, que como eles, aprendíamos desde cedo para termos um respeito e um contato maior com o criador do universo, da natureza, das estrelas, e de tudo que nossas crenças contemplavam em reverência ao Ser supremo.
NÃO! Não me deram a chance de lhes apresentar o que éramos lá no nosso continente, onde vivíamos para servir aqueles que de algum tipo de proteção careciam. Tiraram-nos das nossas terras sem nos apresentar e tampouco sem medir essas tais irmandades que tanto ouvi falar desde criança, e nenhum tipo de religiosidades, daquelas que dizem que unem os seres habitantes na terra através do amor ao próximo.
Eu fui arrancado do seio da minha tão adorada terra, e trazido como se bicho (eu e tantos outros corpos de almas já quase perdidas) fossemos.
Vi corpos dos meus irmãos ao mar lançados, como se nada fossem, por estarem fracos e doentes devidos aos maus tratos recebidos na travessia das águas que a cada instante, arremessavam-nos para outros horizontes, deixando em nós o rufar de uma saudade como se fosse um sagrado tambor a pulsar nos nossos corações.
Foram estes uteis aos peixes, pois desconheceram o sofrimento pelo quais passamos ao chegar em terra firme, numa terra estranha, de gente estranha, que media a sua desumanidade pela cor da nossa pele.
Expostos, feito mercadorias. Apalpavam-nos, abriam nossas bocas, examinavam os nossos corpos como se vissem em nós suas mulas humanas para um trabalho desumano. Vendidos em lotes, separados por compradores, víamos o que tínhamos como parentes e membros de nossa família, sendo levados já acorrentados sofrendo os maus tratos pelo corpo, já que o sofrer da alma, era bem maior que os castigos físicos que estariam por vir.
Não! Os verdes prados da minha terra não seriam mais avistados, pois deixamos para trás com a certeza de nunca mais receber nos olhos, o brilho do nosso sol da mãe África.

Até nunca... até nunca mais meu chão sagrado. Creio que este era o maior lamento do nosso povo, preso em correntes pelas mãos e pés. Adeus liberdade, pois a partir daquele momento, seríamos usados para servidão dos mais cruéis tratamentos dispensados a um ser humano.
Um dia, apresentaram-nos a Lei do ventre livre, também chamada de Lei Rio Branco, (Lei número 2040) datada de 12 de maio de 1871, promulgada em 28 de setembro daquele ano. Os filhos dos escravos nasceriam livres da servidão. (LIVRES?) Que já se arrastava por anos e anos.
De certa forma uma conquista que teria sim, um avanço para o começo do fim da escravidão.
Assim, uma nova Lei seria apresentada, de número 3.353 datada de 13 de maio de 1888, que assinada por uma Princesa por nome Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bourbon Orleans de Bragança que extinguia de vez a escravidão no Brasil, país ao qual meu povo servia com lágrimas suores e sangue exaustivos nas labutas.
Pedaços de nós, ficaram nos pelourinhos após receber os açoites cruéis das chibatas que cortavam nossas carnes.
LIBERDADE... O NEGRO ESTÁ LIVRE... EU SOU LIVRE...LIVRE...LIVRE...LIVRE?
LIVRE? Como livre? Não tínhamos casas, nem terras, nem para onde ir, pois nada conhecíamos (ALÉM CERCAS) um pedaço de papel dizia que éramos livres, mas as nossas identidades estavam perdidas nos canaviais. Nossos sonhos, nossos desejos, nossas famílias, nossos irmãos, nossos parentes. Onde estavam todos?
Como recomeçar? Continuávamos sendo pretos, e só sabíamos obedecer.
Chegamos (Sabendo lidar com toda indiferença) ao avanço dos anos que vieram. Nossas senzalas, agora eram as favelas nos centros urbanos, enfiados lá numa periferia onde almas não residiam, e assim, fomos criando nossos quilombos, ajuntando aos poucos os nossos parentes e irmãos de peles de alma, de sangue de África, de Brasil de Banto, de orixás, de candomblés, de feijoadas, de crenças de gestos e costumes dos nossos ancestrais.
Superamos alguns sofrimentos, mas um outro nos acompanharia por onde quer que fossemos: ERAMOS NEGROS – ALFORRIADOS, MAS NEGROS, PESSOAS DE PELES PRETAS, que contrário aos brancos, residiam melhores, comiam melhor, dormiam melhor, viviam melhor e quando remunerados, éramos os de menores valores.
Estudamos, aprendemos outras profissões, erguemos junto a tantos discriminados, as maiores cidades do país.
Em cada canto de parede erguida, tem a marca do suor dos negros, dos menos abastados, dos aventureiros, de outros imigrantes, e de brasileiros sem muita escolaridade vindos do Nordeste, do Norte e de várias partes do mundo.
Recebemos Quotas, chegamos a faculdade, formamo-nos, ocupamos espaços onde BRANCOS X NEGROS travaram juntos as batalhas para vencermos nossas diferenças.
Está tudo ás mil maravilhas? NÃO! Mas algo mudou e tomara quem mude para melhor. Até o final do nosso existir, iremos sempre acreditar que somando, superaremos nossas diferenças e dificuldades pelas quais a vida e a má informação fizeram-nos passar.
Fim
Da narrativa, desejando que também seja o FIM de todo preconceito que nos desumaniza.


