Basílio da Gama

Basílio da Gama

1741–1795 · viveu 54 anos PT PT

Basílio da Gama foi um poeta luso-brasileiro, figura importante do Arcadismo em Portugal e no Brasil. Sua obra, marcada pela influência clássica e pela idealização da natureza, celebra a vida bucólica e a figura do índio como um ser puro e nobre. Sua poesia, embora inserida em um contexto literário específico, demonstra uma sensibilidade particular em relação ao ambiente natural e às paisagens americanas, o que o distingue de muitos de seus contemporâneos.

n. 1741-04-08, Tiradentes · m. 1795-07-31, Lisboa

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Morte de Lindóia

Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca com a vista, e treme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota, e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde, ao pé duma lapa cavernosa,
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada e jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão e a mão no tronco
Dum fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la e temem
Que desperte assustada e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açoita o campo com a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!

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Biografia

Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Luiz Basílio da Fonseca **Pseudónimos:** Basílio da Gama **Data e local de nascimento:** 25 de julho de 1740, Vila de São Lourenço de Sabrosa, Trás-os-Montes, Portugal **Data e local de morte:** 19 de novembro de 1795, Roma, Itália **Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem:** Nasceu em família de posses modestas. Ingressou na Companhia de Jesus, o que lhe deu acesso à educação e a uma vida intelectual. **Nacionalidade e língua(s) de escrita:** Português, mas viveu e produziu grande parte de sua obra no contexto do Brasil Colônia, sendo considerado um autor luso-brasileiro. **Contexto histórico em que viveu:** Viveu no século XVIII, período marcado pelo Iluminismo na Europa e pelas transformações sociais e políticas que culminariam nas independências das Américas. No Brasil, vivenciou o ciclo do ouro e as tensões entre a metrópole e a colônia.

Infância e formação

**Origem familiar e ambiente social:** Originário de Trás-os-Montes, região de paisagens rústicas e costumes tradicionais. Aos 17 anos, ingressou na Companhia de Jesus. **Educação formal e autodidatismo:** Recebeu a formação jesuítica, que incluía estudos clássicos, filosofia e teologia. Sua formação literária absorveu profundamente os modelos da antiguidade greco-latina. **Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política):** A cultura clássica, com destaque para Virgílio e Horácio, foi a sua principal influência. A religião católica, como jesuíta, também moldou sua visão de mundo. A poesia bucólica e a idealização da natureza foram pilares de sua formação. **Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu:** O Arcadismo (ou Neoclassicismo), movimento literário que pregava o retorno aos modelos clássicos, a valorização da natureza e a simplicidade pastoril. **Eventos marcantes na juventude:** O ingresso na Companhia de Jesus e sua posterior vinda para o Brasil.

