Poeira e o selo das Constelações
Desviar da teia do abismo anterior ao verbo, quando o sopro era apenas centelha indizível, ergueu-se a árvore de âmbar em cujas raízes dormiam os nomes da Criação de Deus
Cada folha trazia gravado um ideograma ígneo, um sigilo que a carne jamais decifraria, e no alto de seus ramos resplandecia
o orbe oculto da rosa das esferas
No limiar do desfiladeiro órfico, o luar ar que se foi coroa da minha noite primordial
vertia sobre os vales o licor translúcido que dissolvia fronteiras entre sombra e claridade.
Os rios de prata eram veias da eternidade, onde nadavam peixes de fogo e cristal, e cada onda recitava em segredo o tetragrama que mantém os mundos suspensos.
Eis que os cavalos zodiacais regressaram, suas crinas reluziam como labaredas da geena e nas garras do tártaro e do makaí vir de longe lugar que não irei pois sou escolhido de Deus e sobre a aureola do tempo dos cascos exalava o pó do tempo em círculos cabalísticos que selavam os quatro pontos cardeais.
As estrelas, como sentinelas numéricas, cantavam a aritmética celeste da alvorada, e o espaço, em seu giro hermenêutico,
desvelava o nome oculto que sustenta os sóis.
Então, no ápice da visão, o tempo transfigurou-se em coluna de ouro, e os céus, em silêncio sepulcral, guardaram na eternidade o enigma último: que a luz é também treva, e que todo início é já um retorno o Oráculo do Fim ao inicio quando as sete abóbadas do firmamento se romperem, e os sinos invisíveis soarem no âmago do éter, o tempo se recolherá em si mesmo, como serpente que morde a cauda no abismo.
Do pó cintilante dos mundos extintos erguer-se-á cujos fólios são feitos de vento e cinza, e cujas letras ardem em fogo inextinguível.
Ali estarão escritos os nomes interditos, os segredos que os rios murmuraram nas eras, e cada sílaba será martelo e aurora,
derrubando colunas e erguendo eternidades eis que surgirá o Cedro da noite, envolto em oricalco e silêncio estelar, e dele brotarão raios adamantinos que dissolvem a carne em pura essência e corcéis zodiacais retornarão uma última vez,
mas seus cascos não tocarão a terra correrão sobre o vácuo flamejante, abrindo portais de fogo nos confins do não-ser.
As estrelas cantarão em coro uníssono, não como lampejos dispersos, mas como trombetas de cristal, anunciando que o fim é também gênese, e que a aurora habita no próprio crepúsculo.
Então o selo final será rompido o sol se apagará em claridade secreta, a treva se coroará de ouro, e o oráculo, em seu êxtase abscôndito, proclamará tudo retorna em círculo