Na noite fria de um falso natal,
Com luzes a fingir que está tudo bem,
O mundo seguiu normal, banal,
E eu perdi tudo oque era alguém.
Às três da manhã mudou o dia,
Mudou o mês, mudou o chão,
Ela disse, sem poesia:
"Já não há amor no coração".
Foi um print velho, mal tirado,
Um passado ressuscitado à traição,
Um amigo, novo errado,
A entregar-me sem perdão.
Falávamos de outras pessoas,
Conversa antiga, sem valor,
Nas mãos erradas virou coisa monstruosa,
Virou sentença, virou dor.
Ela foi. Eu fiquei inteiro?
Não. Fiquei resto, Fiquei peso,
Ainda a amo, erro primeiro,
Ainda dói, ainda rezo.
A cidade passa por mim depressa,
Ninguém nota este cansaço meu,
Sou ruído numa rua acesa,
Soou um "foi assim" que morreu.
Perdi-a. Perdi um irmão.
Perdi a fé nas amizades.
Outro diz que falo em vão,
Inventa mentiras, cria verdades.
E eu olho-me no espelho e vejo,
Um lixo humano, sem defesa,
Um corpo cheio de desejo,
De não sentir tanta tristeza.
Mas se isto doi desta maneira,
Se o peito insiste em sangrar,
É porque amei de forma inteira,
E ainda sei que é amar.
Talvez um dia, sem datas santas,
Sem prints, sem vozes a trair,
Eu volte a ser mais doque sombras,
A tentar aprender a existir.
02/01/2026