Percurso literário

**Início da escrita (quando e como começou):** Começou a escrever poesia durante sua formação jesuítica, ainda no contexto português. Sua obra ganhou relevo após sua vinda para o Brasil. **Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo):** Sua obra se mantém relativamente homogênea em termos de estilo e temática, centrada nos preceitos do Arcadismo. **Evolução cronológica da obra:** Publicou "O Uruguai" em 1769, obra que lhe trouxe notoriedade. Outras obras importantes são "Euphrosina" (1769) e "Os tempos de hoje" (1774). **Colaborações em revistas, jornais e antologias:** Embora menos proeminente nesse aspecto, sua obra circulou em círculos literários da época. **Atividade como crítico, tradutor ou editor:** Não se dedicou a essas atividades de forma proeminente.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais com datas e contexto de produção:** - "O Uruguai" (1769): Poema épico que narra as guerras contra os índios no sul do Brasil, idealizando o índio e criticando a atuação jesuítica. Foi escrito no contexto das tensões geopolíticas e territoriais da época. - "Euphrosina" (1769): Tragédia pastoril. - "Os tempos de hoje" (1774): Poema satírico. **Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, pátria, espiritualidade, etc.:** A natureza idealizada (locus amoenus), a vida bucólica, a figura do índio "bom" e "selvagem" (influenciado pelo mito do bom selvagem), a crítica à corrupção e à artificialidade da vida urbana, a pátria (no sentido da terra brasileira), a religião. **Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica:** Utilizou predominantemente a forma épica e a métrica clássica (versos decassílabos e heptassílabos, rimas ricas), seguindo os modelos dos poetas greco-latinos. **Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade):** Uso de epítetos, hipérboles, antíteses, comparações. A musicalidade é buscada através da regularidade métrica e rítmica, e da sonoridade dos versos. **Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional:** Predominantemente épico em "O Uruguai", com momentos líricos ao descrever a natureza. Em "Os tempos de hoje", o tom é satírico e crítico. **Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.):** A voz poética busca um tom universalizante ao tratar de temas como a natureza e a condição humana, mas também se expressa de forma pessoal ao defender suas ideias e críticas. **Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos:** Linguagem culta, com vocabulário erudito e referências clássicas. As imagens são frequentemente bucólicas e idealizadas. Os recursos retóricos são elaborados, visando a perfeição formal. **Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura:** A maior inovação foi a temática em "O Uruguai", ao retratar o índio como um herói virtuoso e defensor da terra, em contraponto à visão mais selvagem ou demonizada de outros autores. A idealização da paisagem brasileira também é um ponto de destaque. **Relação com a tradição e com a modernidade:** Fortemente ligado à tradição clássica e arcádica. Em relação à modernidade, representa uma ponte entre a cultura europeia e a realidade brasileira, mas ainda dentro de um quadro estético conservador. **Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo):** Arcadismo. **Obras menos conhecidas ou inéditas:** Sua produção não inédita é escassa, sendo "O Uruguai" a obra central e mais estudada.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico **Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes):** "O Uruguai" está diretamente ligado às Guerras dos Sete Povos das Missões e às disputas territoriais entre Portugal e Espanha pelo controle da região do Rio da Prata. Sua obra reflete as tensões entre a ordem jesuítica e a expansão territorial portuguesa. **Relação com outros escritores ou círculos literários:** Foi contemporâneo de outros importantes arcádicos, como Santa Rita Durão e Cláudio Manuel da Costa. Sua participação nos círculos literários da época o projetou. **Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo):** Pertence à Segunda Geração Arcaísta Portuguesa e é um dos representantes mais importantes do Arcadismo no Brasil. **Posição política ou filosófica:** Defendia a expulsão dos jesuítas do Brasil, alinhando-se à política pombalina. Sua visão sobre o índio estava em sintonia com as ideias iluministas sobre o "bom selvagem", embora fosse uma idealização. **Influência da sociedade e cultura na obra:** A sociedade colonial brasileira, com suas particularidades geográficas e conflitos, é o pano de fundo de sua obra. **Diálogos e tensões com contemporâneos:** O debate sobre a figura do índio e a atuação dos jesuítas em "O Uruguai" gerou discussões com outros autores e intelectuais da época. **Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo:** "O Uruguai" foi bem recebido em vida, consolidando sua fama como poeta. Seu reconhecimento como figura central do Arcadismo perdura até hoje.