O peso de existir já costurava minha pele com linhas de vento,
e o laço do silêncio apertava o pescoço da alma.
Não era corda, era destino trançado,
um elo final com o invisível.
Na travessia, o que se abre não é porta,
mas um espelho que se nega a refletir.
Assisti ao meu próprio desaparecimento,
como se a sombra tivesse engolido a carne.
E ainda assim, o fim não era o fim,
era um degrau que escorria das nuvens
até um céu cinzento que não lembrava o paraíso.
Vi uma escada sem cor,
erguida entre os ecos e os relâmpagos do espírito.
Do outro lado, duas presenças imóveis,
uma vestida de luz que não aquecia,
outra escondida no contorno do escuro.
Ambas me observavam, mas nenhuma me dizia o nome.
Formou-se ali um tribunal sem paredes,
onde os veredictos não são falados, apenas sentidos.
Não carregava sangue em minhas mãos,
mas também não restava flor em meu peito.
A sentença era névoa,
A redenção, um cristal rachado pela dúvida.
Seria o alto um oásis?
Seria o abismo, apenas o eco de mim?
A resposta dormia nas mãos invisíveis que me pesavam.
A luz calou-se.
A sombra sorriu.
Ali, compreendi:
o que termina sem entrega, recomeça sem escolha.
O fio que rompi não era só meu,
era tecido com vozes que ainda me chamavam.
O destino decidiu.
A ilusão caiu.
Não havia juízo, apenas joguete.
A luz era ausência.
A sombra, dono do jogo.
Sem festa.
Sem retorno.
Apenas pedra, brasa e espelho quebrado.
E no fundo da ausência,
uma risada que não morre,
porque cada alma que se apaga
lhe acende o fogo.