Carlos Silva (75) 99838 -5777
cscantador@gmail.com
O Músico, poeta cantor e compositor CARLOS SILVA, segue a trajetória de cantadores utilizando o canto falado em seus shows, palestras e apresentações em unidades de ensino fundamental e superior. Criado entre as cidades de Nova Soure, e posteriormente em Itamira município de Aporá, a 180 Kms de Salvador, o musico carrega em sua bagagem o aprendizado colhido no meio de feira do interior baiano. Casado com Sandra Regina, tem 05 filhos e está aguardando o primeiro neto.Em 1981, participa de uma banda musical em Itamira(Ba) TRANZA A QUATRO, numa mescla de repertorio que variava de Beatles a Luiz Gonzaga, onde dá os seus primeiros passos como instrumentista (baterista da banda) ao lado de Hélio Dantas, Zé Milton E Carlinhos. Retorna a São Paulo, em 1982 e começa trabalhar em siderúrgica e deixa um pouco a carreira de lado. Em 1997, Conhece o Maestro Vidal França e produz o primeiro demo um ano depois: O CANTO DO MEU CANTO, que conta com a participação da cantora e compositora Mazé e de Zé de Riba. Tocam na noite paulistana na região do bixiga, onde Carlos Silva, inserido no mundo artístico por Vidal França trava conhecimento com boêmios onde forma mais tarde muitas parcerias musicais. A musica de trabalho do cd era LEMBRANÇAS DE MATO GROSSO DO SUL. Um passeio cultural pelas cidades do Ms, enaltecendo a riqueza pantaneira daquele estado. Em 2000 lança um outro single: NASCEU NA BAHIA O BRASIL, por ocasião dos 500 anos do Brasil. Em 2001, produz um cd experimental regravando essas obras já lançadas, com o titulo: ABRA OS OLHOS. Em 2003 sob a produção de Ney Barbosa compositor da Chapada diamantina da cidade Rui Barbosa na Bahia, entra em studio e com o selo da JBS grava o cd: RETRATANDO. Participa de vários programas de rádio na capital Paulista, São Paulo Capital Nordeste com o pesquisador paraibano Assis Angelo e na Radio Atual com Malu Scruz. Varias Rádios comunitárias e Tvs, recebiam a arte cantada de Carlos Silva, que de mochila recheada de Cds, percorria o Brasil divulgando a sua arte de cantar e agora atribuía á sua carreira, poesias em forma de literatura de cordéis. 2003, foi o ano que conheceu a coperifa e o poeta Sergio Vaz que o convidara a participar do projeto na Zona Sul de São Paulo. Fez programas de televisão como Tv Cultura, Rede Record e rede globo, Tv Alterosa em Minas Gerais. Carlos Silva dedicando-se á literatura, é convidado a participar da antologia poética O RASTILHO DA POLVORA e de um cd de poesias da coperifa, produzidos pelo Itau cultural em São Paulo. Viaja pelo Brasil pelos Estados de Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, segue pelo Nordeste, Bahia, Pernambuco e Paraíba, agora amparado pelos cds e cordéis produzidos sempre de forma independente. 2008 Lança o mais recente trabalho fonográfico: O BRASIL EM VERSOS CANTADOS, que traz algumas parcerias com os seguintes colegas: Moreira de Acopiara, Chico Galvão, Joilson Kariri e Nato Barbosa.Morou por quase dois anos na cidade de Ilheus onde aproveitou bem essa passagem pelo sul da bahia e divulgou em Itabuna, Vitoria da Conquista a sua modalidade do canto falado. Seus principais parceiros musicais: Sandra Regina, Vidal França, Zé de Riba, Mazé Pinheiro, Lupe Albano, Karina França, Rhayfer (Raimundo Ferreira) Batista Santos, Ney Barbosa, Edinho Oliveira, Cida Lobo, Edmilson Costa, Paulo de Tarso Marcos Tchitcho e Nininho de Uauá.Forrozeando, o artista percorre a região nordeste, apresentando o seu trabalho em feiras culturais, dividindo os palcos da vida com artistas como: Azulão baiano, Zé Araujo, Cecé, Asa Filho, Antonio Barreto, Franklim Maxado, Kitute de Licinho e um punhado de gente bôa. As musicas são um filme para se ouvir, e cada frase, é um pedaço de poesia rebuscada na cultura popular e no solo sertânico chamado Brasil. Seus projetos futuros: Um novo cd, misturando versos e cantigas, o livro Poemas Versos e Canções, e muitos livretos de cordéis que pretende lançar a cada mês, para apresentação nas feiras culturais e colégios, bibliotecas e outros espaços culturais. CORDÉIS
Carlos Silva
Gostaria de poder acrescentar mais poesias, mas perdi senha e não sei mais como entrar.
16/março/2023

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