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal **Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra:** Poucos detalhes são conhecidos sobre sua vida pessoal para além de sua trajetória como jesuíta e poeta. **Amizades e rivalidades literárias:** Manteve contato com outros escritores de sua época, mas sua vida foi marcada pela dedicação à carreira eclesiástica e literária. **Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos:** A expulsão da Companhia de Jesus, em 1759, foi um evento crucial em sua vida, forçando-o a buscar outras formas de subsistência e a reavaliar sua trajetória. **Profissões paralelas (se não viveu só da poesia):** Foi jesuíta, estudou leis e atuou como advogado. **Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas:** Como jesuíta, sua formação era profundamente católica, mas sua obra demonstra uma forte influência do pensamento iluminista em sua visão sobre a natureza e a sociedade. **Posições políticas e envolvimento cívico:** Foi favorável às políticas de Marquês de Pombal, incluindo a expulsão dos jesuítas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção **Lugar na literatura nacional e internacional:** Figura proeminente do Arcadismo luso-brasileiro, com "O Uruguai" sendo uma obra seminal para a poesia épica brasileira. **Prémios, distinções e reconhecimento institucional:** Não há registro de prémios formais em sua época. Seu reconhecimento veio pela qualidade e originalidade de sua obra. **Receção crítica na época e ao longo do tempo:** "O Uruguai" foi elogiado por sua força épica e pela originalidade do tema. A crítica posterior o consolidou como um dos maiores poetas do Arcadismo. **Popularidade vs reconhecimento académico:** Sua obra é estudada em âmbito académico, sendo menos popular entre o público geral em comparação com poetas de épocas posteriores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado **Autores que o influenciaram:** Virgílio, Horácio, Camões (em "Os Lusíadas"), e os poetas arcádicos de sua época. **Poetas e movimentos que influenciou:** Influenciou poetas que buscaram retratar a natureza e o cenário brasileiro com elementos clássicos, embora o Arcadismo tenha sido um movimento de transição. **Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas:** Contribuiu para a consolidação de uma poesia que se debruçava sobre o cenário americano e para a valorização da forma épica com temas nacionais. Seu retrato do índio como "bom selvagem" foi uma contribuição temática significativa. **Entrada no cânone literário:** É um autor consolidado no cânone da literatura portuguesa e brasileira, especialmente no que tange ao período do Arcadismo. **Traduções e difusão internacional:** Sua obra "O Uruguai" teve alguma difusão em outros países europeus, principalmente pela sua temática e pela representação do "bom selvagem." **Adaptações (música, teatro, cinema):** Não há registros significativos de adaptações. **Estudos académicos dedicados à obra:** Sua obra é objeto de estudo em cursos de literatura portuguesa e brasileira, com análises focadas em seu estilo arcádico, sua temática e sua posição na história literária.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica **Leituras possíveis da obra:** "O Uruguai" pode ser lido como um poema épico nacionalista, um precursor da literatura indianista, um reflexo das tensões entre Portugal e Espanha, ou uma obra que, apesar de sua moldura clássica, tenta dar voz a um cenário e a personagens "novos" para a literatura europeia. **Temas filosóficos e existenciais:** A busca pela virtude e pela simplicidade em oposição à corrupção urbana; a ideia de uma "natureza perfeita"; a crítica à colonização e à imposição de valores europeus sobre os povos nativos (embora com uma visão idealizada). **Controvérsias ou debates críticos:** O principal debate gira em torno da sua posição pró-Pombalina e da sua crítica aos jesuítas, que alguns estudiosos veem como um reflexo da política anticlerical da época. A representação do índio como "bom selvagem" também é vista criticamente, como uma projeção europeia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos **Aspetos menos conhecidos da personalidade:** Pouco se sabe sobre sua vida íntima; sua persona pública foi moldada por sua atuação jesuítica e literária. **Contradições entre vida e obra:** A idealização da natureza e do índio em sua obra contrasta com a realidade muitas vezes crua do período colonial e com sua própria trajetória como homem de Igreja e de letras, inserido nas disputas de poder da época. **Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor:** Sua saída da Companhia de Jesus e sua posterior aproximação com o Marquês de Pombal são eventos que demonstram uma certa flexibilidade em sua trajetória de vida. **Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética:** A paisagem do sul do Brasil e os cenários bucólicos europeus inspiraram sua poesia. A dedicação ao estudo e à escrita eram seus rituais. **Hábitos de escrita:** Escrevia com rigor formal, aplicando os preceitos da estética arcádica. **Episódios curiosos:** Sua morte em Roma, sem poder retornar a Portugal ou ao Brasil, marca o fim de uma vida de trânsito entre duas culturas. **Manuscritos, diários ou correspondência:** A correspondência que manteve com outros intelectuais da época é um importante registro de seu círculo literário e de suas ideias.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória **Circunstâncias da morte:** Faleceu em Roma, em 1795, devido a uma doença (possivelmente tuberculose ou icterícia). **Publicações póstumas:** Sua obra principal, "O Uruguai", já havia sido publicada em vida. Outras obras e edições de seus poemas foram compiladas postumamente.

