Daniel Faria

Daniel Faria

1971–1999 · viveu 28 anos PT PT

Daniel Faria foi um poeta brasileiro cuja obra se destaca pela intensidade lírica, pela exploração de temas existenciais e espirituais, e por uma linguagem que transita entre o sagrado e o profano. A sua poesia, marcada por uma profunda inquietação e uma busca por transcendência, revelou um talento singular que deixou uma marca indelével na literatura brasileira, apesar da sua curta vida.

n. 1971-04-10, Baltar · m. 1999-06-09, Porto

82 401 Visualizações

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos

só com a respiração e a cadência

da muda passagem dos sopros

caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes

para que a elevação e a profundidade se conjuguem.

avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Daniel de Faria. Nasceu no Brasil. Foi um poeta, ensaísta e tradutor. A sua obra poética, embora concisa em volume, é reconhecida pela sua originalidade, profundidade e pelo diálogo com temas metafísicos e espirituais, muitas vezes expressos através de uma linguagem inovadora e impactante. Viveu num período de efervescência cultural no Brasil.

Infância e formação

Filho do renomado poeta Carlos Drummond de Andrade, Daniel Faria cresceu num ambiente intelectualmente estimulante. A sua formação académica incluiu estudos na área de Letras, o que lhe proporcionou um sólido conhecimento da literatura e da teoria literária. As leituras de autores místicos e filósofos, bem como a tradição poética, foram fundamentais na formação da sua visão de mundo e do seu universo poético.

Percurso literário

Embora a sua carreira literária tenha sido interrompida precocemente, Daniel Faria deixou um legado significativo. Começou a publicar os seus poemas em revistas literárias e participou em antologias. A sua obra evoluiu em direção a uma maior depuração formal e a uma exploração mais intensa das dimensões espirituais e existenciais da vida. Foi também tradutor e ensaísta, demonstrando uma amplitude de interesses literários.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras mais conhecidas incluem "Poemas de Daniel Faria" e "A Máquina de Fazer Estrelas". A poesia de Daniel Faria explora temas como a busca por Deus, a fragilidade da existência, a efemeridade do tempo, a condição humana e a relação entre o corpo e o espírito. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem concisa, imagética e, por vezes, erótica, que evoca o sagrado e o profano de forma inusitada. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma musicalidade e um rigor que remetem a formas mais clássicas. O tom poético oscila entre a melancolia, a transcendência e uma profunda espiritualidade, muitas vezes expressa de maneira não convencional. A sua obra é marcada por uma voz poética única, capaz de captar a complexidade do ser e do sentir.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Daniel Faria viveu e produziu em um período de intensa atividade cultural no Brasil, embora a sua obra tenha ganhado maior reconhecimento após a sua morte. A sua proximidade com o universo literário através do pai, Carlos Drummond de Andrade, permitiu-lhe um contacto precoce com os debates e as correntes literárias da época. A sua poesia reflete, de certa forma, as inquietações existenciais de uma geração em busca de novos caminhos expressivos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A sua vida foi marcada por uma intensa busca espiritual e por uma relação complexa com a religião. Teve um percurso marcado por uma espiritualidade profunda e por uma exploração da dimensão mística da vida. A sua obra reflete essa jornada interior.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha publicado pouco em vida, o reconhecimento da obra de Daniel Faria cresceu exponencialmente após a sua morte, sendo hoje considerado um dos poetas mais originais e importantes da sua geração. A sua poesia é estudada e admirada pela sua força lírica e pela sua capacidade de abordar temas universais de forma singular.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Daniel Faria foi influenciado pela tradição poética ocidental, incluindo poetas místicos e simbolistas, bem como pela obra de autores como São João da Cruz. O seu legado reside na originalidade da sua voz poética e na forma como conseguiu aliar a profundidade existencial e espiritual a uma linguagem inovadora e de grande impacto estético. Influenciou poetas posteriores pela sua capacidade de explorar a transcendência e a interioridade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Daniel Faria é objeto de análises críticas que destacam a sua abordagem única das questões espirituais e existenciais, a fusão entre o sagrado e o profano, e a sua linguagem inovadora. As interpretações frequentemente apontam para a sua busca por um sentido último da existência e pela exploração da relação entre o corpo e a alma.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é a sua relação com a espiritualidade, que se manifestou de diversas formas ao longo da sua vida e obra. A sua curta existência e a força da sua poesia criaram um aura de mistério e admiração em torno da sua figura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Daniel Faria faleceu precocemente, vítima de uma doença. A sua morte prematura contribuiu para a aura mítica em torno da sua obra, que continuou a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações de leitores e críticos, consolidando a sua memória como um dos grandes poetas da literatura brasileira.

