Viriato da Cruz

Viriato da Cruz

1928–1973 · viveu 45 anos AO AO

Viriato da Cruz foi um poeta, jornalista e político angolano, figura central na luta pela independência de Angola. A sua obra poética, marcada pela força expressiva, pelo lirismo engajado e pela denúncia social, reflete as aspirações do povo angolano e a sua luta contra o colonialismo. Foi um dos fundadores do MPLA.

n. 1928-03-25, Porto Amboim · m. 1973-06-13, Pequim

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Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Viriato da Cruz foi um poeta, jornalista e político angolano, considerado um dos mais importantes poetas da geração de transição para a independência de Angola. Foi uma figura proeminente no movimento nacionalista.

Infância e formação

Nasceu em Luanda e teve uma formação que o expôs tanto à cultura angolana quanto às influências externas. A sua educação formal, combinada com a sua vivência social e política, moldou a sua consciência crítica e o seu engajamento.

Percurso literário

O percurso literário de Viriato da Cruz está intrinsecamente ligado à sua atividade política e ao contexto da luta anticolonial. Começou a escrever poesia na juventude, expressando em seus versos os sentimentos de opressão e a aspiração à liberdade. Foi um dos fundadores do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) em 1956, e a sua poesia serviu como um importante veículo de mobilização e conscientização política.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Viriato da Cruz é marcada por um forte lirismo social e nacionalista. Seus poemas expressam a dor, a revolta e a esperança do povo angolano, denunciando as injustiças do regime colonial. Utiliza uma linguagem direta e emotiva, muitas vezes com recursos expressivos que evocam a oralidade e a cultura africana. Temas como a identidade angolana, a terra, a luta pela liberdade e a dignidade humana são centrais em sua obra. Um dos seus poemas mais conhecidos é "Makéla do Makéla", que se tornou um hino de resistência. O seu estilo, embora acessível, possui uma grande força expressiva e uma musicalidade que o aproximam da tradição oral.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viriato da Cruz viveu e atuou num período crucial da história de Angola: a luta pela independência. Foi um dos pioneiros na articulação do discurso nacionalista e na sua expressão artística. O seu trabalho como jornalista e ativista político deu-lhe uma perspetiva única sobre os desafios enfrentados pelo seu povo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além da sua atividade como poeta e político, Viriato da Cruz dedicou-se ao jornalismo, utilizando essa plataforma para divulgar as suas ideias e defender a causa angolana. A sua vida foi marcada pelo compromisso com a libertação nacional.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra poética não seja tão vasta quanto a de outros autores, Viriato da Cruz é amplamente reconhecido como um dos poetas fundadores da literatura angolana moderna e um símbolo da resistência. A sua poesia é estudada e valorizada pelo seu testemunho histórico e pela sua força estética.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua poesia reflete influências da poesia social e engajada, mas com uma marca distintiva da realidade angolana. O seu legado é o de um poeta que soube dar voz às aspirações de um povo e que contribuiu significativamente para a formação da identidade literária de Angola.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Viriato da Cruz é vista como um importante documento da história de Angola e da luta pela sua independência. A sua poesia é analisada pela forma como consegue unir a expressão individual e lírica com o discurso coletivo e político.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Foi um dos primeiros a usar o nome "Angola" de forma assertiva na sua poesia, contribuindo para a consolidação de um sentimento nacional.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Viriato da Cruz faleceu em exílio, mas a sua obra e o seu legado como ativista permanecem vivos na memória coletiva de Angola, sendo celebrado como um herói nacional e um importante poeta.

Poemas

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Namoro

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando
de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas

Sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seus seios, laranjas - laranjas do Loje
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe essa carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o amigo Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo, rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei á Avo Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, á porta da fabrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbudo, sujo e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
"-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

Para me distrair
levaram-me ao baile do Sô Januario
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso
as moças mais lindas do Bairro Operário.

Tocaram uma rumba - dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim !"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
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Serão de Menino

Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta das estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos...

na noite de breu,
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos...

"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
..........................................
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
("- Não tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão - dê-se à corça."

Mas quando lá fora
o vento irado nas frestas chora
e ramos xuxualha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:

- Eué
- É casumbi...

E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitende -
a gente grande com gosto ri...

Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres busca, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...

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Makèzú

- "Kuakiè!!!... Makèzú, Makèzú..."

...................................................


O pregão da avó Ximinha
É mesmo como os seus panos,
Já não tem a cor berrante
Que tinha nos outros anos.

Avó Xima está velhinha,
Mas de manhã, manhãzinha,
Pede licença ao reumâtico
E num passo nada prático
Rasga estradinhas na areia...


Lá vai para um cajueiro
Que se levanta altaneiro
No cruzeiro dos caminhos
Das gentes que vão p'a Baixa.



Nem criados, nem pedreiros
Nem alegres lavadeiras
Dessa nova geração
Das "venidas de alcatrão"
Ouvem o fraco pregão
Da velhinha quitandeira.


- "Kuakiè... Makèzú... Makèzú..."
- "Antão, véia, hoje nada?"
- "Nada, mano Filisberto...
Hoje os tempo tá mudado..."


- "Mas tá passá gente perto...
Como é aqui tás fazendo isso?"



- "Não sabe?! Todo esse povo
Pegó um costume novo
Qui diz qué civrização:
Come só pão com chouriço
Ou toma café com pão...




E diz ainda pru cima
(Hum... mbundo kène muxima...)
Qui o nosso bom makèzú
É pra veios como tu".



- "Eles não sabe o que diz...
Pru qué qui vivi filiz
E tem cem ano eu e tu?"


- "É pruquê nossas raiz
Tem força do makèzú!..."
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