Poemas

9

Morte de Lindóia

Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca com a vista, e treme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota, e interna
Parte de antigo bosque, escuro e negro,
Onde, ao pé duma lapa cavernosa,
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada e jasmins e rosas.
Este lugar delicioso e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão e a mão no tronco
Dum fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia e cinge
Pescoço e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la e temem
Que desperte assustada e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim sacode
O arco e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia e fere
A serpente na testa, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açoita o campo com a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!

28 586

A Uma Senhora

Na idade em qu'eu brincando entre os pastores
Andava pela mão e mal andava,
Uma ninfa comigo então brincava
Da mesma idade e bela como as flores.

Eu com vê-la sentia mil ardores;
Ela punha-se a olhar e não falava;
Qualquer de nós podia ver que amava,
Mas quem sabia então que eram amores?

Mudar de sítio a ninfa já convinha,
Foi-se a outra ribeira; e eu naquela
Fiquei sentindo a dor que n'alma tinha.

Eu cada vez mais firme, ela mais bela;
Não se lembra ela já de que foi minha,
Eu ainda me lembro que sou dela!...


In: GAMA, Basílio da. Obras poéticas. Precedida de uma biogr. crít. e est. lit. do poeta por José Veríssimo. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. (Coleção dos autores célebres da literatura brasileira)
11 161

A Uma Senhora Natural do Rio de Janeiro

Já, Marfiza cruel, me não maltrata
Saber que usas comigo de cautelas,
Qu'inda te espero ver, por causa delas,
Arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças d'oiro converte-se em prata.

Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos,
Por que me negas hoje esta ventura?

Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco, a flor dos anos.


In: GAMA, Basílio da. Obras poéticas. Precedida de uma biogr. crít. e est. lit. do poeta por José Veríssimo. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. (Coleção dos autores célebres da literatura brasileira)
6 606

Canto Primeiro [I

FUMAM ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos, e impuros,
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos. Dura inda nos vales
O rouco som da irada artilheria.
MUSA, honremos o Herói, que o povo rude
Subjugou do Uraguai, e no seu sangue
Dos decretos reais lavou a afronta.
Ai tanto custas, ambição de império!
E Vós, por quem o Maranhão pendura
Rotas cadeias, e grilhões pesados,
Herói, e Irmão de Heróis, saudosa, e triste,
Se ao longe a vossa América vos lembra,
Protegei os meus versos. Possa em tanto
Acostumar ao vôo as novas asas,
Em que um dia vos leve. Desta sorte
Medrosa deixa o ninho a vez primeira
Águia, que depois foge à humilde terra,
E vai ver de mais perto no ar vazio
O espaço azul, onde não chega o raio.
(...)


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
7 001

Canto Primeiro [II

(...)