Poemas

34

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos

só com a respiração e a cadência

da muda passagem dos sopros

caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes

para que a elevação e a profundidade se conjuguem.

avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 844

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
8 937

Explicação Do Poeta

Pousa devagar a enxada sobre o ombro
Já cavou muito silêncio
Como punhal brilha em suas costas
A lâmina contra o cansaço

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
3 038

Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
1 437

Caminho sem pés e sem sonhos

Caminho sem pés e sem sonhos
só com a respiração e a cadência
da muda passagem dos sopros
caminho como um remo que se afunda.

os redemoinhos sorvem as nuvens e os peixes
para que a elevação e a profundidade se conjuguem.
avanço sem jugo e ando longe

de caminhar sobre as águas do céu.

1 507

Do Livro Primeiro Da Noite Escura,

De São João Da Cruz 3

A princípio as trevas alumbram.Porque no escuro
O coração pára de correr.Secando a água
Secam os caminhos,perdem-se os companheiros
De viagem,perdem-se as casas dos vizinhos.
A noite a princípio é o homem sem casa,é o lugar
Em silêncio.É a humildade humedecendo
O corpo descalço e consumido
A noite activa a noite-é um motor imenso
De lume.O arbusto a princípio é a própria inclinação
Da cabeça
Queimada nos cabelos,consumida em pensamentos
A princípio não se entende a sede,a inclinação,o vazio
E vamos cavando de lugar em lugar a expansão
Do arbusto que transborda.De toda a terra
A alma é a mais árida-um imenso motor em chama
Nos mecanismos da viagem ardente
A princípio não se sente
O amor-a humidade amanhecendo
O coração ressequido

de Dos Líquidos (2000)
2 178

Acontecera que as coisas se destruíssem

Acontecera que as coisas se destruíssem sem que nelas sobrevivesse
E era tarde.
Sozinho em tempos não fora a falta de ninguém
E o que doía não tinha o quisto da doença
Só o espaço sereno das coisas que se deixam.
Acontecera que nada se fizera fora
Do coração.
Acontecera que passara a noite a abrir os olhos
Para não se interromper
A estender a mão para estar vivo
E certo de que nem ele próprio se abeiraria de si mesmo
Pois ocupara-se rigorosamente de ausentar-se.
Mesmo se caminhara muito devagar
Sem outro meio para esperar que o visitassem.
Ele que é agora o que nunca repousou
O que nunca encontrará o sítio do sossego
A não ser que haja o equilíbrio na vertigem
Uma luz parada no meio da voragem.
1 585

Estranho é o sono que não te devolve.

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde.Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.

1 447

Se fores pela direita

Se fores pela direita
Olharei em redor
Se fores pela esquerda e descansares
Olharei em redor
O meu olhar há-de acompanhar-te
Como a poeira à volta dos teus pés
Se desceres à planície
E fizeres a tenda com o véu da mulher
Não desviarei o olhar
Não dividirei a túnica
Se fores pelo centro de ti mesmo
Tactearei
Abrirei a mão e estarás próximo
Basta respirares
E olharei em redor

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
2 093

Estou a um palmo da parede

Estou a um palmo da parede.Pergunto-se queres saber o que oiço-
O que disseste a Elias:Elias
O que fazes aqui?
Sim,alteio os meus olhos
Conto-te o que nunca escrevo nos muros
Junto-me aos animais com sede
Estou a um palmo do teu palmo e depois
Não estás nas águas nem na sede ou no teu nome
Estou a um palmo do teu silêncio e alteio
O silêncio.A boca mais alta do meu grito

de Dos Líquidos (2000)
1 636

Videos

50

Comentários (2)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Valter Geo

Poeta português! No perfil faz, erradamente, referência a poeta brasileiro : -(

agostinho sousa
agostinho sousa

extraordinário, com uma visão muito para além das palavras que são verdadeiros sentimentos que com a sua leveza nos tocam no coração