Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão é uma figura proeminente na literatura portuguesa contemporânea, destacando-se pela sua obra poética que explora a profundidade da experiência humana com uma linguagem cuidada e reflexiva. A sua escrita é marcada por uma sensibilidade ímpar na abordagem de temas como a memória, o tempo e a fragilidade da existência. A poesia de Gastão convida à introspeção, utilizando imagens evocativas e uma musicalidade subtil para criar um universo lírico onde a palavra ganha novas dimensões. A sua contribuição para a literatura portuguesa é reconhecida pela originalidade e pela capacidade de tocar o leitor em aspetos universais da condição humana.

Lisboa
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Chá vermelho-ferro

Fosse teu corpo um bule, exuberante
e esguio, de rosto oculto e mãos
como hastes a vermelho-ferro,
e de tua boca se soltasse um vento
sem tecto que de fumo desenhasse
um jardim de úberes silvos,
tornar-me-ia eu num Tu em meu
nada de alto colo e formato fruto,
asa em ansa, moldada em chama
por ti ateada, ferina e triangular.

Fosse teu corpo porcelana brava
como o sinto, leve, branco-vidrado,
aplanado de ausência e composto
em passos de bico amarelo pálido
ou beringela, nele beberia o chá
de tampa inventada num ápice de
botão, minúsculos ambos, um esfriado
de cerâmica e espanto, o outro quente
de púrpura de Cassius – recomeçando os
dois a moldar o pomo em forma de crista.
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