Ali Catâneo ao General pedia,
Que do princípio lhe dissesse as causa
Da nova guerra, e do fatal tumulto.
Se aos Padres seguem os rebeldes povos?
Quem os governa em paz, e na peleja?
Que do premeditado oculto Império
Vagamente na Europa se falava.
Nos seus lugares cada qual imóvel
Pende da sua boca: atende em roda
Tudo em silêncio, e dá princpípio Andrade.
O nosso último Rei, e o Rei de Espanha
Determinaram, por cortar de um golpe,
Como sabeis, neste ângulo da terra,
As desordens de povos confinantes,
Que mais certos sinais nos dividissem.
Tirando a linha, de onde a estéril costa,
E o cerro de Castilhos o mar lava
Ao monte mais vizinho, e que as vertentes
Os termos do domínio assinalassem.
Vossa fica a Colônia, e ficam nossos
Sete povos, que os Bárbaros habitam
Naquela Oriental vasta campina,
Que o fértil Uraguai discorre, e banha.
Quem podia esperar que uns Índios rudes,
Sem disciplina, sem valor, sem armas,
Se atravessassem no caminho aos nossos,
E que lhes disputassem o terreno!
Enfim não lhes dei ordens para a guerra:
Frustrada a expedição, enfim voltaram.
C'o vosso General me determino
A entrar no campo juntos, em chegando
A doce volta da estação das flores.
Não sofrem tanto os Índios atrevidos:
Juntos um nosso forte em tanto assaltam:
E os Padres os incitam, e acompanham.
Que, a sua discrição, só eles podem
Aqui mover, ou sossegar a guerra.
(...)


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
2 745

Canto Quarto

(...) Não faltava,
Para se dar princípio à estranha festa,
Mais que Lindóia. Há muito lhe preparam
Todas de brancas penas revestidas
Festões de flores as gentis donzelas.
Cansados de esperar, ao seu retiro
Vão muitos impacientes a buscá-la.
Estes de crespa Tanajura aprendem
Que entrara no jardim triste, e chorosa,
Sem consentir que alguém a acompanhasse.
Um frio susto corre pelas veias
De Caitutu, que deixa os seus no campo;
E a irmã por entre as sombras do arvoredo
Busca co'a vista, e teme de encontrá-la.
Entram enfim na mais remota, e interna
Parte de antigo bosque, escuro, e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernosa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jasmins, e rosas.
Este lugar delicioso, e triste,
Cansada de viver, tinha escolhido
Para morrer a mísera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva, e nas mimosas flores,
Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreste, que espalhava
Melancólica sombra. Mais de perto
Descobrem que se enrola no seu corpo
Verde serpente, e lhe passeia, e cinge
Pescoço, e braços, e lhe lambe o seio.
Fogem de a ver assim sobressaltados,
E param cheios de temor ao longe;
E nem se atrevem a chamá-la, e temem
Que desperte assustada, e irrite o monstro,
E fuja, e apresse no fugir a morte.
Porém o destro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, sem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira, e o temor. Enfim sacode
O arco, e faz voar a aguda seta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere
A serpente na testa, e a boca, e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.
Açouta o campo co'a ligeira cauda
O irado monstro, e em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua,
Que ao surdo vento, e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.
Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime, e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado, e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!
(...)

Imagem - 00200004


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
4 335

Canto Segundo

(...)

