António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

1942–2026 · viveu 83 anos PT PT

António Lobo Antunes é um dos mais proeminentes escritores portugueses contemporâneos, conhecido pela sua obra complexa e profundamente marcada pelas experiências da Guerra Colonial em África. A sua escrita, caracterizada por uma estrutura narrativa não linear, pelo uso de múltiplos pontos de vista e por uma linguagem densa e muitas vezes fragmentada, explora temas como a memória, a loucura, a violência, a culpa e a identidade. Lobo Antunes é reconhecido internacionalmente pela sua contribuição para a literatura mundial.

n. 1942-09-01, Lisboa · m. 2026-03-05, Lisboa

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Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

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Biografia

Identificação e contexto básico

António Lobo Antunes é um escritor português, médico psiquiatra de formação, que se tornou uma das vozes literárias mais importantes de Portugal nas últimas décadas. Nasceu em Lisboa, Portugal, em 1 de março de 1942. A sua obra, vasta e complexa, é frequentemente associada às experiências vividas durante a Guerra Colonial em Angola e Moçambique, bem como a uma profunda reflexão sobre a memória, a história e a condição humana. Escreve em português.

Infância e formação

António Lobo Antunes cresceu numa família conservadora e com ligações à elite intelectual e médica de Lisboa. Frequentou o Liceu Francês e, posteriormente, o curso de Medicina na Universidade de Lisboa, especializando-se em psiquiatria. A sua formação médica e a prática clínica, especialmente em psiquiatria, tiveram uma influência profunda na sua visão do ser humano e na sua abordagem à representação da mente e da memória na sua obra literária.

Percurso literário

O início do percurso literário de Lobo Antunes remonta à década de 1970, com a publicação do seu primeiro romance, "Memória de Elefante", em 1979. Desde então, tem vindo a construir uma obra prolífica, marcada por uma evolução estilística e temática constante. A sua escrita é caracterizada por uma estrutura narrativa não linear, pela multiplicidade de vozes e pela exploração profunda da psique humana, frequentemente revisitando as suas experiências na guerra e as suas consequências na identidade dos indivíduos e na história de Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais conhecidas encontram-se "Memória de Elefante" (1979), "Os Cus de Judas" (1979), "O Esplendor de Portugal" (1997), "Não é um Rio Estrelado" (2001) e "As Mulheres que Damo-nos Conta" (2011). Os temas centrais da sua obra incluem a memória, a loucura, a culpa, a violência, a descolonização, a identidade e a busca de sentido num mundo fragmentado. O estilo de Lobo Antunes é inconfundível: complexo, polifónico, com frases longas e sinuosas, recursivas, que espelham a complexidade do pensamento e da memória. Utiliza frequentemente a fragmentação narrativa, a justaposição de tempos e espaços, e a exploração de diferentes registos de linguagem. A sua obra é marcada por um tom frequentemente sombrio e desesperançado, mas também por uma profunda humanidade e por uma procura constante pela verdade, mesmo que dolorosa. É considerado um dos grandes renovadores da prosa em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A obra de António Lobo Antunes está indissociavelmente ligada ao contexto histórico de Portugal no século XX, nomeadamente aos últimos anos do regime ditatorial, à Guerra Colonial em África e às suas consequências. A sua escrita reflete o trauma coletivo e individual deixado por esses eventos, questionando a narrativa oficial da história e explorando as feridas abertas na identidade portuguesa. É um autor que dialoga criticamente com o passado e o presente de Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal António Lobo Antunes serviu como médico militar em Angola durante a Guerra Colonial, uma experiência que moldou de forma indelével a sua visão do mundo e a sua obra literária. A sua formação psiquiátrica permitiu-lhe uma exploração profunda da mente humana, das suas fragilidades e dos seus mecanismos de defesa. A sua vida pessoal, marcada por experiências intensas e por uma profunda reflexão sobre a condição humana, reflete-se na densidade e na complexidade da sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lobo Antunes é amplamente reconhecido como um dos escritores mais importantes da literatura contemporânea em língua portuguesa e a nível internacional. A sua obra tem sido objeto de inúmeros estudos académicos e tem recebido diversos prémios literários de prestígio. Embora por vezes considerado de leitura difícil, o seu nome é frequentemente apontado como um forte candidato ao Prémio Nobel da Literatura.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por autores como William Faulkner e Marguerite Duras, Lobo Antunes, por sua vez, tem um impacto significativo na literatura contemporânea, sendo admirado pela sua originalidade estilística e pela sua coragem em abordar temas difíceis e tabus. O seu legado reside na sua capacidade de desconstruir narrativas estabelecidas e de oferecer uma visão profunda e multifacetada da experiência humana, especialmente no que diz respeito ao trauma e à memória.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Lobo Antunes é frequentemente analisada como uma complexa exploração da memória traumática, da culpa e da busca por redenção. A sua escrita desafia o leitor a confrontar as verdades incómodas sobre a história de Portugal e a condição humana. As interpretações da sua obra variam, mas convergem na sua originalidade e na sua força expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Lobo Antunes é conhecido por ser um escritor extremamente rigoroso e metódico no seu processo de escrita, dedicando longas horas à elaboração das suas frases e à construção das suas narrativas. A sua abordagem à literatura é vista por muitos como uma forma de terapia, tanto para ele como para os seus leitores, permitindo a exploração e a catarse de traumas e memórias difíceis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Lobo Antunes continua a sua obra literária, sendo um autor ativo e produtivo. A sua memória é construída não apenas através da sua obra, mas também do seu papel como um dos mais importantes cronistas da história recente de Portugal e da complexidade da condição humana.

Poemas

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Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

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Décimas para Gabriela

MOTE
A tua cor de canela
Me traz impressionado,
São os teus lindos cabelos
Em que me trago amarrado.

GLOSA
Tu és uma flor galante
Do reino de Alexandria,
Esta tua simpatia
É um jardim elegante.
Estes teus olhos brilhantes
É uma flor das mais belas.
Minha querida donzela,
Consagro meu coração
À tua linda feição,
À tua cor de canela.

Tu és uma linda rosa,
Um lírio bem cacheado,
Parece um cravo encarnado
A tua boca mimosa.
Tua face cor-de-rosa
Parece um reino encantado.
Há muitos dias passados,
Que sofro tamanha dor,
Porque este tão grande amor
Me traz impressionado.

Tu és um belo jasmin,
Uma açucena doirada,
Uma lapela bordada,
Tu és um verde alecrim,
Cravo branco do jardim,
Tens a cor que mais desejo.
De perder-te tenho medo,
Porque és um amor sem fim
E o que mais te prende a mim
São os teus lindos cabelos.

De ti não posso esquecer,
Em ti penso noite e dia,
Minha maior alegria
É estar contigo ao meu lado,
Em nosso leito, deitado,
Te acariciando com amor,
Cheirando a ti como à flor,
Matando assim meus desejos,
Enroscado em teus cabelos
Em que me trago amarrado.
(Lavras - Ceará, 1959)

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heteronimo
heteronimo

é enorme e é um monstro