Em tudo penso
Em tudo me perco
o pensamento é vasto, mas o ser, finito.
Ideias colidem no abismo do eu,
ecoando em câmaras vazias
de uma mente sem morada possível.
Sou mais pensamento do que carne,
e nisso reside a minha danação.
O corpo implora movimento,
mas a alma tropeça em corredores que dobram sobre si.
O tempo me atravessa sem piedade,
e eu, suspenso entre o que sou e o que temo ser,
me dissolvo em inércia sutil,
enquanto o mundo gira sem mim.
A noite não dorme, vela comigo.
Meu quarto é templo e cárcere,
onde o silêncio pesa como eternidade,
e o simples viver é um fardo pensado demais.
Acordo já pensante,
e durmo ainda consciente
de que pensar é sangrar devagar,
é contemplar o abismo com olhos abertos.
Café me costura ao concreto,
Whisky me dissipa em névoa.
E nesse vaivém entre lucidez e torpor,
pergunto:
o que é real, senão o que me escapa?
A fome não é do corpo,
mas da alma faminta de sentido.
Ficar ou partir? Viver ou cessar?
Estar aqui ou em nenhum lugar?
A morte sussurra como promessa de quietude,
mas há culpa em desejar o silêncio absoluto.
Escrever é meu gesto de resistência,
mas cada palavra pesa como pedra.
Neste mundo onde poucos ousam sentir,
pensar tornou-se heresia
e eu sou o herege contemplativo,
o solitário que ama a dúvida.
Pois pensar é morrer aos poucos,
e eu, que penso demais,
já não sei se sou,
ou se apenas evaporam em mim os contornos do que fui.
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