Já para o nosso campo vêm descendo,
Por mandado dos seus, dous dos mais nobres,
Sem arcos, sem aljavas; mas as testas
De várias, e altas penas coroadas,
E cercadas de penas as cinturas,
E os pés, e os braços, e o pescoço. Entrara
Sem mostras, nem sinal de cortesia,
Cepé no pavilhão. Porém Cacambo
Fez, ao seu modo, cortesia estranha,
E começou: Ó General famoso,
Tu tens à vista quanta gente bebe
Do soberbo Uraguai a esquerda margem.
Bem que os nossos Avós fossem despojo
Da perfídia de Europa, e daqui mesmo
C'os não vingados ossos dos parentes
Se vejam branquejar ao longe os vales,
Eu desarmado, e só buscar-te venho.
Tanto espero de ti. E enquanto as armas
Dão lugar à razão, Senhor, vejamos
Se se pode salvar a vida, e o sangue
De tantos desgraçados. Muito tempo
Pode ainda tardar-nos o recurso
Com o largo Oceano de permeio,
Em que os suspiros dos vexados povos
Perdem o alento. O dilatar-se a entrega
Está nas nossas mãos, até que um dia
Informados os Reis nos restituam
A doce antiga paz. Se o Rei de Espanha
Ao teu Rei que dar terras com mão larga
Que lhe dê Buenos Aires, e Correntes,
E outras, que tem por estes vastos climas;
Porém não pode dar-lhe os nossos povos.
E inda no caso que pudesse dá-los
Eu não sei se o teu Rei sabe o que troca
Porém tenho receio que o não saiba.
Eu já vi a Colônia Portuguesa
Na tenra idade dos primeiros anos,
Quando o meu velho pai c'os nossos arcos
Às sitiadoras Tropas Castelhanas
Deu socorro, e mediu convosco as armas.
E quererão deixar os Portugueses
A Praça, que avassala, e que domina
O Gigante das águas, e com ela
Toda a navegação do largo rio,
Que parece que pôs a natureza
Para servir-vos de limite, e raia?
Será; mas não o creio. E depois disto,
As campinas, que vês, e a nossa terra,
Sem o nosso suor, e os nossos braços,
De que serve ao teu Rei? Aqui não temos
Nem altas minas, nem os caudalosos
Rios de areias de ouro. Essa riqueza,
Que cobre os templos dos benditos Padres,
Fruto da sua indústria, e do comércio
Da folha, e peles, é riqueza sua.
Com o arbítrio dos corpos, e das almas
O Céu lha deu em sorte. A nós somente
Nos toca arar, e cultivar a terra,
Sem outra paga mais que o repartido
Por mãos escassas mísero sustento.
Pobres choupanas, e algodões tecidos,
E o arco, e as setas, e as vistosas penas
São as nossas fantásticas riquezas.
Muito suor, e pouco, ou nenhum fasto.
Volta, Senhor, não passes adiante.
Que mais queres de nós? Não nos obrigues
A resistir-te em campo aberto. Pode
Custar-te muito sangue o dar um passo.
Não queiras ver se cortam nossas frechas.
Vê que o nome dos Reis não nos assusta.
O teu está mui longe; e nós os Índios
Não temos outro Rei mais do que os Padres.
(...)



In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941
4 182

Canto Terceiro (I)

(...)
Respirava descanso a natureza.
Só na outra margem não podia em tanto
O inquieto Cacambo achar sossego.
No perturbado interrompido sono,
Talvez fosse ilusão, se lhe apresenta
A triste imagem de Cepé despido,
Pintado o rosto do temor da morte,
Banhado em negro sangue, que corria
Do peito aberto, e nos pisados braços
Inda os sinais da mísera caída.
Sem adorno à cabeça, e aos pés calcada
A rota aljava, e as descompostas penas.
Quanto diverso do Cepé valente,
Que no meio dos nossos espalhava,
De pó, de sangue, e de suor coberto,
O espanto, a morte! E diz-lhe em tristes vozes:
Foge, foge, Cacambo. E tu descansas,
Tendo tão perto os inimigos? Torna,
Torna aos teus bosques, e nas pátrias grutas
Tua fraqueza, e desventura encobre.
(...)
(...) Assim dizendo
Se perdeu entre as nuvens, sacudindo
Sobre as tendas no ar fumante tocha;
E assinala com chamas o caminho.
Acorda o Índio valeroso, e salta
Longe da curva rede, e sem demora
O arco, e as setas arrebata, e fere
O chão com o pé: quer sobre o largo rio
Ir peito a peito a contrastar co'a morte.
Tem diante dos olhos a figura
Do caro amigo, e inda lhe escuta as vozes.
Pendura a um verde tronco as várias penas,
E o arco, e as setas, e a sonora aljava;
E onde mais manso, e mais quieto o rio
Se estende, e espraia sobre a ruiva areia,
Pensativo, e turbado entra; e com água
Já por cima do peito as mãos, e os olhos
Levanta ao Céu, que ele não via, e às ondas
O corpo entrega. (...)
(...)
Lá, como é uso do país, roçando
Dous lenhos entre si, desperta a chama,
Que já se ateia nas ligeiras palhas,
E velozmente se propaga. Ao vento
Deixa Cacambo o resto, e foge a tempo
Da perigosa luz; porém na margem
Do rio, quando a chama abrasadora
Começa a alumiar a noite escura,
Já sentido dos Guardas não se assusta,
E temerária, e venturosamente,
Fiando a vida aos animosos braços,
De um alto precipício às negras ondas
Outra vez se lançou, e foi de um salto
Ao fundo rio a visitar a areia.
Debalde gritam, e debalde às margens
Corre a gente apressada. Ele entretanto
Sacode as pernas, e os nervosos braços:
Rompe as escumas assoprando, e a um tempo
Suspendido nas mãos, voltando o rosto,
Via nas águas trêmulas a imagem
Do arrebatado incêndio, e se alegrava.
Não de outra sorte o cauteloso Ulisses,
Vaidoso da ruína, que causara,
Viu abrasar de Tróia os altos muros,
E a perjura Cidade envolta em fumo
Encostar-se no chão, e pouco a pouco
Desmaiar sobre as cinzas. (...)

Imagem - 00250004


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
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Canto Terceiro (II)

(...)
Mas a enrugada Tanajura, que era
Prudente, e experimentada, e que a seus peitos
Tinha criado em mais ditosa idade
A mãe da mãe da mísera Lindóia,
E lia pela história do futuro.
Visionária, supersticiosa,
Que de abertos sepulcros recolhia
Nuas caveiras, e esburgados ossos,
A uma medonha gruta, onde ardem sempre
Verdes candeias, conduziu chorando
Lindóia, a quem amava como filha;
E em ferrugento vaso licor puro
De viva fonte recolheu. Três vezes
Girou em roda, e murmurou três vezes
Co'a carcomida boca ímpias palavras,
E as águas assoprou: depois com o dedo
Lhe impõe silêncio, e faz que as águas note.
Como no mar azul, quando recolhe
A lisonjeira viração as asas,
Adormecem as ondas, e retratam
Ao natural as debruçadas penhas,
O copado arvoredo, e as nuvens altas:
Não de outra sorte à tímida Lindóia
Aquelas águas fielmente pintam
O rio, a praia, o vale, e os montes, onde
Tinha sido Lisboa; e viu Lisboa
Entre despedaçados edifícios,
Com o solto cabelo descomposto,
Tropeçando em ruínas encostar-se
Desamparada dos habitadores
A Rainha do Tejo, e solitária,
No meio de sepulcros procurava
Com seus olhos socorro; e com seus olhos
Só descobria de um, e de outro lado
Pendentes muros, e inclinadas torres.
Vê mais o Luso Atlante, que forceja
Por sustentar o peso desmedido
Nos roxos ombros. Mas do Céu sereno,
Em branca nuvem Próvida Donzela
Rapidamente desce, e lhe apresenta
De sua mão, Espírito Constante,
Gênio de Alcides, que de negros monstros
Despeja o Mundo, e enxuga o pranto à praia.
Tem por despojos cabeludas peles
De ensanguentados, e famintos lobos,
E fingidas raposas. Manda, e logo
O incêndio lhe obedece; e de repente
Por onde quer que ele encaminha os passos,
Dão lugar as ruínas. Viu Lindóia
Do meio delas, só a um seu aceno,
Sair da terra feitos, e acabados
Vistosos edifícios. Já mais bela
Nasce Lisboa de entre as cinzas: glória
Do grande Conde, que co'a mão robusta
Lhe firmou na alta testa os vacilantes
Mal seguros castelos. Mais ao longe
Prontas no Tejo, e ao curvo ferro atadas
Aos olhos dão de si terrível mostra,
Ameaçando o mar, as poderosas
Soberbas naus. (...)

Imagem - 00200006


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
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Comentários (3)

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Rick
Rick

Quais são as poesia lírica dele?

Taís
Taís

O ano de nascimento não estaria errada?

escola
escola

o José Basílio da Gama foi um homem maravilhoso.